O advogado João Fontoura Neto apresentou à Justiça Eleitoral defesa à tentativa de censura a este site feita pelo empresário Mário Kertész, candidato do vice-presidente da República e de Geddel Vieira Lima à prefeitura da capital baiana, a terceira maior do país. Aguarda-se para as próximas horas o pronunciamento do Ministério Público e consequente decisão final da juiza Maria Fátima Monteiro Vilas Boas.

DO QUE SE TRATA

Este site, de jornalismo e literatura, criado em março para divulgação do livro διασπορά, um romance (*) – que trata de relações de poder e relações raciais no Brasil contemporâneo –  tem publicado desde julho uma série de materiais sobre a gestão pregressa de Kertész quando prefeito de Salvador pela segunda vez (1986-1988).

Trata-se de trabalho fruto de apuração jornalística publicado originalmente no mais importante jornal do Estado, A TARDE, no período em que este escrevinhador atuou ali como repórter. Nos próximos dias, até meados de setembro, novas matérias sobre as investigações serão aqui postadas, como um serviço de interesse público, sem qualquer conotação partidária – muito pelo contrário.

A denúncia é de autoria da Procuradoria Geral do Município (PGM), órgão técnico independente de defesa dos interesses municipais, que em janeiro de 1990 ingressou na Justiça solicitando a anulação de diversos contratos assinados por Kertész com empreiteiras, apontados como simulados e fraudulentos. Os contratos resultariam em um rombo aos cofres públicos estimado à época em 200 milhões de dólares!

A PGM solicitou ainda a devolução ao município de pagamentos às empreiteiras, considerados irregulares, e de responsabilidade de Kertész. 22 anos se passaram sem uma decisão judicial definitiva. Em 2003, última vez que o assunto foi buscado por este escrevinhador, à época editor do jornal alternativo Província da Bahia, os volumes do processo encontravam-se nos tribunais superiores em Brasília.

CRIADOR E CRIA

Seguindo um padrão comum a políticos acostumados à amnésia coletiva da sociedade e à cultura da impunidade que sempre beneficiram os poderosos, Mário Kertèsz deixou o tempo passar. Empresário bem-sucedido, também dono de jornal e de rádio, contou com uma série de artifícios jurídicos, alianças políticas heterodoxas com partidos da chamada extrema esquerda e da direita, visando livrar-se da acusação. Retorna agora com uma campanha eleitoral com o slogan “Salvador tem jeito”.

Em frente do microfone de sua emissora por ao menos 6 horas diárias no decorrer de todo esse tempo, recriou uma imagem de “defensor” da cidade, atacando desafetos e adversários com base no direito constitucional da crítica e da liberdade de expressão. Direito que agora quer impedir este site de exercer.

Cria do falecido cacique Antônio Carlos Magalhães, que mandou e desmandou por 30 anos na Bahia, Mário Kertész soube se reinventar depois do retorno da democracia em 1985. Prefeito biônico de ACM de 1979 a 1981, quando foi sumariamente demitido pelo chefe depois do quebra-quebra de ônibus que jogou a cidade em trevas por duas semanas, Kertész foi acolhido pela oposição como o maior líder anticarlista da época.

Dessa forma foi eleito prefeito de Salvador em 1985 numa frente ampla de partidos ditos “esquerdistas”, de centro, e da direita anticarlista. No comando da prefeitura tentou pavimentar seu caminho para vôos maiores. Comprou o segundo mais importante diário baiano, o Jornal da Bahia, colocando à frente João Santana Filho, o “Patinhas”.

PLANOS ADIADOS

No cargo, aos poucos se distanciou das chamadas “esquerdas” e reaproximou-se de ACM. Começou a se tornar empresário e passou a adquirir bens e propriedades aqui e acolá. Comprou horário em emissoras de televisão, tentou adquirir participação acionária da TV Bandeirantes/Bahia e obteve, apontado de forma ilegal, na Delegacia Regional de Trabalho, um registro de radialista, para poder ser locutor e apresentador de TV e rádio.

Acima de tudo, indicou e fez em 1989 o seu sucessor como prefeito, o também radialista Fernando José (já morto), empregado do também megaempresário Pedro Irujo, dono das rádios Sociedade e Itapoan, TV Itapoan e do jornal Bahia Hoje. Na vice de Fernando José impôs o ex-delegado da DRT que lhe deu seu registro de radialista. Pelo acordo ainda teve o direito de indicar nomes para a metade dos cargos do secretariado municipal. Isso acabou em janeiro de 1990, quando Fernando José revelou ao público o rombo que encontrou nos cofres públicos, por conta dos contratos com as empreiteiras, apontados como fraudulentos.

A revelação do rombo, estimado em US$ 200 milhões, e os desdobramentos publicados na série de matérias do jornal A TARDE e que estão sendo postados neste site, atingiram em cheio os planos de Kertész, então apontado em 1º lugar em pesquisas do Ibope para governador da Bahia.

O Jornal da Bahia faliu a seguir, com dívidas diversas que até hoje atingem jornalistas, gráficos e seus familiares, que lutam na Justiça trabalhista contra o ex-mau patrão. Alguns já morreram ser ter sido indenizados. “Patinhas” foi auxiliar o publicitário Duda Mendonça, por afinidade histórica próximo a Kertész.

AFINIDADES ELETIVAS

Depois que Duda, em CPI no Congresso, confessou ter recebido dinheiro do mensalão petista em paraísos fiscais, João Santana o substituiu no esquema do governo lulista e tornou-se um dos mais respeitáveis marketeiros políticos em atividade no Brasil, na América Latina e na África.

Foram tais afinidades com Duda, que também historicamente foi seu marqueteiro, que fez com que Mário Kertész fosse contratado pela campanha à presidência da República de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Ali, Kertész participou do programa de rádio petista e, no segundo turno da disputa com José Serra (PSDB), foi quem comandou o programa nacional de TV do candidato Lula, enfim vitorioso.

  • (*) Fruto de seleções em dois editais ganhos junto à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, a publicação do romance veio sendo dificultada pela atual gestão da Secult, que tentou censurar o texto alegando algo similar ao que Kertész tem alegado para censurar este site. Não perca, em breve aqui mesmo, notícias de como também anda este imbroglio criado pelos atuais gestores culturais do Estado.
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