SOU TOTALMENTE A FAVOR que Michel Temer (PMDB), vice no exercício constitucional do cargo de presidente da República com o impeachment de Dilma em 2016, seja processado pelos crimes de que o acusam os meliantes confessos Joesley e Wesley Batista (J&F).

A situação do país é tenebrosa, de mal a pior – dizem.

Essa é uma das narrativas em vigor sobre o Brasil desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT). Visa favorecer o discurso de campanha lulopetista – vide mais abaixo. Há controvérsia.

É a narrativa dos que, escapando dos efeitos do Mensalão em 2005, agora tiveram frustradas as pretensões de, como faz o chavismo neste momento num país vizinho, a Venezuela, manter por aqui um projeto político de poder sentenciado como criminoso pela Suprema Corte de Justiça (STF) em outubro de 2012.

Plenário da Câmara dos Deputados em Brasília, a que cabe decidir se autoriza processar Temer por crime de corrupção passiva

As propostas de reformas da Previdência Social e da caduca legislação trabalhista (a CLT de inspiração fascista) – em debate no Congresso Nacional – não são originárias do atual governante.

Dilma e seu mentor, Luís Inácio Lula da Silva, se bateram por isso longamente – resultando inclusive em defecções de importantes militantes, que foram defenestrados do partido por se oporem a isso a partir de o PT chegar ao poder em 2003.

Porém o Brasil não chegou onde está por exclusiva culpa desses um ano e quatro meses de Temer e sua quadrilha na Presidência.

A quadrilha anterior é a tributária do quadro sombrio descrito pela legião dos descontentes oficiais, autonomeados “esquerdistas”, seja lá o que isso hoje signifique.

Boa parte dos seus mentores e próceres – a exemplo de José Dirceu, de Antonio Palocci e de três tesoureiros do PT – está encarcerada. Condenada ou respondendo inúmeros processos em investigações da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal.

A quadrilha do PMDB, levada ao Palácio do Planalto pelas mãos de Lula e José Dirceu, junto a partidos da “base aliada”, foi, no projeto petista, fundamental na garantia da governabilidade lulista-dilmista entre 2002 a 2016.

Quando da crise do sistema financeiro, cujo epicentro foram os Estados Unidos da América em 2008, e que, como uma sucessão de ondas, foi derrubando a estabilidade econômica de países da Europa, da Ásia e do resto do mundo, como reagiu Nosso Líder à frente do Brasil?

Com bravatas, chegou a pregar lição de moral àquelas partes do planeta, “ensinando” que por aqui o tsunami era “marolinha”.

Em vez de tomar medidas para precaver o caos, jogou combustível no fogo – com políticas de isenção a setores industriais, facilitação a créditos bancários com juros altíssimos, estimulando o consumo desenfreado feito com o endividamento da população.

Intervindo na política de preços da maior estatal brasileira, a Petrobras, bem como de demais setores de energia, até as eleições de outubro de 2014 a propaganda do governo petista vendeu a seus eleitores um país cor de rosa, que ia muito bem. Basta buscar os discursos da Dilma Rousseff candidata.

Quem criticava a cegueira de tal visão era taxado de babaca, elitista, entreguista, imperialista, privatista, antissocial.

Quando foi enxotada do Planalto, Dilma entregou uma taxa de desemprego de 13% e inflação à beira dos 10% – algo não visto por brasileiros desde a metade dos anos 1990.

Bastou a China a partir de 2013 comprar menos commodities, bastaram os Estados Unidos e países europeus de líderes políticos responsáveis corrigirem seu balanço de pagamentos, seu orçamento e saneamento no mercado, recuperando-se em poucos anos, para então o desastre se apresentar aos brasileiros em toda sua crueza.

Milton Santos nos ensina algo sobre a crise atual: ele estudou o circuito informal da economia como dos mais dinâmicos em sociedades em desenvolvimento e subdesenvolvidas

Contudo, não há nenhuma novidade nisso para a maioria da população brasileira. Como herança do escravismo colonial, do comportamento perdulário dos poderosos que governam – sejam os que se declaram de “direita”, de “esquerda” ou de “centro” -, a tenebrosidade tira o sono de quem?

Daqueles que narram, acostumados a privilégios institucionais: de classe, de sangue, de suposta “brancura” de fino trato.

Sempre relegada à sua má sorte, a maioria do povo enfrenta esse momento como historicamente no passado enfrentou coisas iguais e até piores.

Aqui é bom emular o intelectual e geógrafo Milton Santos.

Em seu clássico estudo sobre os circuitos da economia em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. A chamada crise atinge são os setores atrelados ao circuito formal da economia.

A burguesia e a pequena burguesia chiam. Lamentam a perda de benesses corporativas.

Os pobres, ora, esses continuarão sobrevivendo de um jeito ou de outro. Até a mão armada, se calhar. Com ou sem Temer; com ou sem Lula; com ou sem governo.

Em países como o Brasil, principalmente em seus grandes centros urbanos empobrecidos, a dinâmica da ocupação da produtividade é dada pelos setores desvinculados, isto é, aqueles que formam o circuito informal da economia.

É aí que está o vigor: onde o dinheiro circula e se reproduz. Parte inclusive ingressando no setor formal.

  • QUERO TEMER processado. E sou totalmente a favor que Luiz Inácio Lula da Silva, já condenado em primeira instância pelo juiz Sergio Moro por um dos crimes de que o acusam outros meliantes donos de empreiteiras, tenha revista na segunda instância sua condenação e possa concorrer à Presidência da República em 2018 como candidato do Partido dos Trabalhadores (PT).

O juiz que condenou Lula e é acusado pelas “isquerdas” de atuar como “fantoche do imperialismo ianque”

Cedo ou tarde Temer será levado a julgamento. Provavelmente não nos próximos meses, mas depois que for afastado da chefia do governo.

O PT de Lula  foi julgado nas eleições municipais nacionais de 2016. Tomou uma surra dos eleitores. Perdeu feio, encolhendo sua influência sobre o comando das prefeituras país a dentro.

Dos 27 Estados que formam o conjunto da nação, incluso o Distrito Federal, Lula chegará ao pleito de 2018 tendo o PT mandando nos governos de apenas 5.

Todos localizados na parte superior do mapa – onde se concentra a maior clientela do partido, a maior parcela da pobreza e do semianalfabetismo nacionais.

Governantes em fim de mandato e alguns, como Fernando Pimentel (Operação Acrônimo), ou mesmo Rui Costa (Operação Lava Jato), às voltas com sua sobrevivência política e com indiciamentos e processos judiciais por corrupção e lavagem de dinheiro.

Minas Gerais (total de 13,6 milhões de eleitores), Bahia (9,1 milhões), Ceará (5,3 milhões), Piauí (2 milhões) e Acre (412 mil). Em 2016 o total de eleitores do país beirava os 130 milhões.

É por esses rincões da região nordeste que Lula, ele mesmo um nordestino filho da pobreza, inicia na próxima semana o que o partido denomina de “Caravana da Esperança”.

É o primeiro pré-candidato a pegar a estrada, em sua pregação de santo guerreiro contra o dragão da maldade. Cômico, não fosse trágico.

Gráfico: reprodução de O E$pírito das Leis: Volume de financiamento privado – pessoas físicas, pessoas jurídicas e autofinanciamento de candidatos – de partidos selecionados nas eleições de 1994 a 2014

Que o PT não tenha nenhum outro nome competitivo em suas fileiras força essa sigla buscar assustar os adversários com um espectro ambulante.

Isso diz muito sobre um partido que em mais de 30 anos não conseguiu construir qualquer outra liderança, sobrevivendo assim do personalismo de um homem só.

Como procura demonstrar o artigo “Porque vocês não sabem o lixo ocidental”, de Bruno Carazza em seu blog O E$pírito das Leis, [clique para ler] em termos de financiamento esse partido se vendeu aos interesses dos grandes bancos e empreiteiras, com o tempo se assemelhando cada vez mais aos partidos que diz ser da “zelite” (corruptela: das elites).

Por 13 anos, até 2016, dirigiu a República e outros tantos Estados e municípios. Mas tem de cultuar unicamente seu líder maior, expurgando qualquer ameaça interna.

Líder condenado a mais de 9 anos de prisão, numa sentença que cassa seus direitos políticos e bloqueia até o momento quase R$ 10 milhões em contas registradas em seu nome. Há outras, com mais dinheiro de propinas que recebeu, pelo que denuncia o MPF.

  • O PT é dos 35 partidos políticos registrados na Justiça Eleitoral o que mais recebe e recebeu dinheiro e mantém-se, nos últimos anos, campeão de destinatário mensal do chamado Fundo Partidário, previsto em lei federal.

Apenas de janeiro a julho deste 2017 o PT arrematou desse fundo pago pela sociedade mais de R$ 41 milhões (US$ 13 milhões).

No mesmo período o PSDB, sigla polarizadora do petismo, ficou com em torno de R$ 35 milhões, o PMDB R$ 34 milhões e o DEM, que assumirá a Presidência se Temer for derrubado, amealhou pouco mais de R$ 13 milhões (PP, PSC, PSB beliscam muito mais: veja).

Anuncia o PT que será com esses recursos que bancará o périplo de Lula. A urgência com que age é necessária. Pretende, com a cobertura midiática e a mobilização de militantes e eleitores fiéis, influenciar o julgamento em segunda instância dos recursos de sua defesa à sentença de Sergio Moro.

Independente do resultado da caravana, os desembargadores em Porto Alegre e mesmo, a seguir, o STJ e o Superior Tribunal Eleitoral em Brasília deveriam permitir que Lula disputasse – sem prejuízo de pagar as multas impostas pela condenação.

Lula tem dinheiro pessoal, como se viu nos bloqueios bancários autorizados por Moro, para arcar com os R$ 10 milhões estipulados para devolver aos cofres públicos.

Por hoje o que se pode afirmar é que dificilmente ganhe as eleições. Depois de amargar três derrotas sucessivas (para Collor e para Fernando Henrique Cardoso), teve de se aliançar com a excrescência dos coronéis da política, dando sobrevida a esses. Alguns deles até poderão ainda se amasiar a Lula, por seu carisma.

Isso não será suficiente para ampliar os 29% de preferência eleitoral que conta na opinião pública. Lula também é campeão da rejeição dos eleitores entre os pré-candidatos, batendo os 45%.

Eleição se dá no município. Dos mais de 5.000 municípios no país, o PMDB lidera com folga – elegeu em 2016 1.027 prefeitos, contra 792 do PSDB (seu atual aliado). O PT, apenas 256, despencando seu desempenho em relação à eleição de 2012, quando havia elegido 638 prefeitos.

Com Marcelo e Emílio Odebrecht tornozelados pelo juiz Sergio Moro, com Palocci, Dirceu, Mantega e outros caciques petistas encarcerados ou prestes, sem Joesley Batista, sem Eike Batista, sem o capilar PMDB de Temer ao seu lado como nos recentes anos, o mito Lula poderá ser enterrado nas urnas.

Ou não – como ensina Caetano Veloso. É bom para o país, portanto, fazer o teste.

 

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