EM LONDRES POR MEIA DÚZIA de dias. Principalmente para participar, a convite de Bernd Reiter, da University of South Florida, Tampa (Estados Unidos), do 12° Congresso Internacional da BRASA – Brazilian Studies Association, em colaboração com o prestigioso King´s College London.

Tenho a grata satisfação de dividir a mesa com um grupo de scholars estrangeiros preocupados com a atual situação da Bahia. Plateia idem, com alguns brasileiros.

Mesa no XII Congresso da Brasa, tendo ao centro B. Reiter e com a participação especial de Mel Jesus Conceição em meu colo (foto de Danila de Jesus).

Mesa no XII Congresso da Brasa, tendo ao centro B. Reiter e com a participação especial de Mel Jesus Conceição em meu colo (foto:Danila de Jesus)

Reiter, registre-se, acaba de organizar com Ulrich Oslender livro a sair no primeiro semestre de 2015 nos U.S. e no Reino Unido pela Michigan State University Press, com capítulo de autoria deste escrevinhador que comete essas maltraçadas.

Alemão há mais de década conhecedor da realidade baiana, apresenta, com novos insights, a tese de que o ideário intelectual europeu construiu, em pesquisas várias, uma visão edulcorada das relações sociais na Bahia à qual desconhece fatores de raça, classe e gênero que subalternizam a negritude local.

Concluiu com uma citação de James Baldwin, escritor outsider (negro e viado, relembro eu) dos mais comprometidos: “The freedom only come with the justice” [A liberdade só existe com a justiça].

Foi interessante escutar Anadelia Roma, da Universidade do Texas, na análise que faz das imagens sobre os baianos – principalmente das matrizes culturais afrobaianas – presentes em guias de turismo a partir de 1928.

O austríaco Zweig foi um dos europeus que pintou con tintas pitorescas a Bahia e sua gente

O austríaco Zweig (1881-1942) foi um dos europeus que pintou com tintas pitorescas a Bahia e sua gente

Ela reafirma o que Maria Brandão (lembrei eu) já disse: a noção de uma “baianidade” é vendida no exterior desde os anos 1930, pelo menos. Jorge Amado, Roma cita – e poderia acrescentar Carmen Miranda e um dos seus mentores, Dorival Caymmi, quem mais propagou de forma nefasta a suposta “preguiça” nativa. O moderador Scott Ickes, de Minessota, esteve particularmente interessado no tema.

TITULEI MINHA abordagem de “Bahia contemporânea: do pitoresco ao perverso”.  Um Nina Rodrigues, embora atualizado por Artur Ramos, ou um Stefan Zweig – e Pierre Verger? e Antonio Risério? – propalam sobre os negros e sobre a sociedade baiana imagens que fazem de sua capital uma suposta “Meca Negra”, como enfatiza o nome do painel organizado por Reiter e Ickes nesse Brasa.

Leio release da Secult/Bahia papagaiando, como convém aos seus dirigentes, que realiza até setembro (vésperas de eleições decisivas) com a Secretaria do Engodo Governamental, também chamada de Sepromi, ciclo de blablablás para tutela dos terreiros de candomblé. Risível, ridículo: porco.

Recorro a trabalhos como “Vidas perdidas e racismo no Brasil” (2013), de Daniel Cerqueira (Ipea) e Rodrigo Moura (FGV) para demonstrar o paradoxo que é a imagem de encantos e o grau de violência ao qual a pequena elite de mando mantém em rédeas curtas os afrodescendentes.

Em 2010 o Mapa da Violência computou, em dados oficiais, 5.069 afrodescendentes vítimas de mortes violentas na Bahia. Um aumento de 300% em comparação com dados de 2002, quando o Estado pertencia ao carlismo.

Pior: aquela mesma elite de mando – e pior ainda, a elite de mando incrustada em postos-chaves em nossa Universidade – não se comove. Silencia, porque – digo eu – cúmplice.

Nos mesmos Estados Unidos desses que dividem a mesa comigo, o assassinato de um único negro há algumas semanas põe o país em polvorosa. O presidente da República se pronuncia, as redes midiáticas mundiais empreendem extensa cobertura.

No Brasil, de forma cínica “especialistas”, editorialistas, colunistas da mídia impressa e emissoras de TV brasileiros, se mostram comovidos. Pontificam com o dedo na ferida no racismo do país lá do norte da América (12% de negros).

Ficamos rubros ao saber que 1/4 da população carcerária estadunidense é de jovens negros. Besteira. Aqui os governantes e seus áulicos, incluindo os “intelectuais” orgânicos parceiros, resolvem esse problema aceitando que matem esses jovens antes.

Cá nesse país do sul (56% de não brancos), disfarça que não é conosco. Afinal, what you talkilg about? A sanidade, o sangue e a carne negra aqui valem menos que lixo. Na Universidade Federal da Bahia, por exemplo, há um programa de pós-graduação que trata de “segurança pública”! Silêncio.

Jamais haverá governança de negros(as) eleitos em sua Reitoria, nem negros pró-reitores – e os que aí chegarem será por terem se tornado cinzentos, sabe-se lá ao custo de quais dramas psíquicos.

Governadores negros, prefeitos negros nessa terra? Que partidos políticos considerarão a sério tal hipótese? Negros (eles ou elas, como dizem os tolos) sequer prestam para diretores de faculdades as mais chifrins. Ou para jornalistas na linha de frente do nosso telejornalismo bocó, incompetente, insosso e alienado.

Sobre a Marcha Internacional de denúncia ao genocídio tive de falar ao público presente na sala do King´s College.

Para dizer que somente o esforço radical de movimentos sociais boicotados pelos poderosos de plantão, a exemplo da campanha “Reaja ou Será Morta/Reaja ou Será Morto“, sem provocar a ira dos bem-nascidos, tenta denunciar o padrão da chacina do Estado brasileiro contra os negros. Violência física. Mental. A eliminar talentos, competências e sonhos.

 

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