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Morte na montanha Inca


(em Machupicchu, Perú)

Era 1h15 – olhei para o relógio – da tarde de 18 de outubro, quando consegui chegar ao topo de Waynapicchu, na língua quéchua dos incas “Montanha jovem”, a 2.700 metros de altura, 300 a mais que o sítio arqueológico de Machupicchu, ou “Montanha velha”, localizado no Estado de Cusco, região de mata e serras ao sul do Peru.

O tempo estava bom, sol forte, e a escalada durou em torno de uma hora.

Menos de quinze minutos depois iria ser o único a presenciar, a menos de um metro de distância, a morte fulminante do turista russo Denis Porkin, 34, atingido por um raio que, fosse eu místico, diria ter partido de uma nuvem negra que surgiu “do nada”.

Altiplano da cidadela inca tendo ao fundo, entre nuvens, Waynapicchu

Formada em poucos minutos, a nuvem estacionou, tenebrosa, acima do Waynapicchu.

Ouviu-se um estrondo que fez estremecer toda a montanha, parecendo que ela estava indo abaixo. Um raio fulminante foi disparado do céu. Porkin, como todos, deve ter se assustado, tombou, bateu com a cabeça e agonizou por segundos até à morte.

UM MISTO de encantamento e medo (eu escrevi medo) toma conta dos que chegam a Machupicchu, um dos sítios arqueológicos mais visitados do planeta, declarado pela UNESCO “patrimônio da humanidade”.

Peregrino, vim a este lugar para fugir do mundo lá fora, tentando encontrar meu mundo de dentro, posto em crise existencial de ruptura.

Se dependesse do governo e da população da região, Machupicchu seria uma das “7 maravilhas do mundo” (está classificado em oitavo lugar). Uma aura de misticismo somente suplantada pelo tilintar de dólares derramados sem cessar pelos turistas que procuram o lugar, paira na região.

A cidadela edificada nas montanhas a 2.400 metros de altura na fase áurea do império Inca, entre o final do século XV e início do século XVI, permaneceu perdida e deserta no meio da selva até o ano de 1911, quando encontrada pelo arqueólogo estadunidense Hiram Bingham.

Várias teorias vicejam sobre o sítio: teria sido erguido pelos incas para ser uma fortaleza, logo abandonada ou cuja população foi misteriosamente extinta; seria um santuário; não seria obra de homens, mas sim de extraterrestres.

O certo é que hoje Machupicchu recebe diariamente até 2.500 turistas de todo o mundo, com ingresso ao custo de US$ 20,00 por cabeça.

Pachacutec Inca, o sanguinário líder indígena que ampliou e consolidou o império, é um herói: sua imagem e seu nome estão por toda a parte, desde a cidade onde foi a capital do império, Cusco, uma das mecas do turismo de aventura e de misticismos.

Hiram Bingham (1875-1956), americano que encontrou Machu Picchu perdida na selva peruana

A escalada a Waynapicchu é opcional. Em média, 250 a trezentas pessoas (15% dos visitantes) se arriscam na empreitada, depois de ter o nome, a idade e o país de nacionalidade registrados no livro de acesso controlado por funcionários do Instituto Nacional da Cultura, órgão do governo federal que administra o parque.

De Cusco chega-se a Machupicchu a pé (quatro dias e três noites pelo chamado “Caminho Inca”, administrado pelas cerca de 3.000 agências de turismo de todo porte, em pacotes que não saem por menos de US$ 180,00), ou em trajeto que inclui quatro horas de trem e mais 25 minutos de ônibus até a entrada ao sítio arqueológico. Nesse caso o turista vai gastar em torno de US$ 150,00.

Ao topo do Waynapicchu, do qual se pode deslumbrar, não sem um pingo de tremor por dentro, num raio de 360 graus e até aonde a vista pode alcançar, todas as entranhas, vales e rios que se situam ao redor, Pachacutec teria mandado construir um observatório e um templo dedicado à lua.

Em tempos recentes foram encontradas rochas “espelhadas”, às quais arqueólogos interpretaram que, em contraste com os raios solares, serviam aos incas de instrumentos de comunicação à distância.

Aventureiros ou místicos transformam a escalada de Waynapicchu numa torre de babel, com gente de vários idiomas e idades cruzando-se pelas escarpas, túneis apertados nas rochas e pedras lisas dispostas em ângulos de até 90 graus.

A média de tempo entre o início da escalada até o topo é estimado em 45 minutos em ritmo contínuo.

Quando enfim, já fatigado, alcancei o topo, procurei uma das pedras para
sentar-me e refletir com temor sobre aquilo tudo. Em confronto com tal
grandiosidade da natureza e do engenho de um punhado de homens, poucos espíritos se manteriam indiferentes.

Jogo a mochila ao lado, descasco com o canivete uma laranja que trazia e saboreio seu azedume.

Num conjunto de pedras pouco mais acima está um grupo de 5 pessoas, inclusive uma mulher, que alcançou o topo pouco antes de mim. Provavelmente o turista russo era uma delas.

Minha intenção é chegar até ali, mas como desalojá-las?


Resolvo dar um tempo, explorando o outro lado do cume, quando mais abaixo vejo um casal subindo por uma escarpa. A mulher gesticula para mim e aponta uma placa que indica a trilha para o “Templo da Lua”, insistindo que eu descesse. Por um instante vacilo porque tinha deixado para trás minha mochila aberta, mas resolvo descer.

Passo pelo casal e me embrenho pedras abaixo. Sigo a trilha ao templo por alguns minutos e verifico que não há mais ninguém fazendo o trajeto. Então vejo a nuvem escura se formando ao largo, deslocando-se em direção a
Waynapicchu numa velocidade impressionante.

Amedrontado, decido subir de volta rapidamente, ainda mais porque minha capa de chuva estava na mochila.

Antes de alcançar novamente o topo, vem o estrondo que faz tremer toda a
montanha e paralisa nossos movimentos. Quando chego ali, somente vejo minha mochila e, a um metro de distância, um homem caído, se estrebuchando.

Ele está voltado para cima. Seus olhos, arregalados e com a íris virada, parecem mirar o céu sem obstáculos. Um fio de sangue escorre da sua boca e noto uma mancha de sangue sobre sua camiseta branca, à altura do peito.

Está com os braços abertos e as mãos trêmulas em espasmos. Ele emite som de agonia, suspiro alto e forte em espaços periódicos.

Meu primeiro impulso é socorrê-lo, mas quando me aproximo ouço um chamado: um pouco mais abaixo, agachado entre rochas, está aquele casal que há pouco me retirara dali indicando-me a trilha do Templo da Lua.

Os olhos de ambos são de pavor. A mulher faz gestos histéricos para que me afaste do homem que agoniza.

Ela fala em um idioma estranho, totalmente inútil para a ocasião (logo depois saberia que era um casal holandês, com idade aproximada de 55 anos), o homem balbucia algumas palavras em inglês. Os dois estão amedrontados.

Estou no topo de Waynapicchu com um homem que morre e não sei o que fazer.

De repente ouço um grito vindo lá de baixo, da base das ruínas de Machupicchu. Era Júlio, o guia indicado pela agência na qual comprei a visita, que me reconheceu – provavelmente por contraste, porque era o único negro entre todos os turistas. Antes tinha brincado comigo por também ter sido o único do seu grupo a aceitar subir a montanha.

“Fernando, o que passa? Tem alguém precisando de ajuda?”, grita Júlio. Eu respondo que sim, há um homem ferido. Que enviassem socorro urgente.

A cada espasmo e suspiro do homem, a mulher logo abaixo soltava um grito de terror. O homem a seu lado tentava controlá-la, mas também tremia. Eu fui até eles e pedi que ficássemos todos calmos que a ajuda estava vindo.

Logo depois chegou um grupo de trabalhadores que estavam realizando reparos numa ruína em uma das encostas da montanha.

Perguntei a um deles se poderiam ajudar e ouvi de resposta que nada podiam fazer, “somos solamente obreros.”

Então, momento depois acrescentou: “Já não se pode fazer mais nada. Ele não faz mais nenhum movimento e a respiração parou. Está morto.”

Comunico a notícia ao casal holandês e a mulher desaba de vez, histérica, apavorada.

Sugiro que desçamos. A nuvem se dissipa sem que caia nenhuma gota de chuva: foi um único trovão, um único raio. Estamos sozinhos: não há resgate, não há socorro, não há esquema de segurança.

Enquanto descemos encontramos outras pessoas escalando a subida. Comunicamos a elas o ocorrido, muitas retornam mas outras não se importam e seguem na escalada. No rosto dos que regressam para baixo há sinal de agonia e tristeza.

Agora é aguardar, no portão de acesso a Waynapicchu onde está o livro de
registros, quem não vai regressar para assinar o livro de saída.

A administração de Machupicchu não tem qualquer sistema emergencial para ocorrências como essa. Registre-se que tampouco há para-raios instalados no sítio arqueológico nem na montanha franqueada ao público.

Com o alerta de que havia um homem morto lá em cima, o médico do posto de saúde, de nome Rodolfo, sobe a montanha sozinho, sem nada nas mãos.

Uma hora e meia depois chega um grupo de três policiais militares, acionado pela administração para realizar o levantamento cadavérico. A seguir, um sujeito que me disse ser o representante do Ministério da Saúde, de nome Baltasar, que se encarregaria pela realização da autopsia, após o translado do corpo para o povoado de Machupicchu (ou Águas Calientes), de onde partem os ônibus para o sítio arqueológico do mesmo nome.

Um turista que acabara de descer, ao saber do acidente, buscou desesperado no livro de registro pelo nome dos amigos: demonstrou alívio quando constatou que todos já haviam assinado a saída. Outros turistas, sem saber de nada, queriam fazer a escalada, mas foram orientados a retornar no dia seguinte, a partir das 7 horas da manhã, como se nada tivesse acontecido.

Um deles, um japonês de nome Masato Yada, comentou com uma funcionária do parque que, por coincidência, estando no lado oposto da “montanha jovem”, tinha a máquina fotográfica apontada para lá no exato momento em que o relâmpago atingiu o topo. Ele mostra as fotos: ali está.

Por volta das 5h20 o corpo de Denis Porkin começou a descer o Waynapicchu enrolado num saco colorido, transportado por cerca de dez
trabalhadores, numa difícil operação de remoção.

No livro de registros, a letra de Porkin registrava que ele iniciara a sua subida, sozinho, exatamente às 11h27. Ele chegara ao povoado de Aguas Calientes naquela manhã e se hospedara num dos inúmeros hotelzinhos ali localizados.

O médico Rodolfo confirmou a morte, “por hemorragia interna.” Disse-me que, provavelmente, motivada pela pancada que levou na cabeça quando caiu. Informou que estava com vários pertences na mochila e “uma boa quantidade de efetivos” – isto é, dólares.

Monumento em praça de Águas Calientes em homenagem ao líder inca Pachacutec

Baltasar, do Ministério da Saúde, me disse à noite, enquanto tomávamos cerveja, que tem feito resgate de corpos que caem, nunca de alguém sobre o pico da montanha.

O corpo de Porkin foi guardado num posto médico do povoado Machupicchu. Baltasar se encarregaria de leva-lo para Cusco, entregando-o no dia seguinte  às autoridades diplomáticas da Rússia, por ele contactadas ainda no início da noite do dia 18.

Comentando o acidente, a funcionária do Instituto Nacional de Cultura que trabalha em Machupicchu, Tânia Huerta, garantiu que jamais tinha ocorrido algo semelhante.

Pelo menos até então ninguém tinha morrido no topo da montanha, em todas essas décadas de funcionamento. “Pessoas caem, se ferem, mas ser atingida por raios é a primeira vez”, disse ela. Logo a seguir, acrescentou em tom misterioso: “Há três dias um condor esteve voando por aqui. Quando o condor aparece está avisando que vai acontecer alguma coisa má.”

Segundo Tânia, foi o que também ocorreu em agosto: dois dias depois que um condor sobrevoou Machupicchu uma turista canadense, de 62 anos, ornitóloga excitada em registrar a variedade de borboletas do lugar, precipitou-se de binóculos numa das encostas do sítio arqueológico, depois de pisar em falso, para ter o corpo totalmente dilacerado.

No mito incaico, condor é ave que anuncia o mau agouro e, pelos olhos de Tânia, muitos moradores da região creem no mito.

Portanto, a morte dos turistas é tratada quase como algo banal, uma fatalidade, por parte das autoridades responsáveis por Machupicchu, uma “mina de ouro” que não pode ser fechada por esses acidentes.

Ao saber que estava lá em cima e ter sido o único a testemunhar a morte de Porkin, a funcionária decretou que fui agraciado por um  milagre.

A partir de agora este escrevinhador tinha o compromisso de sempre regressar em peregrinação ao local para render graças aos espíritos incaicos que o salvaram naquela tarde de outubro de 2004.

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