Eu e meu saco cheio!

Resisti bastante.

Somente ingressei na carreira de servidor público na marra. Forçado pelas circunstâncias materiais de existência. Não me arrependo. Ou sim. Se refletisse um pouco antes.

Há oito anos atingi o topo da docência pública federal. Poderia ter me acomodado, como é a tendência logo ao entrar. Mas não me ufano!

Tornado amanuense (na Roma Antiga, escravo alfabetizado que servia de secretário para o seu senhor, ensina o dicionário), produzo.

Duas vezes em menos de quinze anos escolhido como paraninfo homenageado de formandos, sou bem avaliado pelos principais interessados: estudantes.

Detestado e invejado por pares. Cumpro com responsabilidade, humildade, provocativo e espírito juvenil, a minha sina.

Velhaco professor recentemente alçado a membro do Conselho Editorial da Folha, certa vez cravou em público que sou persona non grata na faculdade na qual os dois damos aulas. Invejo seu latim de homo gravis, sed stultus.

Antes desse purgatório, rodei muita bolsinha aí pelo setor privado, com “carteira assinada”. E o de prestação de serviços. Neste caso, a maior parte do tempo por própria conta. E risco.

Sempre vi com suspeita o funcionamento, no Brasil, do primeiro setor de mercado, o serviço público. Sinecura. Compadrio, patrimonialismo, clientelismo. Regalias. Ambiente contaminado pela cultura da enrolação. Parasitária.

Desconfio similarmente do chamado terceiro setor, o das organizações não-governamentais. Que cada vez mais, é triste constatar, tornou-se braço cúmplice, proxeneta daquele primeiro.

Estou generalizando? Talvez. Há exceções? Claro! Mas, na média, a máquina “pública” tem nada de público. Pertence a grupelhos e igrejinhas de interesses particulares. É demasiadamente custosa ao conjunto da sociedade, não entregando o que esta paga para sustentar o serviço.

Por concurso, fiz-me professor de universidade. À pulso. Por falta de vaga bem remunerada no deprimido mercado de imprensa da Bahia – local de nascimento para onde regressei por razões familiares, ao finalizar o doutorado na Universidade de São Paulo.

Estudante de jornalismo no início dos 80 na EBC/UFBA, ao lado de colega

Jornalismo do contra

Na docência até hoje, jamais abandonei o jornalismo. Jornalismo, de que sou fiel a partir de abraçá-lo como ferramenta de trabalho, combate e sustento! Jornalismo, não assessoria de comunicação ou relações públicas. Essas coisas têm lá o seu valor. Contudo, funções antagônicas ao jornalismo.

Sou, por ofício, do contra. Que o digam os “donos do poder” na UFBA, o caso da compra dos ferry-boats em um salão de cabeleireira nos arredores de Lisboa pelo governo Jacques Wagner/Otto Alencar.

Do ex-prefeito Mário Kertész, com sua Rádio Metrópole, nada posso acrescentar. Por estar sendo processado por ele e o filho Chico, sócio do Ministro de Comunicações do presidente da República de plantão.

Tenho combinado as duas vocações, docente pesquisador e jornalismo, Bahia e Brasil adentro. Somente ainda não fui chamado a Tocantins, Santa Catarina, Roraima, Paraná e Acre. Aos demais estados, já.

Assim fui levado ao México, Estados Unidos, Perú, Guiné Bissau, Venezuela, Trinidad&Tobago, Japão, China, Iran, Turquia, Tanzania, Zanzibar, Cabo Verde, Moçambique, Senegal, Gâmbia, África do Sul, Mali.

Portugal, Grécia, Espanha, Holanda, Bélgica, Inglaterra, França, Suiça, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Polônia, Áustria, Qatar, República Tcheca, Itália, Croácia, Ucrânia…

Meus olhos já viram coisas… como diria Roy Batt, personagem andróide de “Blade Runner”, em sua fala antes de morrer (tears in rain).

Residi, por um ano cada vez, em três capitais estrangeiras, com vistos especiais de moradia. Sempre em endereços privilegiados em Berlin, Lisboa e Nova York – nesta, em dois períodos diferentes separados pelo tempo.

Dei mais sorte no trabalho que no amor. Embora, também neste item, não tenha lá muito do que reclamar. Deus tem sido generoso num campo e no outro. Amei e ainda amo.

Estou no lucro, apesar das enrascadas nas quais me meti. Fui amado, querido e desejado por mulheres simplesmente inesquecíveis. Aprendi com elas. Retribuí, dentro das minhas limitações. Tenho culpas a expiar. Que me perdoem aquelas que sabem.

Com o brazilianista Thomas Skidmore, na Brown University, EUA

Causas ou negócios?

Até os 29 anos, antes de ter meu primeiro filho, não fazia nenhum esforço para ser longevo. Já tinha publicado um livro em grande editora, de distribuição nacional. Imprudente em várias ocasiões, achava que morreria antes de completar a idade de Cristo. Plantei árvore em algum lugar. Tive um .38 quando “liderança” na favela, preventivamente.

Na USP fiz mestrado e doutorado. Residi por 10 anos na terra da garoa. Deixei minha marca. Conciliei estudos, pesquisas, agitação política pela “causa negra” (quando isso ainda valia a pena) e presença no jornalismo, paixão incrustada.

Repórter no Jornal da USP, editor do Jornal do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores), freelancer de O Banespiano (jornal do conglomerado Banespa), de O Trecheiro (da Comissão Pastoral dos Sem-Teto da Arquidiocese de São Paulo), colaborador eventual com reportagens e artigos na Folha de S. Paulo etc.

Tive uma filha e um filho concebidos em Sampa, cada qual com pessoa distinta.

Numa ocasião fui convidado pela USP, par de anos depois, a participar de um congresso sobre “Tolerância”. Festa de encerramento na Escola de Aplicação. Tirei Sueli Carneiro, do Geledés, para dançar agarradinho “Unforgettable”, dueto de Natalie Colle e Nat King Colle, pai.

Enquanto dançávamos, Sueli me segredou o quanto eu fazia falta no debate público “sobre racismo brasileiro”, depois de largar tudo e regressar a Salvador. Estaria sendo sincera? Não sei. Fato é que aquela “causa” foi transformada em fonte de negócios, coisa que sempre critiquei.

Entrevista em Paris com Viviane Forrester, autora do best-seller L’Horreur économique

De galho em galho

Estabeleci por meta não permanecer mais que dois anos servindo um mesmo patrão. Também à mesma paixão (li Schopenhauer ainda cedo). Isso mudou. Alguns não entendiam e até me aconselhavam a permanecer.

Nos meus 20 anos já havia prestado serviço de consultoria e redação à Fundação Emílio Odebrecht, chefiada pelo senador Josaphat Marinho da sala ao lado que me deram, com secretária.

Naqueles idos Fernando Barros, sócio-proprietário com Rodrigo Sá Menezes da Propeg, entre as 10 maiores agências de publicidade do país, parece ter identificado algum talento no pirralho. Resolveu investir para que me tornasse redator publicitário.

Mandaram-me trabalhar em Recife e depois em Aracaju, como mascote da equipe de marketing político da agência, em campanhas eleitorais para cargos de governador e senador. Remunerava-se muitíssimo bem, salário mensal à época equivalente a 5.000 dólares! Eles não me deixariam mentir.

O dinheiro vinha em maços de notas em saco de papel pardo. Quando comuniquei ao xará e a Rodrigo que estava deixando a equipe, só faltaram me esganar – por carinho. Ante minhas desculpas esfarrapadas (pruridos éticos) para rejeitar tamanha bufunfa. Burrice de minha parte!

Pedia demissão ou arranjava um pretexto para ser posto no olho da rua. Trabalho jamais faltou, entretanto. Bastava estar disponível que surgia nova oportunidade.

Nunca dei importância a nada nem lutei para manter emprego fixo. Empregado pelo Correio da Bahia dos áureos tempos, já alçado a “repórter especial” aos 21 e agraciado pelo editor de Cultura, Gutemberg Cruz, com uma coluna de meia página focada em Livros, Literatura e crítica literária, chutei o pau da barraca sem quê nem pra quê.

Ainda crente no canto de sereia da “esquerda”, como nosso empregador era Antônio Carlos Magalhães, achava que não podia agradar a Jeová e a Belzebu ao mesmo tempo.

Os mandatários da Facom não pensam assim,quando induziram UFBA a erro em contrato de parceria com o Correio*, que virou caso de investigação pela CGU, TCU e Ministério Público Federal.

Se lambuzaram por quase dois anos com salário adicional irregular, pago pela empresa de ACM, o sábio direitista que se tornou amigo íntimo e particular de Fidel Castro, este mítico personagem de inocentes úteis “socialistas”.

Marco Antônio Moreira (MAM), chefe na Tribunal da Bahia, mandou me contratar para o setor de reportagem do cotidiano da cidade. No segundo dia mandaram cobrir uma manifestação de favelados contra o prefeito na Praça Municipal. A cavalaria da Polícia Militar cercou a multidão, ameaçando espancamento.

Deixei a passividade de repórter, subi no carro de som, peguei o microfone e desafiei os militares. Recuaram.

De regresso à redação do jornal na rua Djalma Dutra, enquanto terminava o texto MAM, puto comigo, veio me dar um sermão. “Não tenho como te segurar. O dono mandou você regressar amanhã e pegar sua demissão no setor de pessoal”.

Coquetel no restaurante do TCA de lançamento de mais um número da Província

Patrão é o dono

Tinha uma “filosofia”: não vale a pena viver a vida fixado anos a fio no mesmo emprego. Submetido a patrões que só pensam neles. Não titubeiam em descartar o empregado, como primeira opção na resolução de desafios e cortes de custos.

Ao ter a iniciativa de criar um jornal próprio, alternativo, congreguei colaboradores não remunerados como eu mesmo. O acervo foi doado à ABI (Associação Bahiana de Imprensa).

Enquanto durou foi uma aventura gratificante, em termos de experimento jornalístico. Província da Bahia tinha editor-responsável, não necessariamente um dono. Faliu, antes de faturar dois prêmio$ de reportagem, competindo com gente grande.