MENTE CATIVA, do escritor polaco Czeslaw Milosz, vem a calhar – a propósito da impostura intelectual da revisão que agora se faz dos episódios que mergulharam o país nas sombras em 31 de março de 1964. Assunto que estou tratando com meus alunos universitários na disciplina Comunicação e Atualidade.

Na juventude secundarista, meados da década de 70, ainda tomei conhecimento e, ao final, paguei na pele o clima de amedrontamento da ditadura militar. E, ao lado de outros jovens ativistas comunitários, participamos do processo para sua derrota nos anos 80. Até mesmo escrevendo em jornais sobre o assunto.

Clique na imagem para ler o artigo, assinado por este escrevinhador, sobre a luta pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República, publicado no jornal A Tarde em

Clique na imagem para ler o artigo crítico, assinado por este escrevinhador, sobre a luta pelo retorno das eleições diretas para a Presidência da República, publicado no jornal A Tarde em 22 de agosto de 1984.

A efeméride dos 50 anos do golpe militar que tomou o poder no Brasil das mãos de João Goulart (Jango), vice e então no exercício de Presidente da República depois da trapalhada do renunciante Jânio Quadros, enseja mil debates por aí afora.

Inclusive na capital baiana. No âmbito acadêmico e governamental, como se vê pela programação da Secretaria de Cultura do governo petista, vamos descer o sarrafo nos que, à força, levaram Jango a fugir para o exílio no Uruguai. Implantando uma ditadura militar que durou até 1985.

Mas se queremos construir uma democracia de verdade, seria interessante que nas inúmeras mesas de debates, congressos e seminários, ouvíssemos o chamado “outro lado”. Isto é, a voz dissidente dos que têm visão distinta sobre os que deram o golpe vitorioso.

Falam os que, àquela época, foram derrotados. Ou os que somente leem a história de forma maniqueísta. Esses se dizem “amantes” da democracia, paladinos contra a ditadura que perdurou 21 anos. Será?

Naquele contexto de auge da “guerra fria”, os extremos – à direita e à esquerda – acuaram Jango. Este, pelo que se lê na ampla bibliografia insuspeita à disposição, ao estilo nacionalista do populismo de esquerda, se encontrava num mato sem cachorro naquele março de 64.

Seu governo seria golpeado por um extremo ou outro. O centro-direita colocou os tanques do Exército nas ruas, antecipando-se aos adversários. Que, para espanto geral, não ofereceram resistência. Jango caiu sem que, a rigor, se disparasse um único tiro.

A esquerda, sempre dividida em grupelhos, teria superestimado sua força – inclusive de mobilização popular. Alguns dos seus líderes, adeptos da luta armada, mais tarde sofreriam nas mãos da linha dura do aparato militar. Mas necessariamente não por amor à democracia, como dizem, por exemplo, do baiano Carlos Marighella.

Hoje à frente da República, parte dessa esquerda – cujo projeto de poder em 64 era não menos autoritário que o dos que a derrotou no período – difunde a mistificação de democrática. E que o demônio são os outros.

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