COMENTO NO canal Zé De Noca, no Youtube [clique neste link], artigo da intelectual e ativista dos direitos civis estadunidense, Angela Davis. Nele, discute sobre a luta por igualdade de direitos LGBT e negro ao casamento e atuação nas Forças Armadas.

Angela Davis posa com cartaz contra Jair Bolsonaro, em foto de Raiane Santana durante evento nos Estados Unidos em outubro de 2018

Sua posição é de criticismo, pelo caráter opressor de ambas as instituições.

Com destaque para o casamento, que tem mais a ver com “acumulação e distribuição de propriedade” do que com “relações humanas, tampouco relações íntimas” – escreve Angela Davis.

É um debate intelectual que requer preparo e desprendimento, para não resvalar à vulgaridade.

Por tudo e em tudo um forte bastião da heteronormatividade, por que gente libertária quer se enforcar nessa corda? Não se trata aqui de falar em igualdade de direitos civis cartoriais, assegurados na norma constitucional e garantidos em decisões da Suprema Corte (STF).

O conceito ontológico afirma o casamento como renúncia. Na visão burguesa monástica, casamento é sacrifício. Nada a ver com “almas gêmeas”, essa criação datada do Romantismo, Pitirim Sorokin (1889-1968) já demonstrou.

Um gênio como Beethoven somente pode criar uma obra como sua 9ª Sinfonia abdicando dos prazeres da carne. Na solidão absoluta de sua surdez, não deu ouvidos à algaravia ao redor. Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais.

Quem casa nos moldes institucionais abre mão de sua liberdade. Para fazer feliz o(a) outro(a), de acordo com a escola tomasina.

Faz-se um negócio. Adquire-se uma posse, pagando-se dotes. Isto não é passado, vide Hong Kong. Apesar das conquistas civilizatórias de hoje, o costume infelizmente persiste aqui e alhures.

No contexto brasileiro acrescento aos pontos do artigo de Angela Davis a reivindicação dos praticantes das tradições dos Orixás.

Cosmogonias de matrizes africanas sincretizadas, seus fiéis querem o Candomblé religião. No mesmo status do Catolicismo, do Islamismo, do Judaísmo.

Pode-se datar esse ideário à II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura, ocorrida em Salvador, Bahia, em 1983.

Mãe Stella, ao centro, tendo à direita o ex-prefeito Edvaldo Brito, co-organizador da Conferência internacional que afirmou na Bahia ser o Candomblé uma religião

Emergiu daí a estrela maior do movimento, a yalorixá Stella de Oxóssi (Maria Stella de Azevedo Santos, 1925-2018), sacerdotisa e líder do Ilê Axé Opô Afonjá.

Se toda e qualquer religião é instituição burocrática que busca organizar e administrar a fé individual, toda religião oprime e cega – digo eu. Qual sua utilidade, senão a de foro íntimo?

Como o casamento, a fé exige alto grau de abnegação e altruísmo. Principalmente ambição nos propósitos que se almeja alcançar. Contudo, nada está garantido de antemão.

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