Desmond Tutu contra o apartheid no Brasil: um testemunho dissidente

A dançarina Cafuné e o dançarino Jorge Watusi (atualmente em Hamburgo, Alemanha) realizavam no meio do povo uma performance. Ao rés do chão do Pelourinho, à revelia dos chapas brancas lá de cima.

Com palanque nas alturas, estrategicamente guarnecido por grades metálicas “de proteção” e seguranças armados para manterem a multidão lá embaixo, sucediam os discursos oficiais de autoridades e semipersonalidades. Algumas hoje nomeadas por Lula a Brasília.

Quando Nelson Mandela (1918-2013) estava preso na África do Sul, o bispo Desmond Tutu, da Igreja Anglicana, liderava uma campanha internacional pelo fim do apartheid em seu país.

Ganhou reconhecimento global, inclusive o Prêmio Nobel da Paz, por essa causa. Persuadir governos mundo afora a romper relações diplomáticas e comerciais com o regime de Pretrória era uma bandeira em causa.

Isso o trouxe ao Brasil em 1987. A Salvador da Bahia Desmond Tutu aportou a 19 de maio, com tempo curto, antes de seguir a outras capitais. E a Brasília, em agenda com o presidente da República José Sarney.

Aqui a programação de sua presença foi sequestrada pela oficialidade: a entourage do governador Waldir Pires e do prefeito da capital, ambos do PMDB coligado a outras forças políticas e partidárias.

Setores importantes do chamado “movimento negro” já ali estavam, como hoje, cooptados pelo nhonhô de mando. Em “conselhos” e cargos de terceiro ou quarto escalões, digladiando-se entre si por nacos e sobras.

Uma “ajudinha” ou esmolinha, pelamor de “Deus”, para meu projeto salvacionista de ocasião!

Os nhonhôs e seus fiéis negros, de diversas facções partidárias e culturalistas, como sempre, ainda agora e então, armaram uma festa “pública” para o bispo sulafricano no largo do Pelourinho. O Pelourinho mostrado pela TV Globo durante a copa de futebol da Fifa.

O casal de dançarinos rebeldes arrancou algumas pedras que calçavam o largo enladeirado. Sobre o barro a dupla jogou balde de água. Fez-se lama. Daí, improvisou a dança, enlameados seus corpos esbeltos, um do outro, num pungente pas de deux.

Watusi e Cafuné estavam na parte da multidão juntada na praça pelo movimento de defesa dos favelados.

Que, ante os discursos protocolares do “script” dos donos da celebração ao bispo Desmond Tutu, desafiou o autor dessas mal-traçadas a escalar de frente a estrutura do alto palanque. Teria de ser a voz dissidente da festa.

Para a fúria do staff. De quem comandava e controlava a fala, sob ordens do nhonhô.

Enquanto deu para suportar os pontapés e joelhadas pelas costas, sobre o palanque lotado, e sem que Desmond Tutu (1931-2021) aparentemente nada entendesse do que se passava, sob xingamentos ao pé do ouvido, esse então favelado (já com diploma de jornalista) soltou o verbo.

Registro apenas feito pela cobertura de um único de dezenas de veículos de imprensa presentes: Jornal do Brasil, o de maior peso editorial à época, com sede no Rio de Janeiro.

“Um manifestante, Fernando Conceição, líder da favela do Calabar, escalou a estrutura de aço do palanque, passando quase por cima do Prêmio Nobel da Paz, para tomar o microfone da mão de um dos oradores e fazer um pronunciamento que, apesar de não estar no programa, foi um dos mais aplaudidos da manifestação”, escreveu o Jornal do Brasil.

Deu para você entender a raiz da dissidência, meu amor? E por que estamos em lados tão distintos?

Uns, lá em cima rindo, aceitos em festa para servir ao sinhô; outros, cá embaixo, comendo lama. De boa, tal Cafuné e Watusi.