COMPLETOU um ano que este blog deu início à publicação de uma série de reportagens sobre como o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), é bom articulador.

Eis que há um mês ocupa o cargo de chefe da Casa Civil da Presidência da República, a mais sensível das funções políticas no Palácio do Planalto em Brasília, indicado a Dilma Rousseff pelo companheirão Luís Inácio Lula da Silva!

O atual ministro da Casa Civil, de barba, posa com João Palmeirão, empresário português de sogra cabeleireira. A foto foi fornecida ao blog por cortesia do advogado do empresário

O atual ministro da Casa Civil, de barba, posa com João Palmeirão, empresário português de sogra cabeleireira. A foto foi fornecida ao blog por cortesia do advogado do empresário em demonstração do apreço do ministro ao amigão

A apuração para a matéria foi cuidadosa, meticulosa, com assessoria jurídica de renomado profissional.

ACESSE CLICANDO 1) Aqui, 2) Aqui e 3) Aqui.

As reportagens narram como o então governador Wagner comprou de um amigo em Portugal, por 18 milhões de euros (ao câmbio de hoje, R$ 74 milhões e 570.000,00 reais), dois navios ferryboats e seus penduricalhos. De segunda mão, enferrujados.

O dinheiro, tomado de empréstimo estadual junto ao Banco do Brasil, foi “pago” a uma empresa de fachada. Que, sem um funcionário sequer, dava por endereço de funcionamento um salão de cabeleireiro para senhoras.

Localizado num condomínio residencial da baixa classe média nas imediações de Lisboa. Em apartamento de propriedade da sogra do amigo de Wagner, uma senhora de dentes cariados. Que, constatou a reportagem, dava duro sozinha no trabalho.

Para inclusive ajudar nas despesas da filha, desempregada, casada, e das netas, filhas do “empresário”. Feito, bondosamente, grande exportador de navios. Exclusivamente para a Bahia. Nos registros em cartório, até abril de 2014 o pequeno negócio de sua empresa era comerciar eletrodomésticos, mobiliários e equipamentos para o lar.

Coincidentemente, no período de apuração da reportagem, mesmo das eleições para governador do Estado, ele estava em Salvador posando sorridente para fotos ao lado do governador. Este, cortesmente, o visitara em hotel na capital baiana no sábado véspera da eleição de Rui Costa (PT), sucessor de Wagner no posto.

Naquela condição, sua empresa doméstica ganhou em novembro de 2013 a licitação, presidida pelo vice-governador e candidato à vaga baiana ao Senado, Otto Alencar, para a compra dos navios para a travessia Salvador-Ilha de Itaparica.

Pela seriedade das provas dos fatos obtidos para a reportagem, o ideal seria tentar publicar em veículo de repercussão social mais abrangente que um mero blog autoral. Quem disse ter sido possível?

A primeira matéria, documentada, ouvidas fontes diversas, ficou pronta mais de uma semana antes do dia de votação do primeiro turno das eleições para Presidente, Governador, Senador e deputados.

Este escrevinhador, auxiliado, foi a campo. Conseguiu-se estabelecer, depois de idas e vindas de mensagem, canais de negociação visando ao menos ter o material analisado por editores responsáveis por conteúdos políticos de Folha de S. Paulo, O Globo e Veja.

Contatou-se ainda a editoria de política do, à época, jornal impresso de alguma credibilidade no mercado baiano – o combalido A Tarde. A troca de e-mails com o veículo dos Simões, agora já em fase falimentar, foi deprimente.

Por fim, na semana do primeiro turno o coordenador autorizado da Folha de S. Paulo confirmou o interesse desse jornal em publicar a matéria. Com o dia da votação aproximando-se, expliquei a ele que deveríamos prestar um serviço público ao soberano eleitor do Estado, dando-o conhecer aqueles fatos antes de franqueadas as urnas.

Batizado de "Zumbi dos Palmares", ironicamente para homenagear o herói negro quilombola, o ferry enferrujado foi matéria de A Tarde, ilustrada por esta foto (clique para ler)

Batizado “Zumbi dos Palmares”, ironicamente para homenagear o herói negro quilombola, o ferry enferrujado foi matéria de A Tarde, ilustrada por esta foto de Lúcio Távora (clique para ler)

Envolvia a cúpula do governo baiano em compra, no mínimo, curiosa. Que estava sendo utilizada na propaganda política governamental e do não confiável adversário Geddel Vieira Lima, na disputa pelo voto à vaga do Senado.

Na sexta antes do domingo de votação, o coordenador da Folha referendava o interesse do jornal, mas alegava fatores contingentes para garantir a publicação da matéria somente depois do primeiro turno. Após consultas com pessoas próximas, ponderamos ser melhor aceitar essa lógica.

Este blog esgotou todas as tentativas com editores de veículos sociais de comunicação de porte, sem êxito. Então, soltou a matéria. Que, depois disso, repercutiu em redes sociais.

O eleitor baiano ficou privado da notícia e o fato somente veio a público na semana seguinte da eleição em primeiro turno dos dois indicados por Wagner: Rui Costa governador, Otto Alencar senador.

Por estar fora do “centro de decisão” político-editorial dos grandes veículos noticiosos, a Bahia não goza tratamento equânime na cobertura dos mesmos. E veículos de mídia tradicional aqui sediados agem como balcão de negócios.

O jornalismo na Bahia é hoje apenas uma desculpa para alimentar interesses outros – mais lucrativos, menos constrangedores. Seu próprio ensino é uma contrafação.

A partir do que, editores da Rede Bahia – TV Bahia e Correio* – declararam interesse em reproduzir, a seu modo, a matéria. Para a qual tínhamos feito investimento até pecuniário próprio, na coleta de informações. A entrar na conta de fundos perdidos.

Quanto ao jornal A Tarde, na derradeira mensagem trocada com o coordenador de sua editoria política o colega, desdenhando a repercussão da reportagem na primeira página do Correio* semanas depois, escreveu do concorrente: “Tá podendo…”

Nada sobre resultados da denúncia protocolada no Ministério Público do Estado sobre a transação. Nada sobre a situação de impropriedade estatutária da empresa fornecedora dos navios e de sua inadimplência, desde dezembro de 2014, junto aos órgãos fiscalizadores das finanças empresariais em Portugal.

Aqueles 18 milhões de euros entraram na conta? De que forma? Quanto e como foi usado? Para que e para quem?

São questões que continuavam em aberto até junho deste 2015 pelo menos, já que a empresa de fachada permanecia sem prestar contas de sua contabilidade junto aos órgãos competentes daquele país. Por não estar nem aí, o governador Rui Costa já anunciou que quer comprar mais “navios” da mesma empresa.

Sobre as ligações lusitanas do atual chefe da Casa Civil da presidente Dilma, a quem ela confia a salvação de parte do seu mandato ameaçado por impeachment, continuam em aberto.

Ligações lusitanas cuja simbologia está exposta nas paredes de um restaurante ao qual este escrevinhador foi levado três vezes quando residiu em Lisboa esse último ano.

Frequentado por estrelas artísticas mundiais, do mundo do teatro, do cinema e do futebol. E da predileção de presidentes da República brasileira, a exemplo de José Sarney, Lula e a própria Dilma.

Todos os estrelados ali deixam registradas as suas passagens. Em foto única. De tamanho médio. Adredemente emoldurada nas paredes do restaurante. No qual se come e se bebe bem, muito bem.

De todas as imagens, sobressai-se Jaques Wagner: o único cliente com direito a duas fotos e duas molduras, em paredes distintas! Que Cristiano Ronaldo ou Pelé, que nada!

Interior do restaurante em Lisboa no qual Wagner tem duas fotos emolduradas na disputada parede

Interior do restaurante em Lisboa no qual Wagner tem duas fotos emolduradas na disputada parede

Este escrevinhador conferiu. Curioso, quis saber por que.

Discretos, mâitre e atendentes apenas susurraram. Wagner é um habitué, ali levado por um seu “grande amigo” (sócio?) português.

Não o mesmo do salão de cabeleireiro para senhoras, deixa quieto!

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