Eu, viado

Todos carregam consigo suas próprias tragédias particulares.

Tive um irmão, Luís, que se suicidou em 1994. Recebi a notícia por telefone, em plena reunião que coordenava no Núcleo de Consciência Negra na USP numa tarde de sábado.

Um amigo com cartão de crédito comprou urgente uma passagem de avião para que viesse a Salvador acompanhar as exéquias.

Era meu mais querido irmão de todos os sete porque muito íntimos, próximos.

Apenas pouco mais de um ano mais velho que eu, crescemos como os melhores parceiros em tudo.

Até nas putarias e sacanagens – além dos babas de várzea. Meu protetor.

Como eu era tido por todos em casa e na vizinhança como “aviadado” – sinônimo para timidez nas comunidades populares -, era ele a única pessoa que tratava-me como igual.

Quem me empurrou algumas das primeiras raparigas, ele que dava-se muito bem com todas elas. Não importa a “qualidade” ou a “beleza”.

Foi amado por muitas, invejado porque logo cedo tornou-se empreendedor no ramo de oficinas de automóveis. Mestre em chaparia, hoje funilaria, ganhou dinheiro razoável ainda muito jovem.

Colocou-me como seu ajudante, mas logo viu que eu não tinha jeito para aquilo. Eu tinha de ser da Facom, ou do Poscultura. Ui, ui, Albino Rubim e Wilson Gomes…!

Sabia dançar pra caralho e era divertido. Eu, retraído e chato.

Quando ganhei meu primeiro dindim depois de vender uma bicicleta que me deram num programa de perguntas e respostas na TV Aratu (“No Campo do 4”) mandei o alfaiate da rua fazer um conjunto de roupa.

Exigi um modelito tipo safári, à época usado por Silvio Santos. Com tecido gabardini, tergal, todo cor-de-rosa.

Você leu direito: esse negão aqui tinha um conjunto safari todo cor de rosa, que ostentava na favela do Calabar nos anos 80!

Mas por que escrevo isso?! O suicídio de meu irmão, que esperou o momento para dependurar-se numa corda em sua casa, deprimido, surgiu como um pretexto.

Já tive depois dele outras perdas congêneres de pessoas que me amavam e às quais muito amei muito. Muito mesmo. Quem se importa?

Uma sensibilíssima e inteligente amiga de São Paulo nos anos 2000 que, aos 28 de idade, em plena exuberância na carreira jurídica, amarrou um fio no pescoço. E adeus a este mundo, sem uma palavra.

Isso para dizer que, depois de seu suicídio, nada me mete medo. Nada me faz tremer. Nada mais é importante. O resto é rosto! E os filhos, somente.