O livro, lançado em 2005, apresenta o "grande timoneiro" como um verme lascivo e traiçoeiro, responsavel por 70 milhões de mortes na China

O livro, lançado em 2005, apresenta o “grande timoneiro” Mao (1893-1976) como um verme lascivo e traiçoeiro, responsável por 70 milhões de mortes na China até seu frustrado fim em 1976

Qualquer um dos meros mortais que refletem sobre a existência fica fascinado com aqueles poucos, entre os seus, talhados para mudar os rumos da História. Geralmente deixando um rastro de sangue depois que passam pela terra.

No século 20, com evidentes repercussões neste momento – inclusive para o Brasil de Dilma Rousseff – vem do extremo oriente, China – o “império do centro” – um desses grandes “timoneiros”. Aliás, como os puxa-sacos o chamavam. 70 milhões de mortes, muitas cruéis, seria o legado deste líder, em tempo de paz. Dá quase uma Alemanha inteira!

MAO, A HISTÓRIA DESCONHECIDA, da chinesa JUNG CHANG e de seu marido britânico Jon Halliday (859 págs. na edição portuguesa que acabei de ler), é desses livros de vertigem.

Conta a vida e a trajetória para chegar ao poder (1949) e aí manter-se a qualquer custo do homem que mudou a história da civilização de uma nação milenar, onde vivem mais de 20% da população do planeta. É pra ficar de pé atrás toda vez que ouvimos gente “bem intencionada”.

Dessa de movimentos, de “frentes amplas”,  partidos políticos ou de igrejas, a falar em nome “de milhões que tiraram da fome e da miséria”. A pregar como solução para as desigualdades históricas, estruturais, a “construção do socialismo”.

  • SALVADOR, CIDADE REFÉM DOS “ARTILHEIROS”

O atual conglomerado que governa o Brasil, PT e seus sócios condominiais, é desses farsantes. Na Bahia instalaram um estado de insegurança, em que se soma por dia apenas em Salvador em média 8 assassinatos.

No contexto, perdem a vida milhares de jovens, muitas das vítimas inocentes , algumas sem nada ter a ver com os confrontos já autorizados pela cúpula do sistema.

Pais de famílias de um lado e de outro, isto é, também policiais, estão sendo tragados, usados pelo aparato do governo nessa guerra insana, na qual viúvas e órfãos se multiplicam nas periferias.

A narrativa oficial é a mesma: “guerra do tráfico”, policiais que “reagem por terem sido recebidos a bala”… E assim as execuções se tornaram rotineiras e naturalizadas, até pelo raquitismo de um jornalismo ou venal, ou submisso e interesseiro. Sondagens internas que orientam o governo mostram que “a maioria da população aprova” a matança. De pretos e pobres, que compõem a maioria daquela maioria.

Flyer convida a sociedade para debate contra a matança da polícia petista na Bahia. Clique para saber mais

Flyer convida a sociedade para debate contra a matança da polícia petista na Bahia. Perícia já aponta execução covarde, apoiada por Ruy Costa (PT), no Cabula. Clique para saber mais

Os “artilheiros” de Rui Costa/João Leão agem sem freio, numa matança vergonhosa aceita pela maioria da população amedrontada e refém.

Com baixa reação de um movimento social cujas “lideranças” são corrompidas graças a migalhas de um projeto de governo criminoso, como já demonstrado pelo Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470 (Mensalão) e em breve na chamada Operação Lava Jato.

Não esquecer que, na campanha eleitoral de 2014, Rui Costa foi o campeão nacional das doações de empreiteiras dessas envolvidas no assalto a Petrobras, de acordo com dados disponíveis no site da Justiça Eleitoral.

Geralmente esses “revolucionários” anunciam a emergência de um “homem novo”, num mundo de igualdade absoluta para todos (de quaisquer sexos ou origens), sob um líder que nos liberta dos opressores. Sem opositores ou liberdade de imprensa, sem intelectuais a não ser que louvem o “Messias”, nosso guia e Salvador.

Foi assim que assaltaram recentemente a Petrobras, maior empresa pública brasileira, enriquecendo eles mesmos e as suas siglas. “Em nome do povo”, a Petrobras deixou de ser nossa para ser deles. José Dirceu, que inveja de sua empresa de consultoria! A cara de pau é dizer que a defendem, como tem feito o cacique Lula e até um ex-presidente da estatal do período de maior loteamento e corrupção da empresa.

Em nome da bandeira de fazer o bem, quanto sangue humano tem sido derramado pelos bons (Nietzsche), quantas vidas truncadas? Quanto banqueiros e empreiteiros camaradas levam da bufunfa?

Boko Haram, Al-Shabaab e as centenas de meninas sequestradas e os milhares de estudantes assassinados por estes grupos que se declaram inimigos “do Ocidente” (do capitalismo também?) que o digam.

No Brasil ainda há quem louve a Nigéria e líderes africanos outros (não o quanto ali se desrespeita aos direitos humanos), por sua “herança cultural”. Expressa em acarajé, terreiros de Candomblé e fantasias outras – muito bem exploradas pelos senhores de mando, evidentemente não  negros.

  • E POR FALAR DISSO…
Do arquivo do ator Jorge Washington, o Grupo de Teatro do Calabar em ação no Teatro do Instituto Cultural Brasil-Alemanha em Salvador, nos anos 80

Do arquivo do ator Jorge Washington (mais alto), o Grupo de Teatro do Calabar em ação no Teatro do Instituto Cultural Brasil-Alemanha em Salvador, nos anos 80

Com a narrativa de Chang sobre Mao Tsé-Tung lembrei-me logo do tempo em que era adolescente na favela do Calabar. Onde nasci e iniciava, na década de 80, a militância com outros colegas moradores.

Adolescentes, éramos assediados por emissários partidários diversos. Um em particular, do PCdoB, emergiu. Se dizia médico ou estudante de medicina, identificando-se como Abdon (se a memória não me trai).

Encarregaram Abdon de me visitar uma vez a cada semana, levando cartilhas e jornais “clandestinos”, nos quais se pregava o paraíso que era a Albânia de Enver Hoxha, em contraste com o Brasil do final da ditadura militar.

Transformar o Brasil em Albânia era o sonho de consumo dos revolucionários que queriam doutrinar-nos. Albânia, de capital Tirana? Uma titica miserável, sob uma terrível ditadura?

O Brasil é aqui!

O Brasil é aqui!

Então era isso que almejavam para nossa sociedade os que lutavam contra os militares depois de 1964? Replicar Mao, Stalin, ou mesmo Fidel?

Hoje quando Dilma Rousseff e sua trupe, ao falar de sua oposição à ditadura, vomitam sua fé na democracia, pensam que enganam a quem? O Banco de Desenvolvimento chinês, que acaba de socorrer a estatal dilapidada?

Cético por natureza, desde lá Abdon percebeu que perdia tempo comigo. Então mudaram a estratégia de aliciamento.

Por algum tempo ele foi substituído por uma bela jovem secundarista de classe média, filha de um juiz de Direito, que saía de seu apartamento próximo ao Chame-Chame para frequentar a favela, estabelecendo relação direta de amizade com minha irmã mais nova. Um passo para a sedução, já que a carne é fraca e santo nunca fui. Mas também aí não deu certo.

O PCdoB me abandonou. Somente saberia de Abdon em 1988, depois de um telefonema esbaforido que recebi de Domingos Leonelli, então coordenador da campanha eleitoral das “forças de esquerda” em Salvador, que disputaram em torno do candidato a prefeito Virgildásio Sena (PSDB).

Sim, o PSDB de Leonelli e da hoje senadora Lídice da Mata (PSB, ex-PCdoB)  na época era considerado de esquerda. Se coligou com o PCdoB, o PCB (Partido Comunista Brasilero) e o PMB (Partido Municipalista Brasileiro), legenda que abrigou minha candidatura a vereador depois que expulso e preso na sede do PT meses antes.

A apuração dos votos era manual. As anotações das seções eleitorais feitas em planilhas levadas para digitalização no Serpro (Serviço de Processamento de Dados federais), situado na Avenida Paralela, já no domingo da eleição. O que possibilitava os jornais publicarem os resultados prévios nas edições da segunda, terça, quarta-feira, quando então se concluía a digitalização.

Leonelli (esq.) em evento de lançamento de livro sobre as Diretas-Já para a presidência do país, com o autor da emenda constitucional Dante de Oliveira

Leonelli (esq.) em evento de lançamento de livro sobre as Diretas para a presidência da República, com o autor da emenda constitucional Dante de Oliveira e a cantora Fafá de Belém

Na segunda e na terça a “coligação de esquerda” já sabia que elegeria 3 vereadores, entre os quais aparecia o nome deste escrevinhador.

Na véspera, o telefonema esbaforido do coordenador-geral da campanha era para me alertar. Atendeu um colega, que falou com ele e depois me passou o telefone. Do outro lado, o alerta: dentro do Serpro estariam transferindo os votos a mim destinados, digitalizando-os para Daniel Almeida, do PCdoB.

“Corre para lá e tente impedir”, me disse Leonelli, indicando que eu falasse com o representando do PCdoB no Serpro, Abdon ou coisa parecida. Não existia celular. Falar como, se o setor de digitalização do Serpro é inacessível para comuns mortais como este? – indaguei. Como provar? Dirigimo-nos ao Serpro, mas da cancela da portaria não passamos.

Quer saber? Daniel Almeida tornou-se o terceiro nome eleito, a seguir deputado federal – cargo em que permanece -, líder do PCdoB, presidente estadual etc. Abdon, onde estará? Faz tanto tempo. Será o mesmo desse link?

O diploma de “primeiro suplente” de Salvador guardei em alguma gaveta. E saí para conhecer o planeta e outras gentes por esse mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo…

  • PERCORRI COM INTERESSE as páginas do livro sobre Mao, fruto de pesquisas de 12 anos em arquivos pelo planeta afora. O filé mignon são os documentos antes secretos da ex-União Soviética, que foi que criou o PCC depois entregue a Mao.
Chang e seu marido historiador, autores do livro resenhado positivamente "pela mídia ocidental" como uma granada desmistificadora

Chang e seu marido historiador, autores do livro resenhado positivamente “pela mídia ocidental” como uma granada desmistificadora

Os autores entrevistaram fontes de diversos países, inclusive China. No Brasil, João Amazonas, do PCdoB maoísta (tornou-se albanês depois de Mao estender o tapete a Richard Nixon, presidente falido dos Estados Unidos), e os filhos de Prestes que foram colegas dos filhos de Mao em escolas na Rússia.

A "Madame Mao" nos anos 30, quando era atriz em Shangai

A futura “Madame Mao” nos anos 30, quando era atriz em Shangai

O quadro que sobressai dessas páginas é o de um homem pertinaz em sua sede de poder pessoal a qualquer custo, “em nome da causa” que abraçou como nobre. Para Chang, que antes havia alcançado o êxito editorial com Cisnes Selvagens, Mao foi um monstro pior que Stalin ou Hitler.

Muita gente não gostou de ouvir isso e escreveu tomos e artigos de contestação, nos quais também dei uma olhada.  Porém, o livro do casal Chang-Halliday é mais sólido. Permanece proibido na China continental.

Uma das controvérsias é quanto a “Grande Purga” ordenada por Mao entre 1967-69, a que chamou de Revolução Cultural, que destruiu grandes tesouros em artes e ciência (rotulados “de direita” ou “da via do capitalismo”). Professores, artistas, intelectuais, atores, cientistas: a perseguição contra esses foi implacável e sanguinária.

Para não dizer que somente homens são “bons”, Jiang Qing (1914-1991), a 4a. esposa do líder chinês, passou para a história como a Madame Mao. Dizia ser “um cão” a serviço do marido, que a menosprezava e traía como sempre. Na Revolução Cultural teve papel de frente, liberando seu instinto sádico e raiva contra centenas de milhares de vítimas que mandou matar, prender ou isolar em campos de trabalhos forçados (escravidão). Suicidou-se, por fim.

Danila dentro da "Cidade Proibida", que sobreviveu à "Revoluçao Cultural" do PCC de Mao, em Beijing

Danila em Beijing, dentro da “Cidade Proibida” que sobreviveu à sanha persecutória da “Revolução Cultural” do Partido Comunista Chinês de Mao

TIVEMOS, A JORNALISTA Danila de Jesus e este escrevinhador, a oportunidade de visitar o país por quase duas semanas em 2012. Entramos por Shangai, nos fixamos em Beijing, depois Xi´an – onde está o Exército de Terracota – e de volta a Beijing.

Vimos a força do capitalismo selvagem fazendo uma China totalmente avassaladora. Por seu tamanho, tudo grandioso, de shopping centers a multidões, poluição e misérias. Algo parecido conosco? Ali a pena de morte é oficial (ao contrário da Bahia) e a Anistia International fala em ser o país onde mais o Estado executa condenados.

Numa estação de metrô, diante da impossibilidade de caber mais gente dentro do vagão, os guardas chicoteiam os passageiros chineses que impedem a partida, chutando-os para dentro aos berros, varetas no lombo.

Não se acessa nenhum site de Internet sem filtro do Estado, tampouco se vê televisão que não estatal. Claro, há burlas. E cópias. Danila, lembrando da infância, ficou feliz ao comprar um pacote de “Yakut”, o leite fermentado japonês. Não na embalagem tradicional de menos de 50ml, mas ao estilo chinês, de 250ml cada frasco, de design e cores iguaiszinhos ao original. Provou um e deitou fora o pacote, pelo gosto totalmente estranho.

João Amazonas, líder do PCdoB, depois de a União Soviética denunciar os crimes de Stalin, seguiu as diretrizes de Mao, que se manteve stalinista até se reaproximar aos Estados Unidos a partir de 1973

João Amazonas (1912-2002), líder do PCdoB, depois de a União Soviética denunciar os crimes de Stalin, seguiu as diretrizes de Mao, que se manteve stalinista até se reaproximar dos Estados Unidos a partir de 1973

Mandarim é a língua e escrita dominantes. Se escarra e se cospe em toda e qualquer parte: hábito cultural, seja dentro dos restaurantes tradicionais, seja nos vagões de trem (viajamos 6 horas Beijing a Xi´an) ou dos ônibus, os quais pegamos.

Ao ler os ataques a Chang e confrontá-los com a documentação em que se baseia a história desconhecida de Mao é muito mais crível que os argumentos dos seus críticos convertidos. O dogmatismo dos defensores do “grande timoneiro” é como o do lulupetismo.

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