DOHA, Qatar, 31/07/12 – Populações de países submetidos a crises econômicas constantes, como o Brasil, não fazem ideia do sentimento dos europeus acostumados à farra da gastança e do consumo. Se um brasileiro, um latinoamericano ou um africano comuns vivem de biscates e sem amparo do welfare state, isso é a norma. O incomum é viver bem.

A pobreza está à espreita, atordoando as pessoas acostumadas a uma Europa colonial que, sem as colônias, não podem mais fazer como antes – sugar de suas possessões o que lhe faltava. E orgulhar-se do seu fausto.

Em uma das margens do lago de Genebra, Suíça, chamou-nos atenção este homem sozinho, por volta de uma da tarde de um domingo, olhando para o espelho d´água, bandeira da Espanha tremulando em sua bike. Um ciclista percorrendo o continente?, perguntamos. “Qual nada!”, foi a resposta. Ele disse que saiu de sua terra natal, a Galícia, fazia quatro semanas, percorrendo as estradas em busca de trabalho. “De lá para cá está tudo ruim, não encontrei nada. E até fui escorraçado quando passei na França”. Gumercindo, o nome do homem, disse que estava ali no lago aguardando um telefonema de alguém, que lhe daria comida naquele dia, uma vez que o serviço social da cidade genevense, onde filava a bóia desde quarta-feira, fecha aos domingos. Talvez conseguisse algum trabalho, principalmente “dos latinos que vivem em Genebra, que têm me ajudado”. “Vou dormir na rua, agarrado à bicicleta para não me tomarem, porque tem muito ladrão por aqui. Meu computador e toda a minha vida está nessa bicicleta, não posso ficar sem ela”. (A foto é de Danila de Jesus).

Desde 24 de junho, vindos de Iran, percorremos partes de Turquia, Grécia, Itália, Suíça, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Portugal e, por último, Espanha, de onde saímos ontem. A coisa anda feia nesses lugares. Os europeus de hoje estão de nariz mais baixo, desde quando há 13 anos – por razões profissionais, acadêmicas ou sentimentais – passei a frequentar porções desse continente.

Espanha, Portugal, Itália e França, nesta ordem, parecem aguardar uma das duas coisas: um milagre ou um apocalipse. Pessoas do povo e comerciantes, indagados, falam de suas agruras e da falta de dinheiro como algo jamais visto nos últimos 50 anos.

Fica evidente que o medo e a desigualdade têm aumentado. Há os ricos ou mais ou menos ricos, que a esses aparentemente a crise que varre o mundo desde 2008 não afetou. Mas, e a maioria?

Vê sua poupança e poder aquisitivo desabarem vertiginosamente. Em Menorca encontramos trabalhadores catalãs temporários se declarando satisfeitos por terem conseguido serviço naquela ilha – parte veio de outras regiões espanholas -, ainda que os patrões (no caso do hotel onde estávamos hospedados, um alemão que não aparece por ali) lhes tirem o coro.

Jornada de trabalho de 14 horas diárias, sem folga na semana. Um recepcionista trabalhava com uma perna engessada, mas disse que era aquilo ou nada, atendendo aos clientes aos pulos de uma perna só, como um saci.

Em área do badalado centro histórico de Madri, o dono de um restaurante que se disse à frente do empreendimento há 60 anos, lamentava a absoluta falta de clientes. Às 11 e meia da noite de sábado, no estabelecimento finamente mobiliado, com o teto em madeira de lei encerada, não havia nenhum cliente.

Além dele, sentado junto ao grande balcão, apenas uma funcionária. Declarou que já enfrentou outras crises, “mas era coisa de alguns meses, logo passava e o movimento vinha com força”. Dessa vez, já demitiu sete dos 9 funcionários. “Vou tentar aguardar mais um pouco e se não melhorar, faço como outros, cerro o negócio”. E a presença dos turistas, que à primeira vista continua saliente? “Ficam zanzando, mas poucos consomem, já não gastam”.

O humor de trabalhadores, desempregados, em subempregos e prestação de serviços, é de mal a pior. Percorrendo áreas de Portugal, a exemplo de Sintra e Cascais, as queixas invariavelmente são as mesmas: não há emprego e está se pagando mal. “Muita gente aqui está indo para o Brasil”, declarou uma balconista em Sintra. Um motorista de ônibus que transportava turistas ao Castelo dos Mouros, desfolhou o mesmo cenário depressivo.

Em Alcântara, bairro antigo de Lisboa, o gerente de um dos mais afamados restaurantes de menu tradicional português, não perdeu a chance de se lamuriar, olhos úmidos. “Temos pouca mesa, mas faz mais de um ano que fica tudo assim, vazio. O jeito foi demitir”. O mesmo homem se disse saudoso dos tempos da ditadura de Salazar, “pelo menos Portugal produzia; agora não produzimos nada”.

JÁ HÁ UM BODE EXPIATÓRIO

Ruas da Grécia e da Itália, mas também de Madrid ou Lisboa, tornaram-se espaço para mendicância. Paris da mesma forma, e com isso também a prostituição de rua. Não são apenas ciganos os pedintes, mesmo em Bruxelas.

Espalham-se pelas esquinas multidões de camelôs, muitos imigrantes da África, do subcontinente índico ou da ex-União Soviética. Em Barcelona, ônibus, metrôs e cafeterias advertem: cuidado com os batedores de carteiras! O cenário é triste. A única coisa que ainda dá inveja é a infraestrutura (estradas, ferrovias, metrôs, hidrovias) que construíram quando ricos, claro que enriquecendo ainda mais empreiteiros e agentes públicos.

Ricardo Silva, um quase septuagenário, dono do restaurante “Flor do Amor” no bairro dos fados lisboeta, Alfama, afirmou que prepara as malas com a mulher, filha e neta, para se mudar de vez para Costa Rica. “Isso aqui não tem mais jeito”, opinou. Ele se disse sindicalista aposentado, que recebeu Lula, então sindicalista como ele, em sua casa ali perto.

A opinião geral de quem falou é que o problema todo reside na corrupção governamental e na gastança dos políticos. Regressar ao estágio anterior e sair da zona do Euro, poucos apoiaram essa sugestão. Contudo, ao ouvir o nome da chanceler alemã Angela Merkel, alguns interlocutores vituperaram: “Não gosto dessa mulher. É uma nova Hitler pra nós de Portugal”.

Se a coisa se degringolar completamente, parece que os governos daqueles países já encontraram um bode expiatório para manipular seu povo: a Alemanha de orçamento duro. Por isso, até agora, em situação melhor que os demais.

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