Silêncio! Fazemos muito barulho por nada – thanks, Shakespeare.

Não vale a pena viver a vida como um castigo, ela toca e canta.

Para que a pressa? Tenha calma e escute até o final os detalhes do vídeo abaixo:

SARA TAVARES comemora 20 anos de música com um belo show, no fim de semana no São Luiz Teatro Municipal (do sec.XIX), bairro Alto de Lisboa. Mesmo palco de sua estreia em 1994, ela informa ao público, faturando o 1º lugar num festival, o que fez que representasse Portugal no Eurovision (aos 17 de idade). Entre os convidados que chama ao palco, o congolês Lokua Kanza – a quem ela reconhece dever muito de sua virtuose.

Intérprete, também compõe. Sabe usar o timbre da voz como poucos. E toca. Isso é não apenas talento mas disciplina. Faz dali um instrumento afinadíssimo, como quem cultiva um dom. Sabe modular e projetar, ao natural e falsetes, o som que tira do sistema vocal com maestria trágica.

Dá pra pular e dá pra chorar. Ao mesmo tempo sublime, melancólica e colorida. Como convém a uma diva que sabe do seu ofício (me ocorreu Maria Callas, mas aqui estejamos falando de música popular).

saratavaresMeus ouvidos que a terra há de comer nunca ouviram uma sonoridade feminina naquele diapasão. Não com a última flor do lácio como língua. Cantar em português, das que conheço, um dia Gal Costa cantou assim. Mas isso foi antes de Sarney ter bigode.

Sara Tavares está fresquinha. É bonita. Tem charme, presença de palco. Seu show, sem firulas nem ostentação. Para que artifícios de pirotecnia, quando o centro de tudo devem ser as cordas vocais?

SONS AVELUDADOS E AMADEIRADOS

Quando ela canta sua gente de Cabo Verde, quando diz que “o amor é buê”, quando fala da singularidade de Lisboa, é pra se contorcer de felicidade simplesmente pelo privilégio de ouvi-la.

Há com certeza outras vozes, sonoridades diversas, mas iguais à de Sara Tavares, nesse mundo vasto mundo, estou para experimentar. É uma voz que tem sabor… como explicar? Como os sabores descritos naquelas rótulos de vinhos metidos a besta – taninos amadeirados, aroma de frutos maduros, toques aveludados de brisa oceânica…

Fui apresentado a essa artista caboverdiana em meados de 2012, por Danila. Que chegou de volta ao hostel com um CD, depois de um passeio perambulando pelo centro de Lisboa, que juntos visitávamos a primeira vez. Dali pra cá, sempre que podemos, em casa, no carro, quando bebo, quando acordo, sua voz tem sido uma trilha sonora.

Sara Tavares não nasceu em Cabo Verde, sim em Portugal, de família caboverdiana. Divide hoje sua morada entre os dois países. Dessa vez, antes de deixarmos o Brasil em agosto para fixarmos residência em Portugal, minha parceira já havia agendado nosso lugar no show comemorativo.

Obviamente, não deu para quem queria, os ingressos esgotaram. O que fez o teatro abrir duas outras apresentações. Fomos na noite de sexta, 31. Curiosamente, no restaurante próximo de casa, o prato do dia era cachupa!

O São Luiz está na zona central, tradicional, da “balada”. Um teatro ao lado do outro, zoeiras de hallowens e turistas, imediações do largo do Chiado. Poeta cuja estátua, no local, disputa preferência com a de Fernando Pessoa e com a de Camões, na praça do mesmo nome ali perto.

Uma nota de rodapé, que nada tem a ver com música. Na praça Luiz de Camões está o consulado do Brasil. Com empregados terceirizados que há dez anos, um deles me disse quando ali estive recentemente, não sabem o que é aumento de salário.

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