Obra de Adriana Varejão da mostra censurada pelo Banco Santander. Observe no detalhe em primeiro plano como o Brasil nos queer

DUAS CONTROVÉRSIAS pseudoartísticas galvanizam debates no chamado campo da cultura essas semanas no Brasil. Uma nacional, outra local. Pseudo porque artificiosas, merecem comentários.

  • Uma gente miúda, incluindo colegas da faculdade onde sou docente, miúda porém esperta, veio a público nos recentes dias vituperar contra a exoneração e em defesa da diretora geral da Fundação Cultural do Estado da Bahia: autarquia governamental que gere a maior parte do setor em todo o território baiano.

Miúda intelectualmente, de moralidade arcaica. Bastante esperta na conservação de seus interesses privados.

Em variados meios de comunicação social foram definidos como “classe artística” os insatisfeitos com o chute que Rui Costa, governador do PT, deu na ex-diretora da Funceb indicada em 2015 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) da senadora Lídice da Mata.

Curiosa sintonia de fatos e de reações paroquianas: a exoneração aqui de Fernanda Tourinho, a interdição no Rio Grande do Sul de uma exposição de artes plásticas.

  • A suposta “classe artística” também nesses dias vem metendo o sarrafo no setor de cultura do Banco Santander. Que, diferentemente das Secretarias de Culturas governamentais e seus penduricalhos, é empreendimento privado.

O Santander, de forma burra, decidiu suspender intempestivamente uma mostra de artistas, intitulada Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira.

Importante instituição financeira global, cujo lucro inédito de R$ 1,879 bilhão  apurado apenas no primeiro trimestre deste 2017 no Brasil, fez crescer em 14% seu ganho total, o Santander, evidentemente, como banco, não faz filantropia.

Mas bancou a mostra artística numa galeria de Porto Alegre (RS), cancelando abruptamente o apoio depois de pressões. Advindas essas de grupos de mentalidade retrógrada da sociedade civil, que exigiram a censura de obras “ofensivas” ao cristianismo e à moral sexual padrão.

A “classe artística” aceitou a primeira parte da sentença acima, antes da vírgula. Chiou, entretanto, com o seu complemento. Hipócrita é tão-só o banco, que dá (eufemismo) ou tira seu suado dinheirinho a quem e quando quiser? Onde está a inteireza dos outros dois atores desse processo?

Uma das artistas censuradas, Adriana Varejão, teve sua obra Cenas de interior II, como um dos alvos principais da hipocrisia dos moralistas. Retrata um mosaico, segundo ela, de práticas sexuais, buscando “jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas”, segundo disse a um jornal gaúcho.

Entre as coisas que mais se comentou no referido quadro é a imagem de zoofilia: dois sujeitos submetem uma cabra. Comentou-se menos uma imagem em maior destaque: dois homens brancos ao mesmo tempo traçando um homem negro.

O negro aparece submisso com uma pica branca enfiada no rabo e uma pica branca enfiada na boca.

Senti-me representado. Não deve ser com outra imagem que sonham as boas almas que mandam em instituições brasileiras, como as do ambiente acadêmico em que atuo. O negro, a exemplo desse escrevinhador, objeto de felação e de sodomia do homem branco sempre no comando.

Metáfora perfeita da situação do negro e da negra, ao que parece pouco percebida na controvérsia. Mesmo pela autora da obra. Resta a dúvida se ela quer denunciar ou naturalizar, enquanto banal, a coisa que narra.

Renata Dias Oliveira, primeira negra à frente do mais importante organismo de gestão cultural da Bahia negra, por decisão do governador petista que a nomeou a contragosto do PSB [foto: Ludmila Cunha, do site Flor de Dendê]

É dentro desse quadro narrativo mais amplo que se insere a repercussão dada à exoneração, “sem explicação pública”, como os áulicos difundiram, da gerente da Funceb.

  • COMPETÊNCIA DA PANELINHA

Stricto sensu, a leitura atenta dos textos laudatórios e queixumes estranham não necessariamente a demissão de Fernanda Tourinho. Leia. O que os movem é a grosseria, a desconsideração com outrem.

A casta, não “classe” – conceito sociológico, econômico, do campo político-ideológico -, a casta “artística” na Bahia não ousa abertamente dizer o que a incomoda: a nomeação de Renata Dias Oliveira, uma outsider, para substituir alguém de sua entourage, de quem – e aqui não há nada de errado – frequenta há anos a cozinha.

Alguém da casa grande foi deposta para se por no lugar uma mulher forjada na luta a partir de uma origem que remete à senzala.

A auto-identificação da casta “artística” com sua queridinha anterior e o repúdio ao anverso que representa a nomeação de Renata Dias pelo governador eleito com o voto de ambas – o meu que não! – tem nome: afinidade eletiva. De base racial.

No gosto, na estética, na lógica discursiva que marcou a passagem de Fernanda Tourinho nos dois anos e meio de Funceb, os porta-vozes da casta eleita para comandar a Cultura governamental de repente lembram de palavras que pouco compreendem.

DIZEM QUE falam pelo povo, em nome da “democracia”, da “transparência”. Quem fala? Vejamos os quais conheço pela proximidade, já que dividem comigo o espaço na faculdade onde dou aulas. Onde são coniventes, até pela mudez oportunista, com práticas que cá fora, para o público externo, bradam de combatentes heroicos.

Uma escreveu no seu facebook: (…)”Desejo sorte e sucesso a ambas, tanto a Fernanda [alguém vai encontrar uma função à altura da capacidade técnica dela, não vai?], quanto a Renata, mas transparência sempre é saudável e, até onde sei e percebo, a classe artística baiana sempre apoiou e continua firme apoiando Fernanda”.

Quem diz isso faz jogo duplo, atuando diante de incautos estudantes em sala de aula, ou em coluna de jornal da família de Antônio Carlos Magalhães, tal paladina da ética, mesmo a comportamental.

Encontra ainda tempo – a Universidade é apenas seu trampolim – para dividir numa emissora de rádio a bancada com seu terceiro patrão. Um ex-prefeito de Salvador, denunciado pela Procuradoria Geral do Município por enriquecimento ilícito pelo desvio de 200 milhões de dólares dos cofres públicos.

Assim, é risível tudo o que ela fala. Para não dizer ser o que aqui se escreve uma descortesia ou inconfidência, faz tempo perguntei diretamente por e-mail a essa senhora se não considerava um constrangimento o duplo papel de docente de Comunicação numa universidade pública e prestadora de serviço em emissora de um sujeito com tal ficha corrida. Sem resposta até agora.

Por que Fernanda Tourinho insistiu para não largar o osso descarnado que é a Funceb, como ela e os seus dizem?

Em sua defesa de Tourinho, a colega atrela esta ao qualificativo “capacidade técnica”. Finge dar o mesmo peso ao desejar “sorte e sucesso a ambas”. Aproveita para pateticamente pedir um novo emprego para a exonerada.

Por fim, tenta disfarçar seu desprezo, má-vontade e grosseria, nomeia “a Renata”. Tudo diz o suficiente de um caráter vácuo.

Essa patética persona estava no ar dividindo o horário de meio-dia na rádio com o rapace, denunciado também na Operação Lava Jato por receber quase R$ 2 milhões desviados de propina na campanha eleitoral em 2012.

Era a manhã da prisão de Geddel Vieira Lima (PMDB), dono de R$ 51 milhões em dinheiro vivo de origem criminosa encontrado pela Polícia Federal em um apartamento em Salvador.

Com falas diversionistas, a centuriã da moral pública consentia e concordava com o patrão desonesto.

Este, o tempo todo defendia o mal feitor, alegando fidelidade ao amigo. Farinha do mesmo saco, bradava ao microfone solidariedade até ao ex-ministro de Michel Temer e de Lula, ex-vice-presidente de uma diretoria do banco estatal Caixa Econômica Federal no governo Dilma Rousseff, acusado de “operador” do esquema de corrupção instalado no Palácio do Planalto, sede da Presidência da República. A professora da Facom, psiu!

ARROGÂNCIA E PREPOTÊNCIA

O outro hoje professor, o qual um dia tentou empurrar pela “janela” um pupilo para ocupar vaga de aluno dessa faculdade – processo depois relatado em reunião do Conselho Universitário da UFBA, que obstruiu seu intento -, foi mais eugênico na defesa de Fernanda Tourinho.

Elogia a amiga como “estóica”, “leal” e milagreira. Quanto a Renata Dias, escreve o seguinte no seu facebook: “Não sei quem é sua substituta. Não me interessa saber. Só sei que já nasce destinada a ser coveira de um defunto vítima do descaso e da ignorância dos governantes e políticos”, blablablá…

Se meu colega faconiana não sabe e a si não interessa saber quem é Renata Dias Oliveira, permaneça no alto de sua ignorância.

Esse sujeito acaba de aceitar a tarefa de presidir a consulta eleitoral que os mandarins da Facom de tudo fizeram para melar, tentando impedir que este escrevinhador pudesse concorrer à vaga de diretor. Retornarei ao assunto em breve.

Aos menos arrogantes, testemunho a competência profissional de Renata Dias, desde que frequentou um curso de extensão em Comunicação Política e Políticas da Comunicação que ministrei no Centro de Estudos Afro-Orientais/UFBA em 2009, quando ela compunha a equipe de comunicação da Petrobras.

Novamente fui seu professor neste semestre findo, dessa vez como aluna especial no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade/UFBA.

Rosemberg Pinto, deputado estadual do PT: o político por trás da indicação de Renata, sua ex-assistente na gerência de Comunicação institucional da Petrobras no Nordeste

PATENTE É QUE essa casta “artística” fala em nome de um projeto de poder que nada tem a ver com a transparência e com o bem público. Faz biquinho não porque está afastada em definitivo das benesses governamentais que privatizam como coisa exclusiva sua.

Fernanda Tourinho de forma alguma foi exonerada “sem explicação” como se quis fazer parecer. Falácia, balela.

O cargo de diretor da Funceb é um desses loteados pelos partidos políticos que formam a base do governo. Não de hoje os donos do PSB na Bahia, Lídice da Mata e Domingos Leonelli, discursam – no que parece uma barganha retórica – na direção de o partido ter autonomia e independência ante Rui Costa, o dono da caneta de nomeações, exonerações e do Diário Oficial.

Cartaz da mostra cancelada em Porto Alegre

Desde fevereiro, este escrevinhador apurou, Tourinho foi avisada de que o PT queria a Funceb para si. Tourinho mobilizou céus, terras e energias, além dos caciques do PSB, para se manter no cargo como um cão se agarra ao osso. Nenhum desprendimento.

Todos os que acompanham sabem das críticas expressas neste blog ao governo petista, incluso sua gestão cultural na Bahia – dirigista e clientelista.

Renata Dias Oliveira assume enquadrada, como sua contraparte anterior, a essência desse projeto.

Fernanda Tourinho, pelas declarações de apreço da casta “artística”, não ficará ao desamparo. Arranjarão, como sempre ocorre com gente do mesmo naipe, um bom lugar para viver o resto de seus dias.

Os 17 anos anteriores dela como gestora do teatro de um grupo empresarial privado, o Teatro Jorge Amado, é para si página virada. Para ali não retornará. Sua saída depois de tanto tempo no comando coincidiu, aliás, com a própria falência e ameaça de fechamento desse teatro, que nos últimos tempos busca-se recuperar.

 

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