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Tuzé: quando o embaixador dos Estados Unidos caiu na dança antes da ditadura

Alberto José Simões de Abreu(Tuzé), músico, médico voluntário em posto de saúde

NA SEGUNDA-FEIRA recebi em casa para almoço, apenas ele e eu, o músico Tuzé de Abreu, amigo de Caetano Veloso, Gilberto Gil. Em agosto aposentado, como flautista, da orquestra sinfônica da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia.

Ele me trouxe para ler uma página destacada do caderno “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo de domingo (16/09) com artigo de dois economistas que, pelo enunciado, “analisam as possíveis consequências do crescimento da belicosidade e do sentimento antidemocrático na sociedade brasileira”.

Já havia passado o olho. A ascensão da popularidade na corrida presidencial do candidato Jair Bolsonaro (PSL), da extrema direita, vítima de facada de um ex-filiado a partido de esquerda (PSOL), tem feito emergir as cassandras. Com generoso espaço midiático.

Dei aula na UFBA até às 9h e corri a mercadinho de minhas vizinhanças para comprar os ingredientes da quiabada com abóbora que lhe ofereci, acompanhada de feijão e arroz, tudo preparado na hora.

Ainda telefonei de supetão a Aninha Franco, dama maior da dramaturgia na Bahia de hoje, tentando fazê-la juntar-se a nós para o bom papo. Muito em cima: a saída foi prevermos outro almoço entre os três daqui a pouco.

Tuzé conhece como instrumentista partes do Brasil e do mundo, sozinho ou ao lado do pessoal do movimento Tropicália. Me disse ter começado a tocar por volta dos 15 de idade, em orquestras dançantes locais, imitadoras das famosas orquestras  de Grenn Miller, Ray Conniff.

Um fato que este blog revela em primeira mão, a partir das lembranças de Tuzé: Lincoln Gordon (1913-2009),  embaixador dos Estados Unidos e figura-chave ao sucesso do golpe que implantou no Brasil a ditadura militar (1964-1985), patrocinou o réveillon de 1963 no clube social de Ilhéus, importante e estratégica zona de produção de cacau comandada pelos coronéis retratados nos romances de Jorge Amado.

O embaixador estadunidense contratou a orquestra na qual Tuzé tocava e esteve presente no baile, com sua cabeleira alva.

Tuzé recorda: Lincoln Gordon pessoalmente mandou entregar a cada músico da orquestra uma garrafa de whisky. Aqueles eram muitos. No vocal, inclusive, estreava Paulinho Boca de Cantor (depois líder da banda Novos Baianos). Para todos uma novidade: de Salvador a Ilhéus viajaram de avião, pago pela embaixada dos Estados Unidos. Tuzé já não se lembra se pela Varig ou Panam.

O marechal do Exército, Humberto Castello Branco (esq.) é cumprimentado por Lincoln Gordon, embaixador dos U.S.A., na sequência do golpe de 1964

Se fidedigna a memória do músico, a ser confirmada por outros membros da orquestra, está aí de lambuja para o jornalista Elio Gaspari e historiadores do regime e da ditadura militar. A informação sequer está no clássico de Thomas Skidmore (1932-2016), Brasil: de Getúlio a Castello.

Contou que nas orquestras de bailes, atualmente minguadas, se divertia. Em festas, tocando em palácios como o da moradia oficial do governador do Estado. Na ocasião ocupado por Nilo Coelho, coronel dos maiores agropecuaristas brasileiros, lembra que a pujança foi total.

No almoço me disse às voltas com a burocracia das gravações e produção de um cd de músicas inéditas, bancado do próprio bolso. Ideia não sua mas de um seu parente, também músico que atuou em Londres e Barcelona, que propôs o registro recentemente.

Faz quatro meses Tuzé de Abreu foi notícia por conta de uma espécie de síncope. Dado por desaparecido por familiares, o assunto por vinte e quatro horas ocupou jornais, TVs, rádios e redes sociais. Leia clicando aqui.

Saiu para ir a um local e não retornou para casa. Dia seguinte foi encontrado dormindo, dentro de seu carro, em estacionamento do Instituto Médico Legal de Salvador.

Tivemos tempo de intercambiar alguns pontos de vistas sobre o momento político nacional. Conferimos em determinadas análises. Foi por meio de suas leituras neste blog que, faz três anos, mantemos contato e trocas.

No cafezinho, depois da sobremesa (tiras de doce cristalizado de jenipapo), deu tempo mostrar-lhe um dos três livros que estou lendo. Comprei via Amazon, pela internet, e está em inglês.

Em The idiot brain (O cérebro idiota), o neurocientista britânico Dean Burnet explica, diz o subtítulo, o que a nossa cabeça é capaz de fazer com cada um de nós (what your head is really up to).

O conflito permanente entre a parte ancestral, reptiliana, e o neocortex dos nossos humanos cérebros.

Entre nossas intenções e os resultados. Opções que se revelam desastradas. Entre presença física  e perda (real ou aparente) de consciência.

Tudo a ver não apenas com doenças e mal estar. Também com decisões e escolhas políticas, como a das eleições nacionais que se aproximam.

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