
Olhei e vi brilho nos olhos de minha filha que acabara de completar 13 anos quando, de carro a caminho da escola na segunda semana de julho, ao passarmos na avenida lateral ao Teatro Castro Alves (TCA) observou, entre surpresa e contente: “Foi reaberto?” (ela havia passado três semanas de férias na roça, com a mãe).
Confirmei que sim. E, na primeira oportunidade, ao saber do intitulado “Concerto Afro” da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), agendado para 18 de julho, decidi comprar ingressos e levá-la. Oportunidade para conferir a reforma e desfrutar o trabalho da orquestra.
Ainda mais que, na propaganda de venda, publicizaram as atrações participantes:
- Carlinhos Brown, que dispensa apresentações desde que lançou o álbum Alfagamabetizado (1996);
- Majur, a quem ouço no rádio com minha filha desde quando esta tinha 9 anos (“Deixe eu te levar para tomar um café…” – adoramos! –);
- Luedji Luna, de quem temos o primeiro CD antes de, anos anteriores, a assistirmos no palco deste mesmo TCA (seus pais cresceram comigo entre o Calabar e o Alto das Pombas), e
- Ilê Aiyê, grupo do qual essa pré-adolescente somente conhecia até agora por sábado sim, outro também, ouvir com a genitora, fã inveterada, um programa radiofônico semanal da rádio Educadora da Bahia.
DO BANDO OLODUM A BULE-BULE
Depois de comprar os ingressos busquei mais informações. Fiquei sabendo que a direção de todo o projeto é de Elísio Lopes Jr., razão positiva a mais que justificava o investimento de R$ 100,00, valor inteiro: o valor de meia entrada havia se esgotado alguns minutinhos depois da abertura das vendas, na tarde de 14/07. Lopes Jr. , graças a Deus, tem construído uma carreira artística de louvor, a partir do zero. É digno de aplausos.
Irrestritos, nem sempre. Outra vez constato ao experimentar esse “Concerto Afro”. Tudo começa bem, mas termina enfadonho. Obviamente esta não é opinião unânime dos mais de 1.500 espectadores presentes.

O show é aberto com integrantes do Bando de Teatro Olodum (não confundir com o bloco afro) encenando alguns esquetes de Cabaré da Raça!, peça para cuja montagem original este escrevinhador foi convidado por Marcio Meirelles, diretor do Teatro Vila Velha e criador do Bando, a acompanhar todos os ensaios de preparação.
Meirelles pediu que desse pitacos e, de graça, escrevesse a apresentação do primeiro programa impresso da peça. Republiquei o texto no caderno semanal “A Tarde Cultural”, à época editado por Florisvaldo Mattos ou Tasso Franco. Já lá se vão bote anos nisso! Fiz tudo de bom grado. Dois dos atores do bando, Jorge Washington e Rejane Carneiro, antes foram forjados no Grupo de Teatro do Calabar, sob minha coordenação.
Encerrada a breve participação do Bando – informei à minha filha ter ela visto apenas pouca coisa de Cabaré da Raça! –, Elísio Lopes Jr. resolveu dar o texto do cerimonial a Sulivã Bispo, mestre de cerimônia. Força a barra para criar “um clima” com a plateia, pela entonação e trejeitos, artista do metier teatral. Que, daí até o momento de a OSBA entrar em cena, faz um chatíssimo discurso apologético e não contínuo, pois entremeado de uma canja do repentista Bule-bule, sobre o ofício artístico, a baianidade nagô e a obra de reinauguração do TCA, que estaria “de volta” aos braços dos baianos. Bule-bule se engasgou um pouco, mas improvisou verso de semelhante louvor ao empreendimento.
Tá bem. Agora conta aquela do papagaio… Estamos em período eleitoral.
A sala principal do TCA esteve fechada de janeiro de 2023, após um incêndio, até agora. Naquele ano, as obras de recuperação foram orçadas em R$ 150 milhões. Ano seguinte o valor passou a R$ 162 milhões. O gasto final deu um salto para R$ 260 milhões. Números oficiais, passíveis de auditagem pelas autoridades competentes.
Seja como for, se verdadeiros equivalem a quase o triplo de preço dos ferryboats “Zumbi dos Palmares” e “Dorival Caymmi”, adquiridos por Jaques Wagner e Otto Alencar de empresa cuja sede era um salão de cabeleireiros nos arredores de Lisboa, Portugal. Fiz as reportagens.
MAJUR AO LADO DE SUA REFERÊNCIA
Voltemos ao Concerto. Com arranjos da OSBA, que incluíam trechos, por exemplo, de Villa-Lobos e rápida participação de corpo de dançarinos do Balé do Teatro Castro Alves, o show continuou com Luedji Luna. Afinada, cantou três músicas (duas autorais) e antes de retirar-se deu vez a Majur. A presença de cena dessa artista, com a potência de voz e performance, preencheu o que ainda faltava. Tudo e todos ao redor – inclusive a orquestra, tivemos de nos dobrar aos timbres dela.
Também cantou duas músicas, antes de dividir em mais uma o palco com Carlinhos Brown. Introduziu este músico contando que desde os 5 anos de idade, criança participante do coro, teve seu primeiro contato com Brown – a quem chamou de seu mestre.
De fato, o ponto alto do Concerto é Brown. O mestre entrou tocando berimbau. Finalizado o dueto com Majur, dominou o espetáculo sozinho – OSBA nos arranjos – o maior período, entre composições “de rua” e outras mais sensíveis. Pelo que falou, sua participação para que aquilo tudo estivesse ocorrendo não foi de fora, como mero artista. Teria atuado como um “embaixador” para que a requalificação do TCA acontecesse.
No intermédio, Brown pediu licença ao maestro Carlos Prazeres, condutor da OSBA, para contar como se deu a inspiração de compor “Frases ventiais”, a faixa de nº 10 de Alfagamabetizado. Estória singela, expressa na execução feita da música então.
HORA DO SAMBA DO CRIÔLO-DOIDO
O anticlímax do Concerto, entretanto, estaria por vir. Brown convocou ao palco a Band´Aiyê, cuja percussão foi diminuída e completamente atrapalhada pelos arranjos sinfônicos da OSBA. Não se sabe qual o propósito dos responsáveis pelo equívoco da trapalhada, Prazeres, Manno Góes (diretor artístico), Lopes Jr. ou os três juntos.
Misturar passagens de Mozart e outros compositores clássicos (não há guia) com os tambores potentes do Ilê Aiyê, transformou o concerto num “samba do criôlo-doido”. Apagou, inclusive, percussão e vozes, na maior parte desafinadas, do casal de cantores da banda do bloco afro. Uma peça pregada aos espectadores? Houve um momento de apagão, em torno de 30 segundos – uma longevidade –, no qual os membros da banda e a própria OSBA ficaram mudos em cena. Constrangedor.
Para encerrar, chamaram de volta Majur e Luedji Luna para compor o patético quadro. Era visível o quanto todos ali estavam deslocados. Carlinhos Brown retorna em socorro para tentar levantar o show. De certa forma, consegue, por domínio e potência de um astro.
Mas, então, já era tarde. Brown concluiu sua tarefa literalmente recorrendo à frase dita pelos padres ao final da missa: “Que todos voltem para suas casas com Deus e em paz!”. Brochei.