CHEGUEI AO HOSTEL “Sleep-in-Grenn”, na Ravnsborggade 18, Copenhagen (København), por volta do meio dia.

Trem no ferryboat do porto de Puttgarden, Alemanha

A recepcionista me acolheu. Mas, conforme regulamento, somente poderia entrar no quarto que reservei (compartilhado com beliches para mais três) às 14h. Concordou em guardar ali a mochila que trazia nas costas.

Era outono, fim de setembro, céu claro, clima frio mas suportável mesmo para um baiano. Resolvi explorar a pé os arredores.

Chegara há pouco, de trem, vindo de Berlim (Alemanha), onde havia fixado residência cinco semanas antes. Tinha visto germânico de pesquisador visitante da Freie Universität Berlin para um ano de pós-doutorado supervisionado por Ligia Chiappini, do Lateinamerika-Institut.

Havia pegado o trem às 5 da manhã na estação central (Hauptbanhholf) de Berlin, com traslado em Hamburg. De onde o trem partiu via  Puttgarden ao norte.

Para deixar a Alemanha dali e ingressar na Dinamarca, o trem embarca literalmente num ferryboat que atravessa o oceano Báltico.

Os passageiros são proibidos de permanecer nos vagões, tendo de subir às cabines do navio. Dali vislumbram as fortes ondas e oscilações marinhas. E, se querem, desfrutam das ofertas a bordo.

Feita a travessia regressam ao trem, que segue então viagem terrestre até o destino das pessoas, cada qual com seus silêncios, suas histórias particulares.

No caso deste escrevinhador, quis dar uma volta de vinte dias pela Escandinávia, esquadrinhando de trem as paisagens dinamarquesas. Depois a Noruega (em Oslo soou na gélida madrugada o alarme de incêndio do hostel) e, por fim, Suécia (Stockholm).

Eu estava na Dinamarca com particular interesse em visitar Helsingør, a cidade onde William Shakespeare ambientou a tragédia Hamlet. Ali estive, de fato, mirando o famoso castelo de Kronborg. Eco da frase hamletiana: “Há algo de podre na Dinamarca”.

O Castelo de Kronborg, em Elsinore, no qual Shakespeare teria ambientado Hamlet, Príncipe de Dinamarca.

Depois de a recepcionista do “Sleep-in-Green”, em Copenhagen, confirmar minha reserva, para matar o tempo até me instalar no hostel resolvi explorar a pé os arredores.

Saí da Ravnsborggade, peguei à direita uma avenida mais movimentada – Nørrebrogade – e, mais adiante, decidi entrar numa transversal. Dei de cara com um pub, se não falha a memória de nome “Ølbaren (bar das cervejas).

Parecia um típico ambiente dinamarquês, daqueles que ao chegar o sujeito recebe uma baforada de ar etílico misturado com tabaco.

Do lado de fora era dia, dentro a atmosfera era noir, como se noite fosse. Tanto que as luzes estavam acesas. Gentes se amontoavam pelo balcão e pelas mesas ao fundo. Tudo de madeira velha e untada.

Com jeito, encontrei uma nesga de espaço ao final do balcão, próximo aos sanitários. A algazarra era absoluta.

Na primeira oportunidade pedi uma caneca das grandes de Carlsberg, a cerveja do país. O garçom ou garçonete que me serviu aproveitou e serviu a si também, com uma dose de destilada.

Hábito comum em países nórdicos, incluindo a Alemanha: o ou a barman bebe ao mesmo tempo em que serve o freguês, sem admoestação de parte alguma.

Enquanto sorvia o líquido a seis ou oito graus, um sujeito ao meu lado no balcão puxou conversa – ou fui eu quem puxei. Além de mim, era o único negro no ambiente. Vestia-se de paletó alinhado, não lembro se de gravata.

Tenho ainda comigo o pedaço de papel no qual manuscreveu seus e-mail, telefone em Copenhagen e seu nome: Alex Diallo. Busco e vejo, pela Internet, que atualmente é um dos executivos da firma dinamarquesa Pristine Global Invest Ltd.

Mr. Diallo dividia comigo o pequeno espaço no balcão, enquanto mutuamente dizíamos como chegamos naquele país. Ele, imigrante de Costa do Marfim.

Membro das primeiras levas de africanos, paquistaneses e singaleses bem-vindos à Dinamarca. Isso foi há bastante tempo, quase 30 anos, quando o país tinha uma política de acolhimento a estrangeiros.

Com a ascensão ao poder de lideranças de partidos nacionalistas, a coisa mudou completamente. Para Alex Diallo, me disse, tudo bem, porque dominava o dinamarquês e estava integrado à comunidade.

Interior do Ølbaren

Nesse instante nossa conversa foi interrompida bruscamente. Do fundo do bar alguém sacudia com força, intermitentemente, o badalo de um sino de grosso metal dependurado – somente agora reparei – ao teto.

Os presentes batiam palmas, gritavam saudações ao homem que, enfim, largou o badalo e, sorridente, sentou-se de novo à sua mesa, acompanhado por outrem.

Passo contínuo os garçons entraram em polvorosa para servir aos clientes. Um deles veio a mim e perguntou aos berros: – “E você, o que vai ser?”.

Ante meu olhar de surpresa, Alex Diallo explicou: o cavalheiro do sino está comemorando alguma coisa.

Ao soar o badalo, significa que é por conta dele uma rodada de bebida, à escolha do freguês, para todos os presentes no bar.

Havia mais de trinta pessoas ali, desconhecidas do sujeito. Antigo hábito cultural, vindo do passado quando a escassez populacional permitia aos dinamarqueses esse tipo de cortesia.

Cada vez mais raro, prestes a se extinguir – constatava Diallo. A saudação de brinde “Skaal!” – pronuncia-se Skol! – equivalente à portuguesa “Saúde!“, invadiu o salão em festa.

 

 

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