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Reflexões sobre um nada chamado Brasil

Pichação em WC na Faculdade de Comunicação da UFBA, Salvador, Bahia, Brasil: as “boas vindas” da comunidade ao recém-contratado Professor Doutor Mohamed Bamba, de Cote D´Ivoire, morto precocemente aí em 2015

DIANTE DAS ATUAIS circunstâncias que revelam a natureza e as entranhas do poder no país, indagado por gente entre horrorizada, indignada e pessimista, digo ser tudo o que está acontecendo muito positivo.

A meus alunos de diversas disciplinas na pós-graduação e na graduação, assim como a colegas daqui e do exterior, preocupados, lembro-lhes de alguns fatos para defender meu ponto de vista. Consoante ao de Cândido, o otimista de Voltaire.

Brasil, comparando-se às sociedades vislumbradas como modelo (Japão, partes da Europa tipo Alemanha, Suíça, França, Inglaterra; mesmo Estados Unidos da América), é um bebê que engatinha em termos de tempo e de conquistas democráticas.

Nossa independência de Portugal está a completar 195 anos, apenas. A escravatura acabou ontem, 1888, deixando profundas raízes nas mentalidades, no psiquê social e nos indivíduos.

Por mais de 350 anos a estrutura da base econômica foi a escravidão de negros. A República, emergida de um golpe contra a Monarquia em 1889, sempre foi, como a democracia, “um mal entendido”, nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda.

Nunca vista como Coisa (Res) Pública (Publica), porém como coisa de alguns, cosanostra no sentido da máfia siciliana, a República brasileira titubeia e engatinha por conta das várias interrupções sofridas até o fim da última ditadura militar enterrada pela constituição de 1988.

Michel Temer (PMDB), agora defenestrado pelo esquemão do qual é um dos beneficiários, assumiu a República com o impeachment da aliada Dilma Rousseff, também às voltas com a Lava Jato a exemplo do mentor Lula (PT)

Um parênteses visando referendar essa faceta otimista, antes de prosseguir mais abaixo.

Quando em reunião de pares na faculdade onde dou aulas, em meio aos ataques politicamente articulados para alvejar-me ano passado, declarei intenção de chefiar o Departamento (instância representativa dos professores), um dos trinta deles verbalizou o sentimento geral.

Não sei, expressou ele, por que insistia em tentar disputar a chefia se de antemão sabia que eu não teria nenhuma chance e o resultado seria minha derrota. Um cacique já disse que aí sou “persona non grata”; um outro paxá que não vota em mim nem que a vaca tussa. Melanina conta?

Ora, ora, eu antepus para a plateia ainda tonta pelo afastamento constitucional definitivo de Dilma Rousseff – em defesa da qual todos os presentes, exceto um, levantaram-se meses a fio durante o processo de impeachment. Dilma também sabia não ter chance de vitória, mas insistiu até o veredicto final. Ninguém ali viu nisso uma heresia.

Agorinha mesmo, junho-julho de 2017, intento colocar meu nome à disposição para diretor da mesma referida Faculdade de Comunicação da UFBA.

Com desgastes e consequências previsíveis, caso a intenção se materialize – coisa a ser decidida em alguns poucos dias. Obediente, a palavra final será de minha consorte. Considerada a paz do lar junto a doce criança de apenas 3 anos, demandante de monopólio absoluto da atenção dos pais.

Naquela encenação de disputa, consulta-se professores, alunos e técnicos da faculdade. Como ocorrido quatro anos atrás, quando fui receptor de 40% do total de votos, ficando em segundo lugar na disputa.

SE DADA POR currículos acadêmicos, programa de gestão e a experiência de vida dos concorrentes, isto é, se apenas os méritos são sopesados, a competição é qualitativa. Nada de cotas.

Mas todos sabemos que outros fatores entram numa competição – Raymundo Faoro falava em compadrio, clientela, patrimonialismo. Concretos:  a rede de apoios e alianças (se você faz ou não parte dos grupos de mando é decisivo). Subjetivos: aí cabem restrições morais, preconceitos, antipatias.

Currículo e mérito avaliados, a votação de segundo lugar foi obtida graças a alguns colegas e técnicos. Porém, da maioria dos estudantes de graduação que, aliás, também em 2015 distinguiram este escrevinhador como Professor Homenageado da turma concluinte nesse ano. (Somente vim a saber depois: clique).

Deram um jeito, apuradas as urnas, de abduzir meu nome da lista tríplice encaminhada à Reitora da Universidade.

Nada irregular. Leis e normas sustentam o argumento de que  o resultado da consulta não obriga quem decide elaborar e encaminhar a lista necessariamente respeitar o resultado da mesma dita consulta. Se novo desgaste valerá, é algo ainda em aberto. Fecha parênteses.

Voltando ao tema. A teia de corrupção revelada pela força-tarefa da Operação Lava Jato, tendo por conseguinte a crise que envolve o Brasil agora, é benéfica.

É melhor sabermos de tudo (ou quase). A médio e longo prazos, se preservado o Estado Democrático de Direito, o Brasil não será uma Escandinávia.

Com liberdade de expressão, eleições livres, independência entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, entre outras premissas básicas, deixará de ser a casa de mãe joana que sempre foi.

Pela primeira vez na história temos a oportunidade de nos confrontar com as vísceras do Estado brasileiro, de mandonismo elitista, predador, autoritário da direita à esquerda.

São 28 partidos políticos, incluindo o maior opositor do recente governo, o PSDB, e o sócio-mór daquele, o PMDB, nas mãos das grandes empreiteiras, da J&F, dos bancos privados.

TODOS, CORRUPTOS e corruptores, vagabundos. Ladrões da bolsa pública – como nos tempos coloniais e da escravidão que estruturou esse Estado -, aliançados no assalto à Petrobras, ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (!) etc.

Como há muita podridão em suas entranhas, o asco é a primeira reação à visão e ao cheiro fétido exalado pela intervenção cirúrgica da Lava Jato.

Que até ontem o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus fiéis demonizavam, tentando livrar a cara do seu capo Luiz Inácio Lula da Silva, já comprovadamente enrascado hoje em dia.

Depois de escrever o ensaio Brasil, País do Futuro nos anos 1940, Stefan Zweig se suicidou

As nações lá de fora, do chamado Velho Mundo que admiramos, têm mais estrada e história. Sua sociedade, no passado distante – da Antiguidade à Era das Revoluções burguesas, às grandes guerras do século XX, marchas e contramarchas que, por vezes, as levaram ao precipício -, todas vivenciaram coisas muito similares ao que o Brasil vive.

Para gozar o grau de estabilidade e participação cidadã hoje desfrutados por seu povo, espoliaram outros “mundos” e sofreram internamente períodos de violência, fome e guerras civis.

Exageros e equívocos pontuais – remember Maximilien Robespierre na Revolução Francesa, que deu lugar ao bonapartismo – haverá.

É preciso estar atento e criticá-los, como agora se faz com o beneplácito do Procurador-Geral da República na Lava Jato com os bandidos irmãos Batista da J&F.

Mantidas as garantias do Estado Democrático de Direito, bom sublinhar, não demorará outro século para o Brasil deixar de ser a alegoria de país do futuro prevista por Stefan Zweig (1881-1942).

O Brasil será uma Dinamarca quando um negro for reitor da USP ou da UFBA. É preciso avisar a meus pares que não se assustem: isso não está em jogo nem no momento nem daqui a décadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

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