Leia abaixo texto de Apresentação do livro NOSSA ESCRAVOLÂNDIA – Sociedade, Cultura e Violência: do pitoresco ao perverso. (Ed. Terceira Margem, $30,00).

Frase AlcinoLançamento nacional será em Salvador, Bahia, quinta-feira 19/11, com mesa-redonda no Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA, a partir das 18h.

Participam os escritores Aninha Franco e Aurélio Schommer, curador da já famosa Flica – Festa Literária Internacional de Cachoeira.

Mais detalhes no facebook.com/our.slaveland.

  • Nossa Escravolândia – Apresentação
Alcino Leite Neto

Alcino Leite Neto

Independentemente da opção dita progressista ou conservadora de quem comanda a máquina do Estado brasileiro e seus aparelhos ideológicos, o primado da violência contra os negros no Brasil impõe-se como uma constante trágica da história do país. Ainda que no sistema republicano. Ainda que sob o regime democrático.

No presente ensaio intentamos examinar o fosso entre o Estado Democrático de Direito em construção no Brasil desde o marco constitucional de 1988 e os dados de um dos aspectos da realidade cotidiana brasileira, isto é: a violência física que faz com que os assassinatos no país sejam uma verdadeira epidemia, de acordo com os parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS) das Nações Unidas.

Embora ampliemos a discussão sobre a violência e criminalidade como fenômenos abrangentes no Brasil e em toda a América Latina, o foco da análise é a Bahia, Estado da federação que deu início, na primeira metade do século XVI, à colonização euro-portuguesa nos trópicos.

NossaEscravolandiaCartazPropusemo-nos a tarefa de empreender uma análise crítica de imagens construídas sobre a Bahia e o baiano, com a cumplicidade de formadores de opinião pública, incluindo acadêmicos e intelectuais, à luz do que aqui vamos chamar de paradoxo.

Aninha Franco

Aninha Franco, em foto do Correio*

A reconquista democrática, se tem assegurado a periodicidade das eleições, a alternância do poder político e outros rituais característicos dessa forma de governo, não significou uma melhoria dos índices de letalidade na sociedade baiana, que tem na juventude o contingente mais vitimado.

Procuraremos desenvolver o ponto de vista de que teses apresentadas no final do século XIX e princípios do século XX, que consideravam uma suposta tendência dos negros à criminalidade, têm feito com que haja pouca reação organizada à epidemia da violência que faz dos negros baianos sua principal vítima – numa escala que pode ser denunciada como um verdadeiro genocídio.

Algumas das ideias da escola de Nina Rodrigues, logo superadas e revistas por discípulos como Artur Ramos, infelizmente parecem ainda vigir nos presentes dias do século XXI.

Causa espanto o silêncio dos intelectuais na denúncia dessa espécie de pogrom, a menos que tal comportamento esteja em acordo com aquela mentalidade tradicionalmente racista, que persiste em ver o corpo do negro como “a carne mais barata” no mercado, descartável.

Aurélio Schommer

Aurélio Schommer

Contraporei os dados da realidade empírica ao discurso sobre a imagem idílica da Bahia, que tem num Stefan Zweig (1941, e outros intelectuais) dos seus mais importantes porta-vozes.

Apresento a tese de que, por suas peculiaridades no contexto brasileiro, a Bahia é uma Escravolândia. Inferno para a população negro-mestiça, que é a maioria demográfica; paraíso dos racistas, mesmo que disfarçado por discursos de boas-intenções de convivência racial. Com a cumplicidade de intelectuais, ou pseudos.

Salvador, Coimbra, Lisboa, junho de 2015.

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