HÁ UM ERRO de concordância nesta oração: “A maior parte deste dinheiro [(16 milhões de dólares) que trouxemos de Angola para o Brasil] continua depositado e aplicado em nossas contas.” O sujeito ativo da frase é “a maior parte”, portanto os verbos da ação deveriam acompanhar o gênero do sujeito, que é feminino.Angola setor bancário

Há um erro analítico nesta afirmação: “Angola não tem uma longa tradição bancária, de forma que os investimentos que oferecem não são tão vantajosos.” Não  é de agora que George Soros, o maior especulador do planeta – para não falar dos chineses – pensa diferente do gênio da “pátria educadora”.

Os riscos do sistema bancário angolano não são mais catastróficos que os da Argentina, El Salvador e mesmo República Dominicana, países, além do Brasil, nos quais João Santana mantém subsidiárias de suas empresas.Argentina setor bancário

Indica levantamento de dados feito por este escrevinhador junto à  Unidade de Inteligência do grupo The Economist e à KPMG, duas referências mundiais de análise e auditagem macro-econômica. Veja e compare aqui.Republica Dominicana setor bancário

Relatório da KPMG sobre o setor bancário de Angola, sem desconsiderar os riscos inerentes à atividade em um país cujas práticas corruptas são institucionalmente toleradas até agora, desmente Santana. Pode ser lido aqui. Uma das suas conclusões:

“Destaque também para a “vaga” regulamentar que continua a ser absorvida e implementada pelos vários intervenientes no Sector, o que demonstra o seu compromisso para com as boas práticas internacionais e uma vontade expressa em melhorar não só os níveis de cumprimento, como os próprios níveis de comparabilidade com outras Instituições internacionais.”

Os erros de concordância, transcritos na reportagem e no documento oficial do dono dos dólares, e de avaliação de riscos são de autoria de João Santana, o marqueteiro político responsável pela propaganda do Partido dos Trabalhadores (PT).El Salvador setor bancário

“Patinhas”, nickname como a ele se referiam os colegas de redação nos jornais em Salvador na década 80-90, tem relação com a personagem de Walt Disney cuja fidelidade única é ganhar dinheiro.

Nosso “Patinhas” agora vê-se às voltas com investigação da Polícia Federal (PF) na Operação Lava Jato, que já colocou na cadeia executivos e donos das maiores empreiteiras do Brasil.

Além de João Vaccari, tesoureiro nacional do PT, e ex-diretores da maior estatal brasileira, a Petrobras – que tem perdido valor de mercado desde que foi aparelhada pelo governo petista. Delúbio Soares pegou cana antes, no Mensalão.Venezuela setor bancário

Os investigadores desconfiam, de acordo com reportagem de capa da Folha de S. Paulo (3/05/15), que Santana recebeu os milhões de dólares das empreiteiras brasileiras que atuam em Angola. Como pagamento, autorizado pelo PT, de dívidas da campanha do prefeito eleito em São Paulo, Fernando Haddad, que chamado à PF, já prestou depoimento fora do expediente semana passada.

Patinhas assumiu a propaganda de Lula, reelegendo-o em 2006, e de Dilma Rousseff – eleita em 2010 e de novo em 2014 – depois de seu ex-patrão e à época festejado guru do marketing político, Duda Mendonça, depor à Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios (ante-sala da Ação Penal 470, o Mensalão), surpreendendo e embasbacando a todos. Veja aqui os vídeos.

Quer dizer então que o esquema de perpetuação no poder petista – corrompendo as instituições – envolveu as agências de propaganda de Marcos Valério, cumprindo mais de 30 anos de cadeia, as de Duda Mendonça, liberado por ter colaborado e devolvido, sob multa, aos cofres públicos o dinheiro irregular, mas não as de Patinhas.

É o que se conclui da leitura do seu aparato de defesa publicizado no momento mesmo em que a notícia ganhou a manchete da Folha, numa demonstração de eficiência. Veja aqui sua fala e os documentos apresentados como prova da “lisura” de suas transações.

Ritual próprio do Estado Democrático de Direito, utilizado por todos os acusados como se vê nos que se tornaram réus ou depois foram condenados, apesar do peso dos seus escritórios de advocacia. Nas duas recentes semanas a mesma Folha publicou duas grandes entrevistas com executivos da Odebrecht jurando de pés juntos que a empresa é inocente.

Tio Patinhas (Uncle crooge) em sua melhor forma

Tio Patinhas (Uncle Scrooge) em sua melhor forma

Mas não precisa ter os recursos investigatórios da PF nem persuasórios do Judiciário para perceber que há fios desencapados nos argumentos de João Santana.

Compare-se a situação dos setores bancário e econômico dos países onde as empresas do bem-sucedido marqueteiro atua e ver-se-á o que a PF chama de “atípico” na remessa dos dólares angolanos para a agência que Patinhas mantém no Bradesco de Salvador.

Ele não fez o mesmo com o dinheiro ganho nas temerárias Argentina e Venezuela. E preserva grana na República Dominicana e El Salvador, que não se caracterizam por primor de seguridade nos investimentos, como se pode ver nos dados coletados pela Economist.

Não seria irreal os investigadores vir a contradizer o argumento de que os 16 milhões de dólares, como parte de US 20 milhões, foram pagos pelo MPLA (o partido assemelhado ao PT no poder em Angola desde a primeira eleição de 1991) pelo valor cobrado por Santana na campanha de 2012 que reelegeu José Eduardo dos Santos presidente daquele país.

Jornalista Rafael Marques de Morais, sob ameaça por denunciar o envolvimento da cúpula das autoridades de Angola com a corrupção e o sangue dos diamantes. Clique para ler entrevista aqui em inglês

Jornalista Rafael Marques de Morais, sob ameaça por denunciar o envolvimento da cúpula das autoridades de Angola com a corrupção e o sangue dos diamantes. Clique para ler entrevista aqui em inglês

Em Angola os comissários do MPLA, incluindo a família de José Eduardo Santos, (cuja filha e – surpresa! – dona de bancos Isabel dos Santos é listada em Forbes como a mulher mais rica do continente africano), são denunciados por seu forte envolvimento com negócios altamente suspeitos. Controlam quase tudo, pune com severidade dissidentes e ameaçam jornalistas que os desafiem, a exemplo de Rafael Marques de Morais. Veja aqui.

Desde a independência de Portugal, a partir do final dos anos 70, tendo à frente a Odebrecht, empreiteiras brasileiras realizam grandes obras para o governo angolano monopolizado pelo partido único.

Lula, seja na presidência da República seja depois disso, atua ali e outras partes da África como representante dos interesses de algumas dessas empresas, em viagens constantes pagas por elas. Já foi dito que quando começar-se a puxar o novelo dessas conexões entre empreiteiras, Petrobras, BNDES etc. com aqueles governos, sai de baixo!

Aliás, alguma migalha, inclusive, restou para artistas e grupos culturais afro-brasileiros, como o Ilê Aiyê, que a Odebrecht patrocinou àquele país no começo dos anos 80, como estratégia de marketing. Daí em diante, o fluxo é contínuo – envolvendo uma variada gama de transações legais ou sub-reptícias.

Este escrevinhador mesmo, em 1991 quase deixa o mestrado na USP para compor a primeira equipe de marketing político enviada pela agência de publicidade baiana, Propeg, contratada para as primeiras eleições diretas à presidência – da qual José Eduardo dos Santos foi vitorioso.

Na altura a Propeg subcontratou produtoras e prestadoras de serviços, abrindo assim um mercado de comunicação para brasileiros – baianos em grande parte – que ali, pelo menos alguns, fizeram ou fazem fortunas.

Tapam os olhos e o nariz para o sangue e o fedor que envolve os maços de dólares que recompensam seus serviços. Era demais para o meu estômago. Como já havia feito antes (o jornalista Marconi de Souza acaba de mencionar em post que circula em redes sociais), desisti de ficar rico às custas da dor de milhões – otário que continuo.Brasil setor bancário

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