De Luiza Bairros, Nice e Turquia: Reaja!

O MUNDO ESTÁ FORA DOS EIXOS, disse Hamlet.

… Luiza Bairros, minha amiga, das mais importantes militantes e intelectuais da causa dos negros, morreu em Porto Alegre aos 63. Que pena!

Luiza Helena Barros

Luiza Helena Bairros

Na Bahia, esteve na linha de frente do MNU (Movimento Negro Unificado), pai de quase todos os outros movimentos congêneres, já a partir do fim da ditadura militar no início dos anos 80.

Estivemos em algumas celeumas, ela até o fim nas hostes do PT (Partido dos Trabalhadores). Ninguém é perfeito. Bebemos, rimos, trocávamos telefonemas, queríamo-nos  bem. Insuperável no uso da palavra, do discurso público para as plateias embevecidas.

A última vez que trabalhamos juntos foi durante o processo da campanha publicitária Afirme-se.

Que Bartolomeu Cruz, no Omi-Dùdú, bancou pela afirmação da constitucionalidade das políticas de ação afirmativa (cotas) nas universidades, ameaçadas por questionamentos no Supremo Tribunal Federal.Omidudu

Depois tornada ministra por Dilma Rousseff, na ocasião era secretária do governo baiano. Levei-a a uma sessão de brainstorm na sede da Propeg, agência publicitária que, a pedido meu a seu presidente Fernando Barros, assumiu de graça a produção.

O cigarro a matou, destruindo seu pulmão com um câncer. Sim, cigarro mata.

Tenho em Portugal um grande amigo, daqueles que até hoje telefonam a qualquer hora da noite para, ao lado da mulher, dizer que sente saudades desse gajo aqui. Advogado de uma das melhores bancas de Lisboa, fuma como uma chaminé. Sabe o destino que o espera ali logo mais.

É sempre assim: o vício, seja qual for, é maior que a vontade de detê-lo. Vício é praga, como o oportunismo e a mediocridade.

*

POR FALAR EM vício, militares tentam tomar o poder na Turquia, destituindo em armas o governo constitucionalmente eleito. Leia aqui.

A primeira vez, 2007, em que ali desembarquei, no aeroporto Ataturk, recentemente também atacado por ação dita terrorista, fui detido na entrada por agentes de segurança.

Atatürk, patrono da Turquia que conhecemos hoje

Atatürk, patrono da Turquia que conhecemos hoje

Com meu fenótipo, suspeitariam que eu era uma ameaça, talvez árabe-palestina. Fui detido, esquadrinhado, passaporte retido, perguntas não em inglês mas na língua turca.

A amiga que viajava comigo intercedeu em alemão, como se um salvo-conduto (disse a ela depois, os dois rindo).

Eu havia assistido a tempos o filme Midnight Express (O Expresso da Meia Noite) – e sabia da fama de truculência e da influência sobre o país de seus militares.

As Forças Armadas turcas, desde o patrono Mustafa Kemal Atatürk, são fiadoras do país. Já era democracia, mesmo islâmica, e a estadia por Istambul e arredores foi muito agradável depois daquele constrangimento. Retornei ao local com Danila em 2012.

*

MINHA AMIGA alemã em 2005-6 morava em Nice, cidade da riviera francesa agora alvo do ataque tresloucado de um homem, que o ISIS diz ser um dos seus “soldados”. Mortas quase noventa pessoas que se encontravam no calçadão inglês para as festas da queda da Bastilha, le 14 julliet.

Brigados desde o Réveillon, quando me visitou em Salvador, primeira vez no Brasil, a amiga propôs que viajasse a Nice, onde estava residindo para cumprir estágio de Medicina em um hospital local, dando duro.

Comprou a passagem para meu período de férias, Carnaval – o de Nice é um dos três mais badalados e originais da Europa, ao lado de Köln (Colônia, Alemanha) e de Veneza (Itália).

Hollande: reincidência na falha por segurança

Hollande: reincidência na falha por segurança

Andando ou tomando uma garrafa de vinho na Promenade Anglais agora banhada em sangue, possivelmente baixamos as armas. Em reconciliação.

Certamente uma das cidades mais aristocráticas da França, Nice é cara e de lugares exclusivos. Debruçada defronte ao mar Mediterrâneo. Turística, só mora lá quem tem negócio.

Nas duas semanas escalamos montanhas em neve e percorremos a riviera de leste a oeste no carro em alta velocidade que ela guiava.

Marseille, Toulon, Saint-Tropez, Cannes, ao principado de Mônaco e cidades empobrecidas do noroeste italiano (Vintimiglia a Sanremo).

*

COISAS CERTAS:

  • uma das mais importantes intelectuais brasileiras morreu depois de ver parte dos ideais para os quais lutou ser atingindo, num país racista que a deixava triste.
  • o golpe na Turquia merece ser assim definido, sem que nada similar esteja (ainda) ocorrendo no Brasil, que afastou Dilma Rousseff cumprindo todo o rito constitucional.
  • o presidente francês François Hollande deveria ter hombridade e entregar o cargo imediatamente, frente ao fracasso do sistema de segurança que vulneraliza a população daquele país.Reaja
  • a última afirmação vale para os governantes do Brasil, incluindo o da Bahia, conforme dados e denúncias constantes de fontes como a Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta – que já organiza sua Marcha em defesa da vida do povo negro agora em agosto de 2016. Estaremos juntos e misturados.

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 110 outros seguidores