EM OUTUBRO teremos eleição para a terceira maior e mais antiga capital do país. Fundada pelo emissário de El Rei em 1549, jamais foi governada por um gay. Ou uma lésbica.

Ao menos assumidamente gay ou lésbica, esclareço, porque não nasci ontem.

O então prefeito de Berlin, Klaus Wowereit (à esq.) , posa ao lado do parceiro Jörn Kubicki, em foto de Rainer Jensen

O então prefeito de Berlin, Klaus Wowereit (à dir.), posa ao lado do parceiro Jörn Kubicki, em foto de Rainer Jensen

Por diversas ocasiões este escriba tem publicamente defendido a tese de que Salvador precisa de um(a) prefeito(a) abertamente gay à testa da administração.

Seja em sala de aula – ministro na graduação disciplinas com temas políticos da atualidade -, seja em outras ocasiões de debates menos formais: há tempos reivindico que esta cidade merece a oportunidade que teve Berlin.

Residi na capital da Bundesrepublik Deutschland (República Alemã) por um ano até meados de 2009, quando seu prefeito era Klauss Wowereit, um político sério e bem avaliado pela população.

Eleito pela primeira vez em 2001, os eleitores berlinenses o reelegeram por mandatos consecutivos até sua saída em 2014. Ele costumava aparecer em cerimônias públicas ao lado do parceiro, um neurocirurgião. Vivem juntos desde 1993.

Berlin se tornou uma cidade atraente, colorida, de fácil mobilidade pública, segura e das mais baratas das capitais europeias, atraindo assim um fluxo de criatividade, investimento e movimentos culturais frenético.

Como cidade-Estado, entretanto, comparativamente era uma das unidades mais empobrecidos da República. O prefeito vivia pedindo ajuda financeira à federação, que evidentemente lhe negava. Uma de suas famosas frases foi: “Berlin é pobre, mas é sexy”.

Este poderia ser o bordão de um(a) candidato(a) gay nas eleições de outubro em Salvador, que é pobre mas é sexy.

Qual máquina partidária de peso, isto é, com chances de bancar uma campanha vitoriosa nas urnas, ousaria?

A capital baiana já elegeu uma mulher, ainda não elegeu um negro – e o ideal seria ver a candidatura de um bom candidato ou boa candidata abertamente homossexual que encarnasse também a negritude.

Por que Salvador merece a chance de ser governada por um gay politicamente capacitado para gerir a cidade? Simplesmente porque a cidade precisa romper com o ar de conservadorismo patriarcal que emana nas esferas da politica local há séculos.

Marcelo Cerqueira (esq.) ao lado de seu ex-parceiro Luiz Mott, do importante Grupo Gay da Bahia

Marcelo Cerqueira (à dir.) ao lado de seu ex-parceiro Luiz Mott, do importante Grupo Gay da Bahia

Um gestor gay, por natureza, teria maior abertura e sensibilidade perante os dilemas, assimetrias e estagnação econômica que paralisa a cidade entre março e outubro de todos os anos, quando o dinheiro desaparece.

Cidade sazonal, na dependência do turismo que se esvai para capitais mais ao norte, Salvador precisa ser sacudida por uma gestão representativa da alegria contagiante de seu povo.

Uma administração com os tons do arco-íris é o que esta capital precisa vivenciar: mais dinamismo, mais inclusão festiva, menos caretice.

ISSO NÃO QUER DIZER PORRALOUQUICE. As experiências pelo mundo afora de metrópoles administradas por gays, não apenas Berlin, asseveram que ser gay ou não pouco importa. O que importa é a visão profissional do negócio que é gerir um município falido.

Acabo de ser sondado pelo presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, para ajudar na organização de uma das atividades da 15ª Parada LGBT, que ocorre em Salvador de 4 a 11 de setembro próximo.

Marcelo Cerqueira, sem favor e sem libertinagem, seria um desses alguns nomes bons para governar uma das cidades mais gays do hemisfério sul do planeta. Potencializando, assim, sua vocação para ganhos econômicos e sociais a ser compartilhados por todos os munícipes.

Ou seja, eleger um(a) prefeito(a) que há tempos saiu do armário poderia ser um imperativo para ajudar a cidade a sair da mesmice e do buraco. E dar orgulho não somente retórico, mas material.

 

 

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