NIETZSCHIANO bissexto, não acredito em verdades absolutas. A não ser a da morte certa. Cedo ou tarde.

A música que embala o vídeo abaixo, de Belchior, sintetiza um estado de alma:

Os bons, ora os bons... – reflete Nietzsche. Os bons – grandes responsáveis pelas mais graves atrocidades, tiranias, banhos de sangue, opressões.

Por na pré-adolescência já ter presenciado o linchamento de um homem – e ter interferido, arriscando a pele – o que mais temo é a “sapiência” de iletrados e ignorantes. Sua arrogância, suas certezas, sua retidão “moral”.

Bondade, gente correta e paladina da virtude: tudo cretinice.

Se a bondade contiver algum grau de autocomiseração ou de interesse próprio, estou de acordo.

Aprendi com Shakespeare e Maquiavel: não há santos na terra. Exceto os de pau ôco.

O resto é papo estéril de acadêmicos e histéricos. De demagogos de direita e esquerda, de populistas latinoamericanos  bem-sucedidos como Luiz Inácio Lula da Silva.

De Siddhartha Gautama ouvi da necessidade de aprender sobre o desapego. A vida é fugidia. Os antigos gregos eram sábios. Poucos adereços sobre o corpo, suas casas despidas de pompas.

Siddartta Gautama

Apego: grande causa do sofrimento humano. Ou dos cachorros, esse animal de fidelidade canina ao dono. Não importa que o trate aos pontapés.

Desapegar das coisas. Das pessoas. De si mesmo. É preciso alto grau de conhecimento da humanidade do outro para assim proceder. Dói. Corrói.

Nada é meu. Nem eu mesmo sou, tampouco a vida minha ou de outrem. Ao mesmo tempo, a cada um pertence o si de si mesmo. É furto querer o do outro.

Vossos filhos não são vossos filhos, soprou o Profeta a Gibran Khalil Gibran: “São os filhos e as filhas da ânsia da vida por ela própria. Vêm através de vós mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.”

Citei Belchior para que? Essa geração de mimados, as gentes “do bem” de hoje em dia já ouviu falar de Belchior? De suas poesia, sonoridade e ruptura com a mesmice? “Era uma vez um homem e o seu tempo”. (ouça esta!)

Estou com Charles Cosac: cada um procura um inferno para continuar se sentindo vivo. Sem ter o seu inferno, como dar sentido aos dias?

Belchior

O dono do restaurante “Líder”, no centro de Salvador, enquanto sorvo mais um copo de cerveja, quer saber de mim, justo de mim.

No aparelho de som ambiente alguém canta “Pra que chorar” (Mart´nália, filha de Martinho da Vila, gravou uma versão supimpa). Repasso a explicação de Vinícius de Moraes para o samba em parceria com Baden Powell. Não é o que se pensa de início.

O dono do bar pergunta se faz algum sentido ser um sujeito legal, pagar as contas, administrar empregados, fornecedores e taxas.

Repetir, enfim, um cotidiano de mediocridades, ao lado de medíocres (como esse freguês), enquanto há tanta coisa lá fora a se vislumbrar no mundo.

Respondo: Belchior picou a mula! Você poderia optar por um recanto qualquer. Mas quis o seu próprio inferno.

Para que os próximos no seu caixão aplaudam seu corpo de bom moço, bom pai, bom marido, bom camarada.

Aquele que nunca cagou fora do penico, nunca desonrou os seus, sempre pagou em dia o carnê de cobrança e o empréstimo.

Não conhece Fernando Pessoa no Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos. Leia clicando aqui.

Fernando, quem?!

É simpatizante e engajado nas causas dos negros, dos indígenas, das feministas, LGBTQ e do mico-leão dourado de papo azul.

Não perde a ocasião, mesmo a mais idiota,  de bradar seu “Fora Temer!”. Lindinho.

Tem de aderir à nova moda, a vitimologia, que adquiriu status político. Ser anti-Donald Trump e sua família privilegiada, para além da inveja e ressentimento com a beleza de uma Ivana e o êxito dos outros, transformou-se em causa ideológica.

Nunca fez nada que o desabonasse e o levasse às manchetes da pérfida e sádica programação dos jornais sensacionalistas com assuntos policialescos da TV.

Cada um com o seu próprio inferno.

 

 

 

 

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