O crítico e ensaísta renomado Antonio Candido: entrevista a este escrevinhador gerou embate travado na Folha de S. Paulo

MORTO AS 98 neste 12 de maio, o autor de sólida obra de crítica literária Antonio Candido, considerado um dos mais importantes intérpretes do Brasil, foi envolvido numa polêmica depois de conceder uma entrevista a este escrevinhador, à época repórter do Jornal da USP, em São Paulo.

O contendor foi ninguém menos que seu colega, assim como ele professor emérito da Universidade de São Paulo, Miguel Reale (1910-2006), jurisconsulto respeitado do seu tempo. Que na edição de 16/12/1991 da seção Tendências/Debates, do jornal Folha de S. Paulo, em artigo intitulado “Descaminhos da esquerda”, escreveu a propósito:

– No Brasil, essa bandeira [a da luta armada] foi recentemente levantada por Antonio Candido, ilustre intelectual de formação aparentemente moderada, conforme entrevista concedida ao ‘Jornal da USP’ de 18 a 24 de novembro último, onde se declara que os ideais socialistas somente podem ser alcançados com luta. “Se for preciso a revolução”, declara ele, “faz-se a revolução; se for preciso a luta armada, faz-se a luta armada. Os sociais-democratas não admitem isso”.

Como repórter, eu havia entrevistado Antonio Candido durante uma tarde, na casa dele, para uma matéria especial tendo por tema a visão de intelectuais de esquerda sobre o fim do socialismo real com o desmantelamento recente da União Soviética.

Candido era apenas uma das fontes. Entrevistei mais de meia-dúzia de outros intelectuais, a exemplo de Fernando Henrique Cardoso (então senador da República), Roberto Romano, da Unicamp, Leôncio Martins Rodrigues, Marilena Chauí e mais.

A matéria foi capa do Jornal da USP e ocupou seis ou sete páginas quando publicada. Miguel Reale, que por não ser de esquerda estava fora da minha agenda de entrevistados, reagiu dias depois através da Folha.

  • Antonio Candido replicou, em 22/12/91, com um artigo intitulado “Sobre a violência”, no qual diz:

– Destacando um trecho e separando-o do resto [da entrevista que dei ao ‘Jornal da USP‘], o eminente professor Miguel Reale afirma que eu levanto a bandeira da violência e da luta armada, o que é exagerado e incorreto. Levantar a bandeira significa, se não me engano, proclamar e preconizar com entusiasmo uma idéia ou um tipo de conduta. Não é o caso da minha entrevista, cuja tônica é outra.

– O que pretendi dizer foi que, para mim, o socialismo não acabou e continua válido como solução possível para os graves problemas gerados  pela desigualdade econômica e social, e portanto para promover a humanização do homem. (…)

– O social-democrata rejeita a violência mais acentuada, enquanto no meu modo de ver o socialista democrático pode aceitá-la, se for necessário para atingir as metas ideais. Não porque goste dela, mas porque ela é um tipo de comportamento que pode ocorrer eventualmente na vida política. A violência não é essencial, ela é uma possibilidade constante e uma necessidade eventual.

Miguel Reale, da Academia Brasileira de Letras, atacou o oponente como autor de “aleivosias”, irritando o adversário

  • Em tréplica de 30/12/91, sob o título “Democracia e violência”, escreve Miguel Reale:

– (…) afirma Antonio Candido que eu teria feito “um comentário bastante parcial” à entrevista por ele dada ao ‘Jornal da USP‘. (…) Repilo firmemente essa aleivosia. (…)

– Antonio Candido proclama “nunca ter preconizado a violência”, em quase meio século de participação no movimento socialista – o que conflita com sua tese sobre “violência eventual”. A seu ver, o emprego da força tem sido usado em política, “na maioria das vezes pela direita e o centro, como foi o caso do golpe militar de 1964, quando impecáveis liberais, amantes da pureza democrática, cultores da lei o estimularam e a ele aderiram com entusiasmo”.

– Em primeiro lugar, observo que, se esse cálculo fosse verdadeiro, como “maioria absoluta” significa metade mais um, haveria praticamente equivalência no uso da violência… O certo é que meu ilustre opositor aproveita a deixa para lembrar que eu não posso estranhar o uso da violência porquanto, como membro do governo do Estado, eu teria participado do movimento de 1964. Não o nego e disso me orgulho, porquanto ele foi desencadeado em legítima defesa, para impedir a escalada comunista no organismo do Estado, como se tornou definitivamente transparente após o histórico artigo de Luís Carlos Prestes na Folha de S. Paulo (…).

  • Depois disso, Antonio Candido publica um artigo final, a 7 de janeiro de 1992, na mesma seção Tendências/Debates da Folha, demonstrando indignação. Justifica o título dado ao artigo, “Ao leitor”:

– É de fato aos leitores que me dirijo, não ao professor Miguel Reale, pois a partir do momento em que ele me atribui a prática de uma aleivosia, dei por encerrada qualquer possibilidade de diálogo entre nós.

  • No parágrafo de abertura do texto, Antonio Candido escreve que no artigo “Sobre a violência” teria explicado a sua posição “em face de um comentário do professor Miguel Reale a certa entrevista que dei ao ‘Jornal da USP'”.

– Em “Sobre a violência” abordei  essencialmente dois pontos, o primeiro dos quais foi o tratamento que o professor Miguel Reale deu à minha entrevista. (…) O segundo tópico (…) foi o esclarecimento do que penso sobre a violência política. (…) Quando a esquerda a emprega, ela é vista como crime, mas se torna curiosamente redentora quando o centro ou a direita o fazem. Como exemplo citei o golpe militar de 1964 e a participação nele do professor Miguel Reale. Ora, no seu segundo artigo este confirmou o que eu disse, ao explicar que, em face do que lhe parecia naquele momento a ameaça comunista, optou pela violência armada e disso se orgulha. Eu não poderia querer melhor demonstração do meu ponto de vista. (…)

Este escrevinhador acompanhou a polêmica sem torcer para nenhum dos lados.

 

Anúncios