Deixem Risério falar

[Texto originalmente publicado a 25/01/22 no caderno “Ilustríssima”, jornal Folha de S. Paulo, em versão outra]

Há alguns anos fui ao apartamento da mãe de Antonio Risério, a seu convite, que ocupava naquele período, nas imediações do Farol da Barra, Salvador, região onde também está o Calabar, favela onde nasci, para entrevistá-lo para o jornal no qual trabalhava.

Região de Crown Heights, Brooklyn, em 1991

Não sei se a propósito de algumas de suas estripulias ou do livro que o fez conhecido, Carnaval Ijexá. Trabalho de etnografia cultural que toma blocos afros e afoxés como atores da transformação positiva da festa popular. Recomendo.

Autodidata sem rigor acadêmico, Risério é intelectual orgânico, na definição de Gramsci. Vocaliza o pensamento de determinada classe ou grupo social. Não de graça. Delator na Lava Jato, João Santana ao alçar voos no marketing político de Lula e de Dilma Rousseff ao Planalto o teve como seu colaborador.

James Baldwin escreveu que nem tudo o que se desafia muda mas nada muda até ser desafiado. Desconfio, contudo, que a essa altura Risério nem muda nem larga o cigarro. A última vez que o vi, antes Covid-19, foi na plateia de pocket show em teatro de nossa terra, ele com sequelas de acidente vascular cerebral.

Agora o reencontro, provocando reações diversas – algumas até rancorosas demais – ante artigo sobre um suposto racismo negro contra brancos. Branco, sorrateiro, saberá usá-las em reforço ao que nos últimos tempos tem alardeado. Solicitei espaço não para xingá-lo. Isso seria entrar em seu jogo. Nem espinafrá-lo – como tem feito com a luta dos movimentos sociais negros, colocado por ele no balaio do identitarismo.

Pãos e pães é questão de opiniães (Rosa). O “antropólogo” tem direito a falar. Que exerça o jus sperniandi. Se falseia fatos, assuma as responsabilidades.

De fato, Haile Selassie I transformou-se em tirano, deposto pelos etíopes. Não deve-se, contudo, menosprezar sua liderança no combate à ocupação da Etiópia, exceção na África, pelo projeto colonizador europeu. Foi seu comando que repeliu as tropas fascistas. Líderes da Frente Negra Brasileira eram Integralistas? Nem todos. Alguns eram carnívoros? Outros veganos?

Pôr na mesma balança atores, relações raciais distintas e diferentes modos com que diferentes sociedades, a cada momento do processo histórico, lidam com as especificidades no enfrentamento do complexo racial é erro primário proposital.

Risério sabe, porque leu Freyre, Skidmore, Oracy Nogueira, Fernandes, Gorender: as experiências brasileira e estadunidense no trato do tema são completamente particulares.

Dito isso, respondo à “pergunta fundamental” posta pelo autor em seu artigo. É falaciosa a premissa por si utilizada para construir sua tese, portanto fácil demonstrar sua fragilidade. Como fez Zara Figueiredo Tripodi em “Tendências e Debates” (17/01/22).

A tese de Risério é da existência do que ele chama “neorracismo identitário”. Como Cassandra, ele teme o pior. Seria isso, o racismo dos negros contra os “brancos”, o leitmotiv do discurso de afirmação da identidade negra. Que se queixe ao Papa, a Edward Said e a Frantz Fanon.

Uma de suas conclusões: estaríamos passando “da política da busca da igualdade para a política da afirmação da diferença”. Aponta a “esquerda” – classicamente, ao menos a partir de Rousseau, estuário da pretensão da “igualdade” – e trai-se por agora defensor da busca da igualdade, contradita pela afirmação da diferença.

Nos debates do heterogêneo, supra e mesmo apartidário Movimento Negro, apenas ingênuos acreditam ser possível estabelecer uma sociedade de iguais. Nem mesmo na Utopia de Morus, inspiração de revolucionários socialistas dos quais Risério quer distância.

No Brasil, a bandeira de luta que unifica negros pós-escravidão seguida do golpe da República sempre foi mais modesta. Intensificou-se na presente quadra da democracia iniciada com a Constituição de 1988. A luta sempre foi, é, por tratamento equitativo: igualdade de oportunidades – distinto de igualitarismo – na disputa por espaços institucionais e de prestígio social historicamente apropriados por brancos.

Ele abre seu artigo afirmando que “todo mundo” sabe que existe racismo branco antipreto. Nesse “todo mundo” de Risério estão incluídos os aparelhos ideológicos que mantém a máquina do Estado azeitada? Os mega-empresários? Os juízes, tribunais, polícias assassinas? Bolsonaro e os presidentes atuais dos demais poderes da República? Cúpulas de Universidades, da Igreja, do mercado de bens simbólicos e o ordinary people?

Outra generalização: “Muçulmanos escravizaram e mataram durante séculos de tráfico negreiro na África”. Aqui trata-se da expansão do Islã desde a península arábica, a partir do século VII da era cristã, pelo norte africano. Porém, ao citar sem contextualização fatos, frutos do processo histórico de determinada época, Risério esquece de antecedentes, da Antiguidade clássica, de Genghis Khan, dos Incas, ou dos belgas no Congo.

Desinforma ao não contar terem sido aqueles muçulmanos superados, do século XIV em diante, pelo empreendimento europeu, de base cristã, do tráfico que deu base à acumulação primitiva do capital. O que se conceitua como racismo científico está de mãos dadas com o euro-etnocentrismo e propagadores como De Gobineau, que rejeito ser sua atual leitura de cabeceira.

O “antropólogo” diz ser a mainstream media conivente com o identitarismo negro-racista. Cita William McGowan, autor de Coloring the News, publicado em 2001 nos Estados Unidos. McGowan, mente do conservadorismo, quer ser um ataque à pauta do liberalismo abraçada pelos Democratas. Sua crítica não restringe-se ao debate das relações raciais. Abarca a agenda LGBTQI+ e do direito ao aborto.

Para tentar confirmar a tese com exemplos estadunidenses de cobertura de alguns fatos isolados em terceira mão, Risério toma como “destaque o racismo preto antijudaico, que não é de hoje”. Ilustra isso escrevendo: “Em Crown Heights, no verão de 1991, os pretos promoveram um formidável quebra-quebra (…) durante o qual gritavam ‘Heil Hitler’ em frente à casas de judeus”.

O artifício comum de Risério, meias-verdades, fica aqui evidente. Para uma compreensão abalizada das ocorrências, sem registro documental da exaltação a Hitler, indico o historiador judaico-americano Edward S. Shapiro em Crown Heights: Blacks, Jews, and the 1991 Brooklyn Riot, de 2006. Num país clivado de ressentimentos raciais como os Estados Unidos, ler James Baldwin, “Negroes Are Anti-Semitic Because They’re Anti-White” – de forma alguma uma defesa do antisemitismo negro – também desanuviaria os espíritos.

Sob comando de Haile Selassie, Etiópia venceu o fascismo europeu

Crown Heights é área multiétnica do Brooklyn – há pouco fui comer uma feijoada regada a samba em restaurante brasileiro aí localizado. Na noite de 19 de agosto de 1991 durante uma procissão comandada pelo rabino do Chabad Lubavitch, um dos ramos hassídicos do judaísmo ortodoxo, um carro dirigido por um judeu – depois confirmado não ter licença – avançou o sinal e atropelou duas crianças de imigrantes guianenses da vizinhança.

Gavin Cato, de 7 anos, morreu. Sua prima de mesma idade, severamente ferida, sobreviveu. Ambulância da comunidade judaica chegou ao local em minutos para resgatar ao hospital privado o atropelador, Yosef Lifsh, de 22 anos. Apenas ele. As crianças ficaram no asfalto debaixo do carro aguardando socorro público. Seguiu-se a revolta de manifestantes, com jovens negros atacando judeus – um foi também assassinado -, suas casas e estabelecimentos comerciais nos três dias seguintes.

As razões pelas quais Risério agora demoniza os negros – além de “antissemitas” seriam “antiasiáticos”, anticoreanos” etc., assemelha-se à obsessão presente em vários textos catárticos da psiquê racista. Um deles, To Kill a Mockingbird, de Harper Lee, escolhido o melhor dos últimos 125 anos por leitores do Book Review de The New York Times.

Vê-se o racismo operando como um sistema de força-poder. O medo desperto em senhores brancos, exorcizado com a prática da violência institucionalizada. Esse racismo tem seus ideólogos. Risério está forte candidato a herói da Fundação Cultural Princesa Isabel? No modelito proposto pelo atual presidente da Fundação Palmares?