Ivan, Nira e um dos herdeiros da família em foto recente de celular de Simão Carvalho, o primogênito

IVAN CARVALHO, filho do negro Arigof – este, amigo de molecagens nos anos 1940/50 do depois politicamente poderosíssimo coronel Antônio Carlos Magalhães, seu parceiro de farras, mulherios, jogos, boêmias e malandragens no cavernoso, fulgurante centro histórico de Salvador, incluindo prostíbulos da ladeira da Montanha, Campo da Pólvora e Mouraria, Ivan Carvalho tinha uma ideia fixa.

Negros não são o problema: “Somos a solução!” Por isso tem de disputar poder. Coisa que fez desde a abertura política, concorrendo sempre a cargos de deputado federal. Disputou o Senado da República e investiu em centenas de outras candidaturas negras por toda a Bahia e até noutros Estados.

O pessoal do movimento negro deste 2019, que se apresenta como fundador de uma “nova era” – tendo por trás apoios inimagináveis àquele tempo – não pode aquilatar o alcance do trabalho de Ivan para o orgulho negro da Bahia. Por isso mesmo, é pena, jamais sequer ouviu falar dele.

Ivan Carvalho, cujas ideias estavam à frente da maioria dos militantes quando começou a se reorganizar o movimento negro no Brasil, revolucionou o modo de fazer política identitária. Isso nos duros tempos de abertura política, quando o racismo ainda era tabu.

Por conta própria ele montou uma estrutura de bases empresariais, já que adepto da acumulação capitalista distributiva, a partir do esforço empreendido em sua competência técnica. De fazer inveja a todos os que, antes e agora, ficam passando o chapéu de pedinte junto ao Estado ou à plateia “crowdfundinger“.

Sitoc, sigla que deu ao empreendimento sediado no sólido complexo de salas em prédio erguido a partir de quase nada. De ruínas compradas da própria poupança, em encosta na Rua do Passo, 40. Próximo a Santo Antônio Além do Carmo e ladeira do Taboão. Seu abrigo. E abrigo de tantos quantos precisassem de um espaço para atividades políticas, educativas, culturais.

Ivan foi quem, isoladamente, atinou para o futuro.

Antes de toda a gente, acreditou e investiu na recuperação do degradado centro histórico de Salvador, na virada dos anos 70-80. Recuperação que década depois tornou-se bandeira do astuto ACM. Quando essa veio, o prédio da Sitoc já era um monumento à livre iniciativa de um homem negro capitalizado.

Sitoc que ele pluralisticamente cedia de graça a artistas, militantes, prostitutas, travestis, moradores de rua de Salvador e do amplo Recôncavo da Bahia. Aos quais acolhia com o seu sorriso que muitos confundiam por ingenuidade, tentando – como de fato aconteceu várias vezes – ludibriá-lo em sua crença na bondade alheia. Sofreu vários golpes dos “irmãos”.

Nira, sua esposa: dessas mulheres heroínas, segurou quase todas as loucuras do marido. Por quatro décadas de altos e baixos, o que coincide no período com os altos e baixos da sociedade brasileira.

Tiveram quatro filhos, todos agora bem formados e muito bem ,obrigado: Simão, Ticiano, Aisha. Júnior, hoje aos 21, estudante da UFBA, é o temporão.

Nira o concebeu como uma graça salvadora do pai, à beira da depressão profunda na pior etapa da vida econômica do casal. Determinações “de cima”, dos chefões da Receita Federal e do sistema de administração portuária, cortaram, de hora para outra, 90% da renda do então único provedor da casa.

Nira veio a seu socorro, com família à altura instalada em ampla e confortável casa no cobiçado bairro do Rio Vermelho, área próxima à residência do escritor Jorge Amado. Até então dona de casa de exigentes afazeres domésticos, a esposa se transmutou em seu muro de arrimo.

Montou uma boutique numa sala da Sitoc, colocou um tabuleiro e veio vender acarajé. Com ajuda dos filhos. Enquanto o marido virava noites, ele me contou, ganhando e perdendo dinheiro em apostas de carteado.

Mais ganhando, o que dava para tapar buraco de algumas despesas. Na época o que mais o atormentava era a mensalidade na escola de freiras privada dos filhos. Para mantê-los ali, por ser o ensino dos melhores, enfrentou cara a cara a cara feia de madres superioras do Isba, que ameaçavam barrar o acesso das crianças à sala de aula.

Se reinventou, submeteu-se e foi aprovado para cargo de inspetoria em concurso público no Ibametro – Instituto Baiano de Metrologia e Qualidade. O dinheiro não era lá essas coisas, pelo padrão do seu valor, e a rotina lhe era uma chateação.

O que o levou a desentendimentos terríveis com as chefias, resultando em processos judiciais para os quais buscou minha orientação e ajuda de João Fontoura Neto, meu advogado maior. Com quem também brigou, desconfiado da cor de sua pele.

Concomitantemente houve a revogação do decreto que lhe cortou a renda das atividades de metrificação das cargas portuárias, atividade autônoma credenciada e desejada.

Os bons tempos, pouco a pouco, retornaram de doze anos para cá. Mas sua saúde, sua hipertensão, seu coração sentiram o baque. Pagou com infartos. Ao se recuperar, tocou a vida como se nada tivesse ocorrido. Filhos encaminhados, Nira regressou aos estudos superiores.

A ideia fixa de Ivan Carvalho era a seguinte: nenhum homem branco é confiável.

Expressava seu raciocínio como uma metralhadora giratória, cuja linha lógica era difícil de acompanhar, pela tortuosidade dos argumentos. Misturava como um liquidificador ao mesmo tempo razão, sentimento, emoção. Mão aberta, mas desconfiadíssimo de tudo e todos. Tinha de preservar suas conquistas.

Engenheiro químico pela Universidade Federal da Bahia, também economista, formado antes pela Escola Técnica Federal, ele punha todos os brancos em suspeição somente por ser branco. Com exceção das centenas de seus amigos, incluindo um cunhado branco vizinho de porta, que tratava como mais um dos seus cinco ou seis irmãos e irmãs de sangue.

Por que tal contradição? É que o coração de Ivan Carvalho era o de uma criança. Amplo demais para restrições daquelas que ele, paradoxalmente a seu próprio estilo, falava ter – da boca pra fora.

A questão toda era política. Como não cansava de martelar à exaustão, até sua morte aos 68 anos no 23 de julho 2019, uma semana hoje, aos ouvidos de quem se batia com ele.

Questão central, a política estava diretamente conectada com a estrutura do racismo no Brasil. Cujo combate e superação Ivan fez sua causa de vida.

  • Ivan transpirava política. Respirava e inspirava política não apenas pelos pulmões, mergulhados desde a infância em tabaco e nicotina, herdeiro dos vícios do único herói que teve em vida – o seu pai Arigof, do qual falava com indubitável orgulho.

Arigof teria sido, numa Bahia em que à época era sempre lembrado pelas elites de mando que o negro deveria ficar “em seu lugar” – o esgoto social -, uma espécie de Spartacus a seu modo.

Ensinou aos filhos que jamais fossem submissos, nesse ambiente encharcado pela mentalidade escravocrata. Daí o gosto de Ivan pela livre iniciativa, pelo autodidatismo pregado e vivido pelo pai, que criou filhos e filhas se virando, com artimanhas. Todos, como Ivan, se formaram em curso superior e bem se colocaram no restrito mercado de trabalho formal de remuneração qualificada.

Em 1982 Ivan Carvalho entrou na vida deste escrevinhador, saindo da adolescência. Recém casado com Nira, ainda morava na casa da mãe. Uma calorosa senhora, que passaria como branca, em imóvel geminado, colado com outros, de dimensões que poderiam lembrar uma caixa de fósforo para tanta gente ali residindo.

Ficava na Rua do Curriachito, mais conhecida como Beco do Mijo. Uma estreita artéria que servia de sanitário público a céu aberto, ligando os fundos da Barroquinha à famosa Praça Castro Alves. Na qual, imponentes, entre outros estão hoje o Hotel Fasano e o Cine Glauber Rocha.

Ao lado de Maria do Amparo, depois mãe do meu primeiro filho, quantas vezes fomos recebidos naquela casa, seja para reuniões articulatórias, seja para o caruru de preceito ofertado pela matriarca?

Política para Ivan Carvalho era pele, estômago, garganta, íris.

A política o trouxe à favela do Calabar, comunidade popular de Salvador que dava seu grito emancipatório naquele ano, barrando as ameaças de expulsão por conta da especulação imobiliária mancomunada com os governos municipal e estadual, então totalmente controlados pelo carlismo.

Depois da família, ou a par disso, política era seu principal amor, paixão, utopias e prejuízos. Principalmente prejuízos. Financeiros, principalmente.

Como autodidata sempre ganhou muito dinheiro – bota muito dinheiro nisso! Fruto de seu diuturno trabalho de especialista em medição de cargas não sólidas descarregadas pelos inúmeros navios do mundo que transportam mercadorias para os portos de Salvador e de Aratu.

Ivan financiou, do próprio bolso, sem jamais cobrar pagamento de volta, muita gente e muitas causas.

Não existe um bloco afro famoso, como o Olodum, o Ilê Aiyê, o Filhos de Gandhy, o Muzenza; não existe agremiação, a exemplo da Cooperativa educacional Steve Biko; ou geração de talentos, como os do movimento Hip Hop; ou vocação eleitoral, algumas delas hoje com mandatos parlamentares, se negra, que não sejam devedores, em alguma ou mesmo em toda a medida, daquele sujeito.

Ivan Carvalho em manifestação quixotesca no 2 de Julho de 2014, data da Independência do Brasil na Bahia, ao lado de Maurício (um amigo), nas escadarias da igreja do Passo, cenário do filme O Pagador de Promessas

O que inclui os dois partidos aos quais se filiou a partir dos estertores da ditadura militar.

PDT, por sua admiração a Caó, autor da “Lei Caó”, que constitucionalmente tornou racismo crime inafiançável no Brasil, a Darcy Ribeiro, a Abdias do Nascimento. E a Leonel Brizola, mentor do partido depois do retorno do exílio proporcionado pela anistia.

O outro, PT, foi seu primeiro partido. Por brevíssimo tempo.

Este nominado Partido dos Trabalhadores, que nunca o convenceu de ser o que a sigla dizia ser, Ivan Carvalho usou como bengala às suas pretensões de disputa para a Câmara dos Deputados federais em 1982. Ano das primeiras eleições quase livres do regime militar – a primeira em que o PT, minúsculo e marginal aos padrões dos grandes partidos, participou.

Por tal nos conhecemos. Nunca mais nos distanciamos um do outro. Salvo em recentes anos, por mal entendido de todo contornável – que a mim me deixou fulo e a ele, talvez, também.

IVAN PROVOCOU um terremoto na sigla, ao não se submeter aos ditames da cúpula partidária, então sob mão de ferro da brancalhada burguesa de feições leninistas, trotskistas, maoistas, stalinistas.

Ainda que mortalmente adversárias entre si, todas essas correntes fizeram um pacto para desacreditar Ivan Carvalho, aquele neófito em política partidária, ao qual teria sido cedido um lugar na lista de candidatos.

Cartilha de orientação distribuída aos milhares por Ivan nas eleições de 2012

Se juntaram numa fileira de combate, desqualificação àquele candidato negro que ousava desafiar a linha programática do partido com uma ideia sintetizada por Ivan Carvalho num slogan: PreTos-82.

Durante os meses de campanha, a sigla PT foi levada em pichações nas ruas, muros e vielas dos subúrbios, das ilhas municipais mais remotas às áreas nobres da cidade. Com a mensagem adicional: não era o PT, mas os PreTos dentro do PT, e de outros partidos que se juntaram a Ivan, a mais valia da sigla.

Evidentemente que os caciques petistas, pequenos burgueses a exemplo de Jorge Almeida, alcunhado Macarrão, José Sérgio Gabrielli (depois presidente da Petrobras nos governos petistas), Edval Passos (depois superintendente do Sebrae nos governos petistas), exigiram em grandes assembleias que o PT exilasse Ivan Carvalho na Sibéria.

Ivan e aqueles que abraçaram a causa PreTos-82, como este escrevinhador, tornaram-se desde já suspeitos de “racismo ao contrário”: esse lugar comum dos que temem o desmascaramento de seus privilégios de raça.

Como não era escravo de ninguém, muito menos de partidos, Ivan tranquilamente mudou de sigla e foi para o PDT, no qual permaneceu até o fim. Este escrevinhador anos mais tarde, por razões complementares do mesmo diapasão, foi expulso.

Pelo PDT disputou a vaga para Senador da Bahia em 1994.

Talvez sua maior glória em campanhas eleitorais. Isso porque teve como adversário ninguém menos que o antigo conviva de seu pai, ninguém menos que Antônio Carlos Magalhães.

Que, em debate ao vivo de campanha na emissora da Rede Globo local, a TV Bahia, pertencente a ACM, este – na sua maneira sarcástica e irônica – em resposta a ataques de Ivan, reconhecendo-o, pediu: fosse menos agressivo. Fosse elegante como fora Arigof, “seu saudoso pai”.

Ruth de Souza, a primeira grande atriz negra do Brasil cujo teatro expelia o negro dos palcos, morreu aos 98. Foi vitoriosa, como Ivan.

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