Ouço o grande compositor e cantor de samba carioca Paulinho da Viola, em “Que trabalho é esse?”

Logo vem à mente a questão da amizade, cuja definição primeira no dicionário é: “Sentimento de afeição, de estima, de dedicação recíproca entre pessoas”.

Faz 25 anos desde que Paulinho da Viola, autor de clássicos do gênero musical, e os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso romperam abruptamente relações que, por décadas, se supunham de amizade.

Na sequência de show do Réveillon carioca de 1996, promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, entregue a produção à jornalista Gilda Mattoso, dona de portfólio invejável no setor.

Em “Que trabalho é esse?” Paulinho da Viola canta a exploração má-remunerada do trabalho alheio

Revelou-se que o cachê pago às estrelas do show (além dos baianos Caetano, Gil e Gal Costa, o paulista Chico Buarque e o “mineiro” Milton Nascimento) foi de R$ 100 mil cada. A Paulinho da Viola apenas R$ 30 mil.

O sambista declarou que a organização havia combinado cachês iguais para todos. Gil declarou aos jornais “ter todos os motivos para chamar Paulinho de mentiroso e canalha”, mas não o faria.

Não esquecer a anterioridade da crítica ácida, ou ressentimento, que “mineiros” do “Clube da Esquina” e outros de Porto Alegre (RS) verbalizam “dos Tropicalistas”, pela resiliência de Gil e Caetano no sufocamento de vocações competitivas a eles.

As mulheres dos três artistas, que há tempos cuidam de suas respectivas carreiras, vieram a público opinar, colocando fogo na ruptura entre Paulinho, Gil e Caetano. Lila, a mulher de Paulinho da Viola, foi acusada de adulterar o contrato.

Não sei se Flora Gil ou se Paula Lavigne (Veloso)* defendeu os seus dentro da lógica do mercado: cada um ganha o valor que merece. O valor pago a Paulinho dava a exata medida de quanto ele valeria na ocasião, em comparação aos demais.

Desde aquele momento a hoje quanto nós, o público que admira de igual modo Paulinho, Caetano e Gil, perdemos em termos do desfrute da parceria musical entre eles? Que jamais demonstraram interesse na reconciliação.

Se bem refletirmos, se a amizade acabou é porque não era amizade.

É o que penso no particular mas esse pensamento pode ser extrapolado a todos que experimentam essas rupturas, por variadas motivações.

O período de pandemia da Covid-19 tem sido exemplar nesse aspecto. A imposição de distanciamento social isolou-nos fisicamente. Afastando antigo(a)s camaradas e impedindo o início de novas camaradagens.

A pandemia é circunstancial. O fim de parcerias que julgávamos amizades é anterior a essa tragédia.

O tensionamento entre correntes políticas, partidárias que, no Brasil redemocratizado, a sociedade experimenta há pelo menos década e meia, tem revelado muito disso.

Divergências de opinião deixam de ser toleradas por aqueles/aquelas que, descobrimos surpresos, passaram a encarar a vida no tudo ou nada, na ponta da faca.

Não dá mais para brincar “com coisas sérias”, dizem. Ou rir do ridículo que é esta merda toda!

Este escrevinhador, até por temperamento, nunca foi tributário da generosidade de amizades sinceras para além de três ou quatro contadas nos dedos de menos de uma mão.

“O Amigo da Onça”, famoso personagem do cartunista pernambucano Péricles (1924-1961) que caricatura o falso

Perduram de antanho e com essas pode-se contar mesmo nos momentos mais terríveis, de maior dor, tristeza, solidão.

A amiga ou amigo nada quer de você. A não ser a sua amizade. É o porto mais seguro, mesmo embriagado e louco.

Nunca levanta suspeita à palavra. Entende suas fraquezas, diatribes e erros. Não escolhe apenas seu lado bom, afetuoso, solidário. Quer você de forma integral, mercê de suas escolhas pessoais, políticas. Ainda que nas escorregadas seja o mais duro e sincero na puxada de orelha.

É ser mais que irmão, o amigo. Há irmãos detestáveis, recriminadores. Falsos. Odeiam e são odiados entre si.

Amigo falso simplesmente não existe.

Amigo sequer cabe no escopo de cônjuge. Aqui a relação – seja namoro, união, casamento etc – é estabelecida a partir da ideia da existência de um contrato. Escrito ou não. Qualquer pisadela na bola pode ser o fim. Porquanto amizade é para sempre. Se amizade é.

O filósofo Cícero (106 antes de Cristo) escreveu: “É fruto da reciprocidade de afetos. Pressupõe respeito, honestidade, tranquilidade, lealdade, amabilidade. Não estabelece diferença. Cria laços de doçura. Coloca em um mesmo plano os desiguais.”

Paixões e amores trocam-se uns por outros no tempo. São coisas passageiras e isso é bom. A amizade, esta é perene.

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(*) PS: Poucas horas depois de publicado este artigo o leitor, médico e músico Tuzé de Abreu enviou a seguinte mensagem: Conheço muitíssimo bem esta história, na época eu trabalhava com Caetano e Gil. Não houve nenhuma interferência de Flora ou Paulinha, que nesse tempo ainda não geriam as carreiras deles, acho mesmo que nem eram “casadas”. Caetano e Gil ainda estavam com Dedé e Sandra. O que aconteceu foi muito simples, sem nenhuma pré combinação. Todos aceitaram o dinheiro que lhes foi oferecido. Nenhum sabia quanto o outro ia ganhar. A mulher de Paulinho da Viola à época, descobriu que Paulinho iria ganhar menos e “rodou a baiana”. Caetano, Gil e Chico não sabiam quanto cada um ia ganhar. Caetano nem queria passar o Réveillon no Rio, porque tradicionalmente nossa turma fazia uma festa aqui [em Salvador]. Ele fez uma concessão para dar força a um grupo político. Este fato aconteceu muitas vezes comigo, estando dos dois lados. Do que ganhava mais e do que ganhava menos. Sempre me conformei. Paulinho aceitou o que lhe foi oferecido, assinou o contrato. Depois que a mulher descobriu que Chico, Gil e Caetano estavam ganhando mais, fez aquele auê.