É mentira! Não estão sob ameaça as liberdades de expressão e de imprensa, agora que o jornalista estadunidense Glenn Greenwald, do site The Intercept, foi denunciado à Justiça por “organização criminosa” etc.

Ameaçada a liberdade esteve e está quando, por exemplo, o STF impõe censura e multa a veículos como Crusoé – que informaram sobre documentos implicadores do presidente dessa Corte, ano passado.

Greenwald (dir), na direitista Fox News, em combate a Hillary

Oportunistas como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, corporações e associações jornalísticas, apressam-se na defesa da intocabilidade de Greenwald.

E na demonização do autor da denúncia, a ser ainda apreciada na instância adequada. Por que toda essa grita, se o juiz pode simplesmente desconhecê-la? O que teme Greenwald?

Na peça de 95 páginas (clique para ler), o procurador do Ministério Público Federal, Wellington Oliveira, pede a condenação de Greenwald e mais seis hackers.

Por práticas criminosas no caso das mensagens roubadas de dispositivos telefônicos de autoridades. E que, iniciando-se em junho de 2019, The Intercept Brasil passou a divulgá-las com estardalhaço.

O explícito propósito era desacreditar a Operação Lava Jato, particularmente o juiz do caso, Sergio Moro, e o coordenador da Lava Jato, Deltan Dellagnol, visando com isso a absolvição de condenados no maior esquema de corrupção da República brasileira.

Entidades e “sumidades democráticas” atacam o procurador, exigindo sua cabeça. Greenwald levianamente acusa-o de estar “a serviço de Bolsonaro”. É acusação grave. Se o representante do MPF cometeu abusos, para corrigi-los há a instância apropriada, o Conselho superior do MP.

PROPÓSITO ERA ANULAR LAVA JATO

Em consórcio com Greenwald, veículos da grande mídia, como Folha de S. Paulo, se associaram a The Intercept para manchetear o teor das mensagens – as quais aqueles acusados não reconhecem a autenticidade.

Na medida em que Greenwald mirou aqueles dois principais alvos – a “força tarefa” da Lava Jato e o titular da ação na 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba -, repercutiu em todo o mundo a suspeita, apontada por esse jornalista.

De que a mais importante operação de combate à corrupção sistêmica incrustada no Estado brasileiro foi tudo “uma armação” de Moro. “Para prender Lula e beneficiar Jair Bolsonaro nas eleições de 2018”.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi descrito como “vítima” da suposta “armação”.

Descrita por Greenwald, a narrativa foi amplamente abraçada pelos partidos políticos envolvidos naquele esquema e altos figurões da República. Plantonistas da grande mídia e acadêmicos “do bem”, idem.

Gilmar Mendes, um dos onze ministros do STF, mais vaidoso e talvez o mais invejoso da popularidade de Moro, – logo tomou medidas, declarando sua disposição de anular “por suspeição” os processos comandados pelo então juiz de primeira instância. Hoje Ministro da Justiça.

Judicialmente, em agosto Mendes blindou Greenwald com medida liminar, absolvendo-o antecipadamente de qualquer responsabilidade pelos crimes de invasão da correspondência telefônica alheia.

Como a integridade das autoridades sofreu violação com os crimes cometidos pelos hackers, a Polícia Federal investigou e ainda em julho identificou os autores do hackeamento. Que foram presos.

A liminar de Gilmar Mendes tratou de dar ao sócio de The Intercept tratamento especial.

A imunidade a ele concedida – assim como a rendição à sua vaidade -, jamais tem sido experimentada por quaisquer outros profissionais da imprensa tupiniquim. Como vira-latas, temos de nos curvar ao que vem de fora.

O argumento de Vossa Excelência, de que Greenwald deve ser protegido, com base no inciso 14º do Artigo 5º da Constituição, é plausível. Mas não é preciso ser causídico para entender tratar-se de uma decisão cessante.

A partir de demonstrada a participação do jornalista no processo de ocorrência do crime em andamento, por que deixar de investigá-lo, vez que todos no Brasil são iguais perante a lei? (caput do Art. 5º).

Aquele inciso garante ao jornalista manter o sigilo da fonte da qual obtém a informação – princípio básico do dever de informar e do direito que tem o público de ser informado, numa democracia.

Procurador Wellington Oliveira: o demonizado da vez

Contudo, como ressalta o Procurador da República Wellington de Oliveira, não mais se trata disso.

Greenwald de forma alguma está sendo denunciado por divulgar o conteúdo das mensagens em seu site noticioso.

Na denúncia, o membro da equipe de combate à corrupção do Ministério Público reproduz transcrições de conversas comprometedoras, a que a investigação teve acesso, entre o jornalista e um dos mentores do hackeamento. Muito antes de as matérias vir a ser publicadas por The Intercept.

Greenwald é solicitado pelo criminoso a dar orientações de armazenamento e destruição de arquivos das mensagens obtidas por ele.

A fonte e o jornalista ainda tratam da conveniência cronológica da divulgação do material. E concordam sobre seu objetivo comum: avacalhar com a Lava Jato.

Por muito menos, em 2004, o governo Lula (PT) ameaçou cassar o visto do correspondente do The New York Times, Larry Rotter, e expulsá-lo do Brasil. E este não tinha cometido crime algum.