UMA BALA ou um desastre de avião retirará desse plano de existência este a quem lê neste momento.

Meus filhos já sabem: cremação, cinzas no vaso sanitário e descarga. Nada de “nota de pesar” e de homenagens póstumas. A não ser em dinheiro.

Aqueles ou aquelas que atazanaram meu caminho, “eles passarão, eu passarinho” – sentenciou Mário Quintana.

Como pessoinhas com as quais obrigo-me conviver no atual ambiente de trabalho. Se ousarem ir a meu enterro, hipócritas, puxo-lhes a perna em sua primeira madrugada de sono.

Morto já fui algumas vezes, principalmente de ano e meio pra cá.

Dia desses no saguão de uma agência bancária uma pessoa aproximou-se. A impressão me dada por ela foi de surpresa.

Não aquilatei o quão nervosa. Mas parecia pálida e ao mesmo tempo feliz por me ver ali de pé com as chatices bancárias de sempre.

Olhos fixos, abriu um sorriso para confirmar se era eu mesmo. Vivinho da silva!

Para tristeza de alguns, querida colega.

Como assim, se semana passada – ela então me disse – havia circulado em redes sociais a notícia compartilhada de que este fantasma em sua frente havia morrido? Teria relutado em acreditar e agora suas dúvidas dissipavam.

Professora Bárbara Carine, para quem já havia morrido [foto: aqui]

Aquela era uma pessoa com quem, um ano antes, havia dividido uma roda de discussões de pesquisas acadêmicas sobre “gênero e raça”. Quando, então, pessoalmente nos conhecemos.

Bárbara Carine Pinheiro, doutora em Química, professora da UFBA (Universidade Federal da Bahia), coordena uma pesquisa intitulada “Autoestima do povo negro no Estudo e Produção da Ciência”. Estuda epistemicídio na academia brasileira.

Não faz tempo e outros com quem cruzei por aí reagiram de modo similar ao dessa professora. Com espanto ao ver esse indivíduo carregando, quase sempre serelepe, o fardo que é arrastar o corpo e a existência. Saltitante, perdendo amigos mas nunca a piada.

  • MORREU (NEM SOUBE) ano passado Jorge Conceição, geógrafo da Universidade Católica de Salvador. Figura respeitada e conhecida da intelectualidade negra outsider soteropolitana. As pessoas confundem: acham que fui eu que parti para a “Cidade dos Pés Juntos”.

Não era meu parente, mas o sobrenome igual trouxe-nos uma série de confusões nos debates públicos com os quais nos envolvemos. Anunciavam-no como “Fernando” e a mim como “Jorge”.

Naturalista convicto há décadas, num desses debates discutia-se as influências das culturas africanas na sociedade brasileira, nós dois na mesa. Afetuosos e gentis um com o outro.

Jorge era adepto de uma dieta culinária rigorosamente naturalista, afirmando que lhe bastava ingerir bananas. Até água era-lhe estanha. Sexo carnal, um desperdício de energia a ser evitado.

Provoquei-o, enfatizando a contradição em positivar a herança africana na culinária brasileira e comer apenas banana. E o mocotó? O mocofato? A feijoada com tudo o que sobras e intestinos, toucinhos de porco e embutidos? O sarapatel?

Seja como for, continuo vivo, saudável, enquanto digito essas maltraçadas.

Desde priscas eras da militância social, prevejo que uma bala interromperá meu caminho. Como o de alguns parceiros que vi tombar quase ao meu lado durante essa trajetória de lutas. Entre os favelados e a negrada. Numa época usei um .38 como possibilidade, a qual sabia quimérica, de defesa.

Jorge Conceição, “educador da diversidade”,como descrito pela Cooperativa Steve Biko [clique]

Ainda militante favelado, meu primeiro voo, Salvador-Brasília, foi a convite oficial da empresa fornecedora de energia elétrica da Bahia (Coelba), na transição da ditaduta militar para o governo José Sarney (1986-1989).

O diretor da empresa me colocou na poltrona a seu lado. Íamos a reuniões no Ministério das Minas e Energias discutir propostas de implantação de uma “tarifa social” de eletricidade para setores desfavorecidos da sociedade.

Daí o convite a gente da minha estirpe, até para dar um ar de “participação popular” ao novo modelo de sociedade que se queria para o país, tão bem encampado pelos governos sucedâneos, com suas conferências de participação disso e daquilo até hoje.

Naquele voo de estreia botei na cabeça se não fosse de tiro eu morreria de desastre aéreo. Estarei nem aí…

 

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