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Kabengele cita Milton Santos sobre negro não ter “telefone” e provoca FC: ‘Vai pendurar a chuteira?’

Prof. Dr. K. Munanga

DURANTE ritual de defesa do Memorial para alcançar o último nível da docência do Magistério Superior no Brasil, o professor titular da USP (Universidade de São Paulo), Kabengele Munanga, depois de uma aula de sociologia política concluiu que o candidato, este escrevinhador, estaria alcançando “o topo da montanha, onde o clima é mais agradável e confortável”. Provocativo, indagou:

  • Quais são agora seus novos projetos? Vai pendurar a chuteira?

No português falado no Brasil, país cujo esporte mais popular é o futebol, “pendurar a chuteira” equivale a deixar para sempre o campo da disputa.

Munanga, uma das maiores autoridades no debate sobre o racismo brasileiro, foi um dos cinco membros da banca examinadora, presidida pela professora Florentina da Silva Souza, titular do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

Vídeo registra momentos de evento público realizado a 8 de agosto de 2019 na UFBA

Kabengele, como é mais conhecido, que nasceu na aldeia Bakwa Kalonji, na atual República Democrática do Congo, fez mestrado na Bélgica e se radicou no Brasil há mais de quarenta anos, diversas vezes citou seu colega da USP, Milton Santos (1926-2001).

Milton Santos certa vez teria lhe dito que “uma de nossas dificuldades como negros na sociedade brasileira tem a ver com o fato de não termos telefone”.

Kabengele, que falava ao geógrafo justamente por telefone, não entendeu. Então Milton Santos lhe explicou:

  • “Ter telefone é quando uma pessoa liga para outra e diz Fulano, na sua empresa ou sua fábrica tem alguma vaga para encaixar meu primo ou meu sobrinho que acabou de se formar em engenharia ou em qualquer outra área?”

Clique aqui e leia em primeira mão o texto inédito de Kabengele Munanga, peça de análise profunda sobre relações institucionais acadêmicas.

Inquiriram o candidato também os titulares Henrique Cunha Júnior, da Universidade Federal do Ceará, Alberto Efendy Maldonado de la Torre, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, e Paulo Sérgio Pinheiro, da USP.

A banca foi realizada das 14h às 18h deste 8 de agosto, em auditório tomado por um público diversificado na Faculdade de Comunicação da UFBA.

Efendy Maldonado de la Torre, desde Porto Alegre (RS), e Paulo Sérgio Pinheiro, representante das Nações Unidas em Genebra, participaram por webconferência.

Banner divulga evento aberto ao público que levou dezenas a auditório da Facom-UFBA

Em sua intervenção, Kabengele Munanga lembra diversos episódios da trajetória acadêmica de negros no Brasil, a exemplo do cineasta Joel-Zito Araújo.

Ante a ameaça da Reitoria da USP de expulsar este escrevinhador de seu doutoramento sob acusação de “crime contra o patrimônio público ao Estado de São Paulo”, Kabengele citou a reação do intelectual Milton Santos, então professor naquela instituição.

“Ele estava muito bravo e não entendia como uma pessoa que defende uma causa nobre pode ser expulso da Universidade por defender cotas para negros”, recorda Kabengele.

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