Deixem Lula apenas beijar na boca

Janja beija Lula na saída da prisão

Tenho essa impressão. A rapaziada que urra “Lula 2022!” quer mesmo o bem de Lula?

Ou, sadomasoquista, sente prazer em infligir sofrimento a terceiros? No caso, o dito cujo.

Em outubro de 2022 Lula estará com 77 anos. Na hipótese de candidatar-se e ganhar as presidenciais – a conferir, porque continua alta a rejeição a ele, segundo sondagens de opinião – terminará o terceiro mandato aos 81. Se reeleito, aos 85.

Para esse senhor viúvo, avô e pai de filhos, valerá a pena o sacrifício exigido por seus idólatras?

Assumir o papel de “salvador da pátria”, um sebastianista, santo guerreiro contra o dragão da maldade, hoje representado por Jair Bolsonaro, implica em mais sacrifícios em nome do povo.

Em qualquer tempo e lugar é bom ter reservas quanto aos humores da massa ignara – prova a história humana.

Menos de uma semana a multidão que saudava Jesus Cristo em sua entrada triunfal em Jerusalém era a mesma que aplaudia sua crucificação.

Sapiente como é Lula, penso que ele sopesará prós e contras de deixar-se levar pela plebe ignara que grita por seu retorno ao cargo.

A menos que vislumbre ganhos incomensuráveis para sua trupe.

Isso inclui amplo leque de negociações e aliados fortes em setores diversos. Significa voltar a sujar as mãos, coisa que sempre fez com desenvoltura quando novo.

Ele que por dois mandatos presidiu o Brasil, cacifando sua sucessora a primeira e a segunda vezes, com a idade e trajetória que tem deveria ser deixado em paz por seus fanáticos.

Fazer como seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Ir cuidar de sua libido e, como nos ensinou Vander Lee, do seu jardim. Gastar dias e noites a beijar a boca de sua namorada 22 anos mais nova. Por que não?

Já fez e apanhou muito pelo que acredita esse senhor. Produziu multidões dispostas a canonizá-lo ardorosamente ou, pelo contrário, atirá-lo ao fogo da 13ª Vara Federal de Curitiba.

Quem idolatra Lula deveria conceder-lhe o benefício de curtir o que lhe falta do resto de sua vida.

Esse importante líder político – ainda mais agora que, sob a batuta de Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal, foi totalmente inocentado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato -, merece ser deixado em seus afazeres íntimos, domésticos, com sua família.

Exigir que ele sacrifique o restante de sua vida consciente em nome da “redenção” de uma ficção chamada Brasil – e Lula, sábio como é bem o sabe – é sacanagem que fazem com esse respeitável senhor.

Deixemo-lo, porque, a menos que suas ambições sejam em sacrifício de sua tranquilidade, Lula tem direito a ser esquecido.

Se possível for à oposição esquerdista ou centrista, construamos, com sua participação, uma alternativa não em torno de seu nome, de um personagem, de um santo redentor. Mas um ideário.

Deve ser extremamente doloroso para Lula a função e o papel que alguns estão e querem impor-lhe, em termos políticos e psicológicos. As carências dos idólatras é insondável: fenômenos como Hitler demonstram.

Este escrevinhador, considerando o quanto de hipócrita há nessas personagens que galvanizam o debate político, ainda assim crê ser Lula merecedor de morrer sem as aflições de um Brasil menor que aquele que um dia desejamos.