No livro Marianne em Preto e Branco (1959, recém-editado pela Edusp/Edufba), fruto de uma espécie de diário de viagem dos dois semestres em que transitou pela França – para o seu doutorado na Universidade de Strasbourg – e de sua primeira visita a partes do continente africano, as das colônias francesas da África ocidental, Milton Santos, ao pisar em solo do Mali (então Sudão Francês), às páginas tantas descreve sua suspeita sensorial de que seus ancestrais descendiam daquele lugar.

No começo de julho de 2009 estive por uma semana no Mali. Saí e retornei, por terra, às bordas do Saara, de Dakar, litoral senegalês, a Bamako, a capital malinense, percorrendo mais de 2.300 kilômetros. Poeira, savanas, povos, rios. Animismos e religiosidades que beiram à patologias. Uma das sociedades mais empobrecidas do planeta. Uma das de sonoridades e musicalidades mais ricas do mundo, como atestam etnomusicistas e criadores da estirpe de Salif Keita.

Desde o fim do regime de Muammar al-Gadaffi na Líbia em outubro de 2011, mercenários que se dizem islamizados de uma das milícias daquele ditador que teve admiradores de determinados partidos políticos “esquerdisdas” do Brasil, tomaram o norte do Mali, em declarada guerra civil ao governo central de Bamako, país que formalmente é uma república depois da independência da sanguinária França em 1960.

Fui hospedado em Bamako por um casal, para o qual, de vez em quando, telefono. Ele de origem tuareg, justamente o povo do norte hoje dominado pelos guerrilheiros que se declaram membros da Al-Qaeda em “guerra santa” contra o Ocidente. Ela, natural do vizinho Burkina Faso. Líderes de uma “missão cristã para a juventude”. Missionários em luta, por exemplo, contra práticas culturais milenares como a mutilação do órgão sexual feminino.

Presenciei e participei no final daquela semana em Bamako em um grande estádio esportivo de um evento pluri-nacional que reuniu milhares de mulheres dos países africanos de forte religiosidade mulçumana, no qual o tema era justamente “o direito das mulheres africanas”.

Mas, ainda há práticas que lembram a escravidão verdadeira. Um dia meu anfitrião me levou em seu carro, juntamente com um servidor dele, para trabalhar em sua área de terra numa zona rural, necessitada de capinação e aragem. Enquanto trabalhávamos a terra, puxei conversa. O servidor, da etnia peul (também conhecida como fula), na prática era um escravo do tuareg, em toda a extensão do termo – o que choca um ocidental, mesmo um ex-favelado como este escrevinhador.

Enfim, escrevo para desejar o melhor para os povos que formam aquele grande e belo país do outro lado do Atlântico. Mas quem se importa com eles? Who care?

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