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Homenageado por Google, autoridades na Bahia negligenciam memória do geógrafo Milton Santos

Foto recente da fachada do imóvel, autoria do jornalista Alexandre Santos que, na infância, foi aluno da Escola Santa Terezinha, aí montada pela professora Adalgisa

ESTÁ À VENDA e caindo aos pedaços o imóvel que abrigou, por mais de meio século, a família do “Prêmio Nobel” de Geografia, o baiano Milton Santos, morto em 2001.

A irmã do geógrafo, Ieda Santos, morou ali até o final de 2015, quando morreu septuagenária após cinco décadas vitimada por disrupção mental.

Adquirida em meados dos anos 1950 pelo pai do geógrafo, por hipoteca da Caixa Econômica Federal, a casa, por iniciativa da mãe, funcionou também como escola – Santa Terezinha – até a primeira década dos anos 2000.

Por serem forçados deixar o Brasil com o golpe militar de 1964, Milton e seu irmão Nailton Santos somente com a abertura política depois de 1978 – mãe e pai já mortos – voltaram a frequentar a residência.

Aí se reuniam com a irmã, parentes e cuidadoras de Ieda todas as vezes em que ambos, cidadãos do mundo, tiravam férias em Salvador.

Dentro do imóvel, relíquias da família. Móveis, objetos de uso pessoal, de cozinha, bibliotecas, álbuns de fotografia. O piano, comprado pelo pai na década de 30, ainda funcionava, tocado por Ieda quando da visita dos irmãos.

Milton Santos foi recentemente distinguido em homenagem do maior motor de buscas da Internet, Google, que a 1º de outubro deste 2018 dedicou-lhe a porta de acesso da ferramenta, com um instrumento popularmente conhecido por doodle.

MÊS DA CONSCIÊNCIA Negra, nesta terça-feira 27 de novembro o geógrafo será tema de uma mesa-redonda intitulada “Arte, Cultura e Globalização – Diálogos com o pensamento de Milton Santos”.

O evento acontece no auditório do Pavilhão de Aulas 5 (PAF-V) no campus do bairro de Ondina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), das 15 às 18h. (Veja no Facebook).

A iniciativa é do Grupo de Pesquisa Permanecer Milton Santos, coordenado por este escrevinhador no âmbito do Poscultura (Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA).

Como biógrafo autorizado de Milton Santos, este escrevinhador gestionou ante autoridade do governo do Estado da Bahia, ainda em 2013.

Aventou a possibilidade de o imóvel ser convertido em patrimônio de interesse público. Poderia sediar, por exemplo, o Memorial do internacionalmente renomado intelectual brasileiro.

Este biógrafo promoveu, inclusive, uma visita ao local do então titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Elias Sampaio, na gestão do governador Jacques Wagner (PT).

À época o governo patrocinava desapropriação de imóveis e requalificação da área do bairro Baixa de Quintas, para construção da via expressa ligando o porto de Salvador à rodovia BR-324.

Wagner comandou a Bahia a partir de 2006, elegendo em 2014 seu sucessor, Rui Costa, que acaba de ter o mandato renovado para até 2022.

Quando deputado federal, em 2001, Jacques Wagner propôs e aprovou na Câmara dos Deputados a denominação “Milton Santos” para a rodovia federal que corta, em território baiano, a Chapada Diamantina, região de nascimento do homenageado, em Brotas de Macaúbas no ano de 1926.

Evento aberto ao público discute, com participação de convidados especiais, a permanência do pensamento de Milton Santos nos dias correntes

DEPOIS DA morte de Ieda Santos, diante do adoecimento da professora Altair, espécie de irmã e cria da família, a casa foi fechada e ficou completamente sem uso.

Trata-se de espólio dos herdeiros: um filho e três netos do geógrafo. Com os quais ainda daria tempo abrir negociações. 

A iniciativa pública, mesmo privada ou em parceira, pode comprar o imóvel e torná-lo em espaço cultural, de pesquisas e estudos.

Em torno da memória do único brasileiro negro uma vez alvo de reverências até mesmo do Google. 

Docente da Universidade de São Paulo e da UFBA. Esta que, ironicamente depois de sua morte, usa institucionalmente seu nome como marca de prestígio.

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