Garotos moçambicanos na ex-aprazível Beira, recém-destruída depois do ciclone Idai. (Fotos: Danila de Jesus)

THE LOOTING MACHINE, livro de 2015 do jornalista britânico Tom Burgis, título traduzido em Portugal por A Pilhagem de África, explicaria os fundamentos do estrago agora feito pelo ciclone Idai.

Pela contagem da data deste artigo, já deixou 602 mortos e quase 1 milhão e 600 mil pessoas afetadas, feridas e desabrigadas em Moçambique, país da África austral, costa sudeste.

O subtítulo apresenta a obra: Warlords, Oligarchs, Corporations, Smugglers, and the Theft of Africa’s Wealth. Ou seja: Senhores da Guerra, Oligarcas, Multinacionais, Contrabandistas e o Roubo da Riqueza Africana.

O Brasil está implicado no crime de lesa humanidade, pelas mãos de multinacionais brasileiras.

Dentre outras a Vale. Aqui diretamente envolvida com rompimentos de barragens e suas nefastas consequências fatais para as populações e o meio ambiente.

Não é responsabilidade apenas das chamadas forças da Natureza a desgraça dos povos moçambicanos.

Como este ciclone que destruiu cidades e vilas inteiras da província Sofala. Cuja capital, a cidade de Beira, parece ter quase completamente sido varrida do mapa.

Ajudas humanitárias mobilizadas para socorrer emergencialmente as vítimas do ciclone servem como esmola, nessa hora crucial. Contudo não deixam de ser uma risível hipocrisia.

Passei em torno de duas semanas no país em agosto de 2012, em companhia da jornalista Danila de Jesus, vindos de Dar-Es-Salaam, Tanzania.

Meu interesse era percorrer o país por via terrestre a partir do norte até a capital, Maputo, situada ao sul. Seguindo depois para Johannesburg, na África do Sul, para regresso ao Brasil.

Empresário catalão, que mantinha ou mantém negócios em Moçambique, onde iria com frequência, com o qual antes jantamos em Lisboa, nos dissuadiu da ideia, apontando os riscos da aventura.

Risco maior nas províncias do centro, cuja população ainda neste momento está no fogo cruzado dos conflitos armados entre os exércitos do governo do partido Frelimo e guerrilheiros do dissidente partido Renamo.

Ainda assim, combinamos arriscar em busca do Moçambique profundo.

Embora entrássemos via aérea até Pemba, primeira escala próxima à fronteira com a Tanzania antes do desembarque em Nampula, a maior província da região, decidimos seguir de ônibus comum até Beira, localizada no centro de Moçambique.

Historicamente, por sua localização, Beira ocupava um papel estratégico e privilegiado entre os centros urbanos moçambicanos. Porto movimentadíssimo e infraestrutura advinda desde os tempos de colônia portuguesa.

É exatamente na região central que a Vale prospecta e produz minérios, retirando carvão do rico subsolo, escoados por portos como o de Beira.

Pescadores em praia de Beira, centro de Moçambique

Enormes deslocamentos forçados de populações autóctones, milenarmente instaladas ali, alimentam miséria, aprofundam desigualdades e dão combustão à guerra étnica, com base em interesses econômicos.

Quando na primeira década deste século 21 o Brasil foi alçado ao topo dos Brics – países emergentes, cuja sigla inclui Rússia, além de Índia e China -, a política de governos tais Lula e Dilma Rousseff foi a de aproximar “o Brasil” da “África”.

Na realidade, com dinheiro público de bancos como o BNDES, aproximar interesses de empresas definidas como “modelos” pelo governo lulopetista – Odebrecht, Vale, Petrobras etc. – aos interesses das elites africanas.

Grande parte, política e empresarialmente, corruptas. Como demonstra o livro de Burgis, baseado em trabalho de reportagens exaustivamente documentadas.

O autor é correspondente desde 2006, inclusive para a África, do jornal Financial Times.

Em 2012 quedamos em Nampula por cinco dias. Num deles, saímos numa van para a ilha de Moçambique, mais ao norte. Pernoitamos, por falta de transporte, percorrendo suas praias, mercados e forte militar.

A ilha foi onde, em 1498, o navegador português Vasco da Gama fez o primeiro contato oficial de um europeu com a população que daria mais tarde “origem” ao país.

Cujo nome deriva da denominação então dada ao local, por conta do sultão muçulmano de origem árabe-hindu que reinava ali: ilha de [pertencente a] Mussa bin Bique.

Dias depois pegamos num terminal de Nampula, sol ainda raiando, o ônibus rumo a Beira. Chegaríamos ao destino depois das 22h, viajando por estradas de barro e deterioradas.

Pela janela do coletivo documentávamos a multidão de gentes se deslocando a pé, crianças, por vezes com tralhas nas cabeças, de um lado para o outro – sabe-se lá rumo aonde. Expulsas de suas terras, talvez, em fuga.

Ficamos por três noites em Beira, com sua paisagem marítima então maravilhosa. Seu enorme mercado de pescadores e pescados, na beira das areias das praias.

No salão de café-da-manhã da pousada na qual nos hospedamos, uma senhora bem vestida, pele escura, penteado bem cuidado, falava do orgulho de ser “portuguesa”, apesar de nascida em Moçambique.

Referia-se à capital Maputo pelo antigo nome da era colonial (até 1976): Lourenço Marques.

Um hóspede que de nós se aproximou dizendo-se ser natural do Zimbabwe, país fronteiriço, cultivou-nos a rápida amizade. Deu-nos seu cartão, também de homem de negócios.

Nos levaria a bairros de comércio muçulmano de Beira.

Para experimentarmos, num jantar, uma especialidade local: frango no piripiri (pimenta forte), acompanhado por chá. Ele fez questão de pagar a conta sozinho.

Por fadiga e não querendo repetir a mesma experiência de dias atrás, deixamos a aprazível Beira rumo a Maputo.

Em voo da companhia aérea moçambicana, numa aeronave vendida pela brasileira Embraer.



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