A PSICANÁLISE NÃO existia naquele tempo. Se existisse o final da história seria outro. Adocicado, como nesses tempos frouxos – e de frouxos – contemporâneos.

Os atores Nádia Santos, Jorge Cruz e Tiago Viegas em releitura de Sófocles no Chapitô de Lisboa

Os atores Nádia Santos, Jorge Cruz e Tiago Viegas em releitura de Sófocles no Chapitô de Lisboa abril passado

Um vizinho pergunta-me, na dúvida, quem escreveu Édipo Rei. Sófocles, informo. Alguns quatro séculos antes de Cristo – acrescento. Para enfatizar que o nascimento da tragédia, enquanto drama vulgar, é anterior ao cristianismo.

A psicanálise – que tenta nos tornar “pessoas melhores” – é que busca edulcorar a pílula. Embuste, como as seitas.

Não sou eu que devo me tornar uma “pessoa melhor”. As outras pessoas, se quiserem, que se tornem. Prefiro químicos, cerveja preferencialmente. Como diria minha amiga Mary McCarthy (1912-1989), bebo para tornar as pessoas melhores.

Sófocles usa a arte dramática para afirmar o fatalismo da existência. Ao nascer, ninguém mais escapa do destino. Que nasce com o nascente.

Não há fuga possível. Ninguém sabe do seu. Uma indústria de adivinhos fatura alto sobre tal mistério. Que mistério? “Os deuses são deuses porque não se pensam” (Ricardo Reis).

O grande mistério é superar o tédio, preencher o vazio entre o nascimento e a extinção. Brigar ou fingir que se briga pelo que se deve, não levar tudo na ponta da faca, rir de si mesmo, não temer desafios nem solidões ou caras feias.

Para o vizinho, Édipo enciumado teria intencionalmente matado o pai devido à atração sexual pela mãe. Se assim fosse seria ótimo, porque ato de vontade. Mas a coisa é muito pior. É aí que entra Freud (1856-1939) e suas psicanálise e neurose.

Assisti recentemente (abril de 2015) a uma releitura da peça, em montagem criativa, minimalista e muito bem feita pela Companhia do Chapitô, de Lisboa. Excelente trabalho de corpo, luz e sonoplastia. O resultado é interessante, para usar uma linguagem neutra. Apenas três atores, dois gajos e uma rapariga, tratam o texto pelo viés cômico, nuançando-lhe o foco trágico.

No original, todos conhecemos a história. Quando Jocasta dá a luz, seu marido Laio, rei de Tebas, uma das cidades-Estado grega, chama um advinho (no Candomblé jogaria búzios). Que faz uma terrível profecia. Aquela criança ao crescer mataria o pai e desposaria a mãe, com quem teria filhos.

O rei, depois de amarrar os pés da criança (daí édipo, pés grandes em grego), manda um criado matá-la numa montanha.

Ao chegar à fronteira de Corinto (outra cidade-Estado) o criado encontra um pastor da cidade vizinha, que o convence a doar-lhe. Por não poder ter filhos, o casal que reina em Corinto recebe, felizardo, o bebê. Que cresce, feliz e bem-amado, como filho legítimo desse rei.

Freud se auto-analisou e "descobriu" que tinha "Complexo de Édipo"

Freud se auto-analisou e “descobriu” que tinha “Complexo de Édipo”

Eis que, já adulto, consulta um oráculo e fica sabendo que seu destino é matar o pai e casar com a mãe. Resolve, então, deixar Corinto e perambular pelo mundo a fim de evitar a profecia.

Numa estrada, dá de frente com uma caravana de cavaleiros e tem início uma refrega para ver quem dava passagem a quem. No confronto, Édipo mata o ancião que comandava a caravana adversária. Este era Laio, antigo rei de Tebas.

Tebas está sob ameaça de uma esfinge. Édipo segue em sua direção e sabe que se decifrar o segredo da esfinge será premiado. Então ele a derrota. Por recompensa, o povo o aclama novo rei. E ele casa-se com a rainha viúva, Jocasta.

Tempos de bonança e paz advêm, até que a fome e a miséria começam a desolar a cidade-Estado. Consultado o oráculo, o irmão da rainha é informado de que a maldição de Tebas advinha do fato de existir na cidade um parricida incestuoso.

Édipo,que é um rei justo, pessoalmente ordena e pessoalmente se empenha na caçada ao pária. Promete ao povo que não ficará pedra sobre pedra e que não sossegará enquanto não extirpar, não banir aquele mal do convívio dos tebanos. Ai de quem transgredir a sua ordem!

Mary McCarthy, escritora, em ilustração de D. B. Johnson

Mary McCarthy, escritora que bebia para tornar os outros melhores, em ilustração de D. B. Johnson

O DIRETOR E CRÍTICO de teatro Flávio Rangel (1934-1988) escreveu certa vez que Sófocles discute nesse texto os limites que o homem deve impor à busca da verdade das coisas.

A chave do seu entendimento está no último diálogo entre Édipo e Jocasta, sua mãe e mãe de seus filhos. Momentos antes já chegara a notícia da morte “natural” do rei de Corinto.

Ao ver se revelar todo o drama, Jocasta quer persuadir Édipo a abandonar aquela busca desenfreada, prevendo o pior que se avizinha.

Para que insistir tanto em descobrir a verdade – ela lhe indaga, sôfrega. “É bem mais fácil a vida para quem dessas coisas não cogita” – cito de cór as palavras dela.

Ou seja, a verdade verdadeira pode cegar os viventes. É o que acontece a Édipo. Antes da psicanálise que, mentirosamente, a quer sempre agradabilíssima.

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