Preso por forças de repressão do regime militar, este que aqui escreve já tinha sido outras vezes. Desde a puberdade. E bastante vigiado, como mostram documentos secretos dos “serviços de inteligência do regime” que agora chegam às minhas mãos – vindos do Arquivo Nacional de Brasília, em obediência à recente lei de acesso à informação aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma Rousseff.

Era um adolescente, em 1981, estudante de jornalismo e ativista dos movimentos de favelados e movimento negro, nos estertores da ditadura militar. Depois de muito refletir com colegas das comunidades do Calabar e Alto das Pombas, decidimos nos filiar ao recém-fundado Partido dos Trabalhadores – na época em que ser do PT era o mesmo que ser um leproso.

Sete anos e muitas porradas, pressões psicológicas e prisões por parte da polícia comandada pelos militares sob a tutela de sucessivos governos carlistas, este mesmo sujeito que ajudou a popularizar o PT junto àqueles movimentos sociais sairia preso da sede do partido. Partido este que todo o tempo evitou, quando não atrapalhou, o trabalho em nossas comunidades.

Os policiais militares chegaram, acuaram a centena de favelados que se manifestavam, cercaram e adentraram a sede do partido, desta vez convocados pelos mandatários enquistados na direção do PT na Bahia, e me prenderam, colocando-me no porta-malas de uma das duas viaturas da PM.

Os manifestantes impediram a viatura de partir, exigindo que fosse retirado da mala e posto à vista, no banco de trás do camburão. Foi o ato final que resultou na expulsão deste e de mais outros dois militantes sociais filiados ao partido. Que, então, descreveu-nos em nota oficial como se descreve bandidos e arruaceiros.

E Nelson Pelegrino, atual candidato do PT à prefeitura de Salvador, mostrado em sua propaganda eleitoral como defensor dos pobres e negros da Bahia? O deputado federal Nelson Pelegrino era o advogado ligado à direção do partido. Raivoso tal ACM Neto no discurso em que ameaça “dar uma surra em Lula”, Pelegrino foi o fiel escudeiro que diante da delegada plantonista do Complexo de Delegacias da capital, localizado no Vale dos Barris, com dedo em riste apontava este que aqui escreve como culpado pela pancadaria ocorrida minutos antes na sede do PT, localizada nas proximidades. Babando irritadiço, exigia que a delegada punisse e pusesse o “malfeitor” atrás das grades naquela mesma noite.

O malfeitor era eu! Nos links a seguir você pode ler como o PT, utilizando até de uma Nota Pública Oficial, criminalizou-nos junto à sua militância e através dos jornais. A Tribuna da Bahia, por exemplo, que sustentava o prefeito Mário Kertész, nessa hora serviu à versão daquele partido, já que o Movimento de Defesa dos Favelados era um dos mais combatentes na cidade. (Muitos dos que dirigiam o PT à época foram depois comandar o PSOL, sabe seu hoje candidato Hamilton Assis).

Mais abaixo, uma síntese dos acontecimentos que levaram ao processo de expulsão. Com a expulsão traumática de 3 fundadores do partido, o PT se livrou de um estrato de ativistas sociais que à época era um dos que mais combatia os desmandos do governo carlista, a inépcia do governo Nilo Coelho-Waldir Pires, e que lutava pela inclusão de negros e favelados à nova ordem democrática em construção com o fim do regime militar.

PODER E EXCLUSÃO NA CAPITAL MAIS NEGRA DO BRASIL

Em 1985 amplos setores do movimento negro organizado em Salvador queriam ter um candidato negro na primeira campanha eleitoral para a Prefeitura depois de mais de duas décadas. Propuseram ao PT o nome deste que vos escreve, mesmo jovem. Na convenção do partido para oficializar seu candidato, o grupo dominante no PT foi intransigente.

Aceitavam compor com qualquer nome – chegaram propor o de Luiza Bairros, atual ministra da Seppir que, entretanto, não era filiada ao PT -, menos com o de Fernando Conceição, do MDF (Movimento de Defesa dos Favelados), por conta de diferenças com a Federação de Associações de Bairros de Salvador (FABS). No bate-chapa, obtivemos votos de mais de 40% dos convencionais. Insuficientes, entretanto, para ganhar a convenção.

Diante disso, a outra alternativa do movimento negro recaiu sobre o nome de Edvaldo Brito, professor e tributarista renomado, ligado ao ex-governador Roberto Santos, fundador do PMDB, adversário de ACM, ex-governador biônico e ex-reitor da UFBA. Entretanto, em 1985 o ex-carlista Mário Kertész tinha ingressado no PMDB depois de sua demissão da prefeitura por conta do quebra-quebra de ônibus de 1981, e na convenção no PMDB passou um rolo compressor por cima de todos os demais pré-candidatos, a exemplo do popular vereador Marcelo Cordeiro e do próprio Edvaldo Brito.

PARTIDO ALGUM JAMAIS TOMOU A SI A CAUSA NEGRA

Brito, então, foi convidado a se candidatar a prefeito pelo PTB, que na Bahia era legenda auxiliar do carlismo – que, no entanto, concorreu com candidato próprio à prefeitura. O vice na chapa de Edvaldo Brito era o atual vice-governador Otto Alencar, imposto por Jaques Wagner depois que outro carlista, Cesar Borges, recuou do acordo de compor com o PT nas últimas eleições ao governo da Bahia.

Em 1985, período de reconquista das liberdades democráticas, o movimento social e o movimento negro radicalizara o discurso por uma socieade mais justa. Em Salvador, a maior bandeira do movimento era a conquista do poder. Bandeira que nenhuma outra força política, nenhuma agremiação partidária – de esquerda, centro ou direita – via como necessária. Da mesma forma que até recentemente essas mesmas forças rejeitavam a luta pelas cotas: na campanha presidencial de 1998, PT e Lula condenavam as cotas e somente as aceitou depois do fato consumado, a partir de 2002. Se agora, esquerda e direita apoiam é pelo senso de oportunismo da causa.

A luta pelo poder em Salvador passava necessariamente em apresentar um candidato à prefeitura, entendido isto como acima de questões dos partidos políticos que, afinal de contas, pouco se importaram historicamente com a autonomia política do negro no Brasil. Por isso, junto com outros ativistas de peso na Bahia, resolvemos apoiar a candidatura de Edvaldo Brito em 1985. Ele perdeu e continuou no PTB, até mesmo tornou-se vice-prefeito atual de Salvador. Nós, os ativistas, sem negociar absolutamente nada, seguimos na luta que sempre nos moveu.

INFIDELIDADES E FIDELIDADES: ELEJA A SUA

Três anos depois, com a proximidade de novas eleições municipais, a direção do PT na Bahia decidiu mover um processo de cartas marcadas visando a expulsão deste que aqui escreve. Motivo alegado, 3 anos depois: “infidelidade partidária”. Mas essa mesma direção em 1986 foi infiel à direção nacional, que determinou não-aliança com a chapa de Waldir Pires-Nilo Coelho ao governo da Bahia.

Para não falar de outros atos correlatos ao meu – agora mesmo, em Juazeiro, Lula faz campanha para candidato de partido adversário ao PT. E infidelidades maiores, à militância, a seus filiados e á sociedade brasileira o PT veio praticando ao longo dos últimos 20 anos, rasgando tudo aquilo que pregava o seu estatuto. Que o digam seus aliados Paulo Maluf, José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros… Heloísa Helena, Marina Silva, Bete Mendes… Que o diga o processo do mensalão agora sob julgamento no Supremo Tribunal Federal.

Infiel jamais fui à luta por uma sociedade que inclua os setores historicamente excluídos no Brasil, por razões étnico-raciais, dos espaços de poder e de influência política. Por isso a direção da USP, quando ali fui doutorando, também abriu anos depois um processo que poderia levar à minha expulsão. E o mesmo recentemente tentaram fazer dirigentes da faculdade da UFBA onde me tornei professor. Não me atemorizam tais ameaças nem as mentiras usadas pelos donos da máquina para as justificarem.

Nelson Pelegrino, do PT, não merece o voto consciente dos que sempre lutaram, sem tutela e sem troca de benefícios privados, por uma Salvador mais diversa e mais democrática.

O governo do Estado que faz vistas-grossas aos assassinatos perpetrados cotidianamente contra jovens e adolescentes de nossas comunidades, naturalizando o extermínio como coisa normal ou “briga de gangues”, não merece ser premiado com a prefeitura da capital mais negra, mais violenta e mais humilhada por tais estruturas de um partido que há muito se distanciou do que pregava.

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