VITIMOLOGIA, sistema de valores a que recorrem alas de movimentos sociais, se transformou em moeda de troca e chantagens de espertalhões, de espertalhonas.

Aos 25 anos Tabata Amaral, ex-favelada filha de empregada doméstica, eleita deputada federal por São Paulo, formada na conceituada universidade Harvard, enfrenta hoje a ira e a inveja de barrigudos como o “neoesquerdista” Ciro Gomes, coronel nordestino do seu partido, o PDT

Quem teve ou tem o prazer ou desprazer de minha convivência- meus filhos, companheiras, amigos e adversários – sabe que jamais apelei a tal expediente como justificativa para minhas incompetências.

Os que se “qualificam” como porta-vozes dessa ou daquela causa dita progressista abdicaram da arena nada agradável da disputa por um lugar ao sol independentemente de favores de terceiros.

No campo da Política, se apartaram da comunidade mais ampla, não se expondo ao crivo das urnas – preferem ser cabos eleitorais dos ungidos.

Fazem política de gabinete ou de redes sociais na Internet. Se auto-enganam, contando que o outro lado não revide na mesma moeda.

O ressentimento é sempre e continuará sendo uma fonte de desídia. Mobiliza forças e energias tão-somente negativas. Seu potencial é sempre destrutivo.

Veja-se o que acontece no Brasil de Jair Bolsonaro, legitimamente eleito – gostemos ou não – pelo voto popular para nos governar até 2022.

Em quase oito meses, não sai das manchetes se os editores sentem algo de bizarro, sensacional no que faz ou declara.

Contudo, se reserva mais de R$ 60 milhões para um único edital de bolsas (no país e no exterior) de pesquisas científicas do CNPq. – talvez na contramão do que propagandeia o antibolsonarismo militante -, esconde-se a notícia.

Por várias razões seu governo pode ser criticado por errático. Mas no que estabelece a Constituição, o presidente do Executivo por mais que queira não pode tudo. Precisa ter a aprovação da maioria do poder Legislativo (Câmara e Senado) e ainda ser avalizado pela Suprema Corte – o STF.

Seu governo tem provocado com vara curta o ideário da vítima enquanto uma categoria política superior.

A empresa norte-americana do bilionário fundador do eBay, aqui chamada The Intercept Brasil, contra-ataca.

Vaza troca de mensagens, ilegalmente obtidas em aplicativo de telefone celular, do juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, a operação que melhor desbaratou a máfia da estrutural corrupção no Estado brasileiro.

Pierre Omidyar, o bilionário do eBay por trás do site de notícias The Intercept

Todos os corruptos presos, diz a narrativa de The Intercept, são vítimas das artimanhas do juiz. As empreiteiras e ex-diretores da Petrobras, que confessaram seus crimes e devolveram somas milionárias desviadas para bancos no exterior, idem.

A principal vítima, como não poderia deixar de ser, é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tadinho…

Seus advogados aos borbotões, com recursos restritos a uma minoria de privilegiados, vão insistir na inocência do cliente. Amplos setores da mídia brasileira vão na mesma toada. Até setembro essa vítima deve ser libertada.

Porque Lula é nordestino, foi operário, sindicalista. É um dos nossos.

Glenn Greenwald é um dos nossos. Mesmo que antes disso seja no fundo um dos aliados de Donald Trump na Fox News, vaidoso anti-Democrata defensor de Vladmir Putin. Para a esquerda norte-americana, um traidor da busca da verdade no jornalismo.

Se no Brasil do discurso (não da realidade) brado ser homossexual, negro, mulher, pobre e nordestino seria uma pessoa portadora de direitos ontológicos. Inerentes à minha condição de raça, de classe, de gênero e de opção sexual.

Não importa se sou, no fundo, um canalha.

Um canalha nordestino. Um canalha negro. Uma mulher canalha. Uma feminista, um LGBTQS+, não binário, canalha. Sou um eleito, enquanto vítima.

Abdico das minhas responsabilidades como sujeito do meu próprio destino. Não tenho deveres, somente quero direitos. Para tanto, me queixo do sistema, do capitalismo, do governo Bolsonaro, do machismo. Falta me queixar da pasta de dentes.

Não que deva desconhecer esses cancros em meus queixumes. Entretanto devo ponderar sobre o real peso que possuem no destino que construo para mim mesmo – veja-se o exemplo da deputada Tabata Amaral.

Quero ser aceito em algum grupo (pode ser de WhatsApp). Recorro (e me escondo) a um “coletivo” qualquer, com o qual oportunisticamente me identifico.

Como Foucault, Stuart Hall e outros do mesmo naipe me ensinam que a identidade é líquida, posso “ressignificá-la”. De acordo com a ocasião, com meus interesses de militância e de ativismo.

É o que prega, usando chavões e cacoetes como “lugar de fala”, gente autodenominada feminista negra, tal Djamila Ribeiro. Atual camaradinha de estirpes como Lilia Moritz Schwarcz, privilegiada herdeira do grupo editorial Companhia das Letras. Que, da USP, nunca quis ao lado quem lhe fizesse sombra, sendo complacente apenas com coadjuvantes em busca de aceitação.

A prerrogativa é da existência de uma superioridade moral da vítima sobre o algoz ou suposto algoz. Este, identificado sempre como membro do “grupo opressor”: macho, patriarca, branco, heterossexual.

Se o tempo passar, eu envelhecer e nada der certo, vou me queixar ao Papa.

O discurso das “esquerdas”, no Brasil e no mundo, transforma a vítima em cognitivamente incapaz. A vítima é tutelada pelos iluminados.

Os iluminados, por óbvio, recorrem à alteridade ou à identidade do corpo.

A pátria é, assim, categoria discursiva identitária. É, como sabemos, o último refúgio dos canalhas, que aí recorrem em defesa de supostos brios ofendidos.

Caso do Nordeste brasileiro, região de piores índices sociais e humanos no contexto nacional. De manipulações narrativas de antigos e neo-oligarcas como José Sarney, Antonio Carlos Magalhães, Jader Barbalho, Fernando Collor de Mello, Ciro Gomes.

Fiel da balança eleitoral, desde a redemocratização em 1988.

Ambiente fértil para florescimento de salvadores, messsiânicos, demagogos da pior estirpe – e de todas as matizes partidárias, reacionários confessos ou ditos progressistas.

Redentores das vítimas, às quais não emancipam nem permite-lhes autonomia de curso.

Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves não tem merecido simpatia de feministas de esquerda – apesar de vítima de estupros quando criança. Em 17 de julho em evento nos Estados Unidos ela anunciou, mas o movimento negro não quis saber, medidas de “atenção especial” do governo Bolsonaro para proteção das religiões de matrizes africanas

Thomas Sowell garante em dados econômicos, matemáticos e sociais: a vitimologia tem provocado mais danos às famílias (negras ou pobres) que toda a miserável experiência da escravidão de africanos para as Américas.

A elite, protegida em sua condição de classe social elevada, agradece de barriga cheia. E emprego vitalício garantido.

Como existencialista nietzschiano, nascido e criado por uma mãe viúva com 7 filhos numa favela em constante luta pela sobrevivência, este último fato nunca me garantiu nada.

Escrevi, a propósito num poema quando ali morava, emulando a legião de “vítimas sociais” que deveriam ser o combustível da ruptura revolucionária:

  • Se um mendigo hoje me pedisse uma esmola, eu lhe daria um tiro!
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