Sou do tempo em que, na escola primária, éramos alfabetizados com uma cartilha na qual constava um texto, ilustrado, que dizia: “Ivo viu a uva. A uva é da vovó”. E por aí, ia…

Habitante de favela na pobreza, as crianças ficávamos encantadas e surpresas (talvez estupefatas) com a perspectiva, para nós impossível, de ter uma avó que possuía uvas para ofertar ao neto. Uva na mesa de pobre era coisa raríssima, talvez para momentos de doença.

A uva de Ivo nos era o símbolo da escassez de nossas dietas ou um sonho a ser alcançado pelo esforço de nossos estudos – como queriam os nossos pais, em seu esforço e crença de ser pela escola que superaríamos nossa condição social?

Hoje, alunos das disciplinas que ministro na graduação em Jornalismo e em Produção Cultural da Faculdade de Comunicação, assim como na pós-graduação do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia, são confrontados com a leitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Foi com base em alguns conceitos dessa obra que escreví e publiquei um artigo que, desde 2007, me pôs em confronto com agentes públicos em cargos diretivos da instituição para a qual trabalho como servidor público concursado.

A réplica, publicada no mesmo espaço, em realidade não responde aos argumentos ali levantados. É um ataque ad hominem à capacidade e à qualificação profissional do autor.

O artigo original, que provocou a cassação do autor e impôs uma intervenção dos dirigentes ao então projeto editorial do jornal-laboratório da Facom, foi o leitmotif para um processo administrativo condenatório. Movido a partir da recusa em me retratar, negando o seu conteúdo, como exigiram os dirigentes da instituição.

Processo que, ao final, recomendou maiores punições ao autor. Sem base legal, entretanto, tais recomendações foram abortadas. Todo o procedimento, aliás, foi considerado “eivado de vícios insanáveis” pela Procuradoria Federal da República junto à própria universidade.

E agora, José?

Anúncios