Guernica de Pablo Picasso

PENSO QUE MR. Lula da Silva, como lhe chama o The New York Times, tem, até este 10 de maio de 2017, todo o direito estratégico e tático de se apresentar como um inocente candidato às eleições para a Presidência da República em 2018.

A Constituição do país lhe assegura. Ele é réu em ao menos seis processos, com acusações que vão de obstrução à justiça, ocultação de propriedade, corrupção passiva, enriquecimento ilícito.

No Estado Democrático de Direito previsto na norma constitucional, ser acusado ou mesmo réu não significa ter culpa. Vamos ver como a Justiça, que começa a ouvir sua defesa, por um primeiro processo, a partir deste 10 de maio, acatará seus argumentos.

Lula apresenta falácias lógicas em sua defesa. Diz nunca ter pedido dinheiro a ninguém nem por ninguém.

Diz nunca ter sabido de nada do que garantem os que colaboram com as investigações e o apontam como beneficiário.

Diz ser perseguido por “Eles”, os que são “contra o povo”. Povo do qual Lula, somente Lula, é o defensor na instauração de um reino de igualdade onde jorre leite e pão das rochas para todos. Sem esforço, sem suor, com bolsas famílias…

Quem ou o que são “Eles” exatamente? Espertamente Lula não nomeia. Deixa tudo difuso, enigmático, misterioso como convém a uma retórica argumentativa velha conhecida.

Tipo as tais “forças ocultas” invocadas em outros momentos por outros líderes populistas no Brasil, na América Latina e demais regiões desgraçadamente empobrecidas do planeta.

Seriam os grandes empresários, banqueiros e empreiteiros com os quais coloquiava nos palácios? Seriam o PMDB, o PP e outros partidos com os quais se aliançou para chegar ao poder central em 2002 e governar?

“Eles” seriam seus críticos, intelectuais e acadêmicos que não se deixaram seduzir pelo charme e pela oratória de “autêntico” bóia-fria do ex-metalúrgico?

Seriam “Eles” os coronéis, Sarney, Renan Calheiros, o falecido Antônio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, os donos do banco BMG, do Santander, do Real, os interesses capitalistas internacionais que Lula e seu governo defenderam?

Emílio Odebrecht e Léo Pinheiro, donos das duas mais importantes empreiteiras com contratos bilionários na era petista, confessam que o tinham como amigão do peito, espécie rara de autêntico líder populista de estimação.

Tudo isso deu a Lula orgulho, projeção, amantes tais Rose Noronha, aplausos como assegurador da estabilidade dos contratos financeiros e cumpridor religioso no pagamento de dívidas externas.

Não à-toa Barack Obama declarou ser Lula “o cara”.

Em forma de chiste, que seus propagandistas e marqueteiros usaram a sério como peça de campanha.

“Eles” sempre foram contra isso e querem impedir que o povo coma, tenha escola, tenha aposentadoria, tenha salário, tenha saúde e segurança. Por isso “Eles” não querem a verdade, a verdade que apenas e unicamente Lula encarna. Anuncia, assim, o retorno de Dom Sebastião para outubro de 2018.

Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, começa a ouvir a defesa de Lula pelo próprio neste 10 de maio

TODOS SABEMOS: Lula, do Partido dos Trabalhadores, perdeu três das cinco disputas para o cargo. Foi sucessivamente derrotado duas vezes por Fernando Henrique Cardoso (FHC) do Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB. Perdeu para Collor de Mello. Fez feio quando disputou o governo do Estado de São Paulo e foi uma nulidade quando eleito deputado federal.

Ocorre que os números das sondagens de opinião pública o apontam como líder até agora incontestável na corrida eleitoral do ano que vem.

Uma ressalva: raramente os números dessas sondagens têm sido confirmados nos números resultantes da contagem dos votos nas urnas – basta estudar o tema. Ou seja: Ibope, Datafolha e VoxPopuli, para citar três institutos que medem opinião pública, nada garantem.

Lula aparece como o nome mais lembrado. Mesmo, ou apesar de, desde 2005, com o “Mensalão” (Ação Penal 470 do STF), e com deflagração da Operação Lava Jato em 2014, vir ele sendo apontado pelo Ministério Público Federal como chefe da quadrilha. Por isso é também campeão de rejeição nas mesmas sondagens.

Lula, “Nosso Guia”

No poder, teria sistematizado um esquema que já encontrou montado: o da corrupção. Consigo a prática, já antiga na história – não somente do Brasil, ressalte-se – foi elevada a níveis de sofisticação jamais registrados.

Quanto a isso eleitores e aderentes do PT estão nem aí. Estão se lixando! A corrupção, nesse caso, foi uma Santa Corrupção, em nome de uma causa.

A causa dos pobres. Miseráveis. Pretos. Dos desdentados. Das feministas. Dos sem-terra, dos índios, dos gays e dos desafortunados pela beleza plástica.

Com a cumplicidade de capitalistas sagazes, a exemplo de Eike Batista, de banqueiros e de grandes empreiteiros, como Emílio Odebrecht e Léo Pinheiro, alçados a seus amigos privados, a estrela de Lula reluziu nos recentes 30 dos nossos 517 anos.

A corrupção tornou-se política de Estado dos governos petistas, até o impeachment de Dilma Rousseff em maio de 2016. Isso não é pouca coisa.

Não se trata, a corrupção, tão somente no desvio de dinheiro público para pagamento de propinas e enriquecimento de empresários e agentes públicos. Lula pode não ter embolsado um centavo.

Mas se ameaçou, em algum momento, regras e normas previstas na Constituição – inclusive na autonomia e independência dos três poderes que compõem o Estado -, seus eleitores é que se lixem. Ele não está acima da lei. Deve ser investigado, processado.

Julgado, encontrada a culpa depois de sua ampla defesa, deve ser condenado. Se confirmada a sua condenação estará impedido, como quaisquer outros, de ser candidato às eleições.

Ainda assim, defendo que o STF (Supremo Tribunal Federal) lhe conceda um habeas corpus para que dispute em 2018. Aliançado, outra vez, com “Eles”: a mesma corja do seu naipe, que fez com que Lula chegasse ao poder em 2002 e governasse até 2016.

Ou Lula e o PT, fragorosamente derrotados nas eleições municipais no ano passado, consideram-se auto-suficientes para vencer desprezando o apoio de todos “Eles”, seus fiadores e financistas?

Sabe que não, e aí está mais uma vez comprovada a sua genialidade e esperteza malévolas. Lula saberá persuadir seu eleitorado e os fiéis de sua seita a entender o sacrifício de juntar-se a Herodes para alçar novamente o paraíso.

A liderança de Lula nas intenções de voto mantém-se no patamar eleitoral em torno de 25% de votos historicamente assegurados ao PT.

Para ampliar o índice e ganhar, como já lá atrás anteviu José Dirceu, arquiteto da vitória petista, impõe-se a imperiosa necessidade de alianças heterodoxas com amplos setores do mercado e das “elites” estamentais, conservadoras.

Novamente o partido político mais capilar do país, o PMDB, com ou sem este nome, e siglas sucedâneas, devem ocupar uma posição de destaque e de influência em 2018. Ou é isso ou é outra aventura tal o desastre Collor de Mello. Pior – a de um doidivanas como Jair Bolsonaro.

Amigos me perguntam: há alternativas? Respondo: não tenho bola de cristal. Se não surgir e Lula novamente for eleito presidente, ôba! O universo continuará se expandindo nos próximos milênios.

 

 

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