ssebastiaoDe passagem por São Paulo (a produção da biografia do geógrafo Milton Santos ainda me exigirá muita sola de sapato e grana) confiro “Genesis“, exposição no Sesc/Belenzinho de 245 fotografias de Sebastião Salgado, patrocinada pela companhia Vale. O livro, com mais do dobro das fotos, sai por R$ 150,00 nas livrarias.

Para mim Salgado, excelente, permanece controverso. Na linha de Pierre Verger. Explora, com estética e sensibilidade no olhar, o voyerismo pelo exotismo de gente curiosa por “selvagens” (povos ou animais) e lugares distantes. Provoca ohs! e ahs!, viciando a inércia. O voyer “civilizado” e urbano, incluindo o fotógrafo e a minha avó, morreria de tédio ou doença se forçado a viver no cotidiano das paisagens de Sebastião.

*

ReajaA Polícia Militar do governador Jaques Wagner/Otto Alencar é das mais mortíferas do planeta. Nem durante o tempo do reinado de Antonio Carlos Magalhães provocava tanto medo quanto na dinastia saco de gatos do PT no governo da Bahia.

Soube agora que tenta intimidar, com ameaças, o ativista social e acadêmico de Direito Hamilton Borges Walê, figura de proa na defesa dos direitos humanos na Bahia, com o Movimento Reaja ou Será Morta/Reaja ou Será Morto.

Na noite da última segunda, 30/09/13, um grupo da PM quis invadir a casa onde Hamilton vive com sua família. O ativista contestou a ação. Ilegalidade total devido ao horário, pela ausência de mandado judicial nem causa determinada flagrante que justificasse a ação truculenta e arbitrária. Apontaram-lhe armas. Hamilton me diz ao telefone que deu as costas, fechou seu portão e sua porta e foi proteger seu filhinho pequeno nos fundos de casa.

Que o Reaja, de notoriedade nacional e internacional, esteja incomodando determinados setores incrustados na instituição policial, é a razão primeva da tentativa de intimidação a seus coordenadores. O governo Wagner tem algo a dizer quanto a isso? E a Assembléia Legislativa, os secretários de Justiça, de Segurança Pública e da Promoção da Igualdade Racial – vão agir para garantir a integridade física de Hamilton Borges e dos seus?

*

Leio nos jornais brasileiros as desculpas esfarrapadas da ministra da Cultura Marta Suplicy, tentando justificar porque não há escritores negros brasileiros representados na delegação oficial que estamos pagando na Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha), a maior em importância do mundo, que neste 2013 homenageia o Brasil.

Isto porque a imprensa alemã, por um de seus mais importantes jornais, Süddeutsche Zeitung, está descendo o cacete. Mete o dedo na ferida: o racismo brasileiro é a causa de tal ausência. Suplicy tem de fazer contorcionismo verbal para negar o óbvio. Que papelão!

Luiza-Bairros SEPPIRNão foi por falta de alerta. Em julho de 2012, na mesma Frankfurt, discutimos  pessoalmente o assunto com um ministro da importante representação diplomática brasileira na Alemanha, que nos recebeu na cidade. E nos confessou o viés elitista da lista de autores confeccionada pelo Minc, a partir de preferências de caciques da Fundação Biblioteca Nacional. Possivelmente atendendo interesses do mercado das grandes editoras, como se viu.

Dias depois ao papo com o ministro do consulado em Frankfurt, dirigi mensagem pessoal à ministra Luiza Bairros, da Seppir, para gestionar com o Minc no sentido de assegurar a presença de escritores de pele negra na Feira.

Muitos, por esse Brasil afora, os há. Criando e produzindo uma literatura vincada em sua experiência histórica. De qualidade. Mas com espaço ridículo naquele mesmo mercado editorial comandado por um fechado oligopólio, macomunado com resenhistas dos grandes veículos de comunicação.

Alguém se incomodou ou se incomoda? O racismo resiste nas instituições públicas do Brasil como um câncer, parodiando o papa… Os alemães não são bobos e já perceberam isso há tempos, coisa que por aqui finge-se não perceber.

*

Garotas iranianas em trajes coloridos e cabelos discretamente à mostra (foto D.de Jesus)

Garotas iranianas em trajes coloridos e cabelos discretamente à mostra (foto D.de Jesus)

teeran3

O correspondente da FSP e Danila de Jesus no mercado central de Tehran, junho de 2012.

Alvíssaras! O assunto de geopolítica global mais importante desta primavera (no sul; outono no norte) sem sombra de dúvidas é a operação diplomática de reaproximação do Iran com os Estados Unidos da América.

Na viagem ao redor do planeta que Danila de Jesus e eu fizemos ano passado, se casados ainda não fôssemos escolheria uma de duas cidades para tentar a vida: Tokyo ou Tehran. Nesta chegamos quando Israel ameaçava atacar o Iran, acusado de tentar produzir uma bomba atômica.

A capital da antiga e culta civilização persa tem uma gente receptiva, altruísta e dinâmica. O Iran, mesmo uma República Islâmica xiita desde a transformadora revolução de 1979, nos pareceu uma sociedade jovial e aberta. Ainda que culturalmente distinta.

Bela e importante, acrescente-se. Distinta num mundo dinástico árabe, boa parte sunita e autocrática.

Ok, música em público é proibido, mulheres em geral sentam-se separadamente na parte de trás dos ônibus e o consumo de bebidas alcoólicas está vetado. Oficialmente não há homossexualidade. Mas nada disso é assim, tão preto-no-branco.

Pequenas transgressões são toleradas, assim como protestos. Contudo, enforca-se em praça pública, como exemplo, traficantes e outros fora-da-lei. Os mensaleiros brasileiros estariam fritos sob as regras iranianas.

Samy Adighirni mostra-nos peças do palácio onde reinou o deposto Xá Reza Pahlevi, transformo em museu

Samy Adighirni mostra-nos peças do palácio onde reinou o deposto Xá Reza Pahlevi, transformado em museu pela revolução de 1979

Fora do roteiro de brasileiros, ainda mais um casal negro, nos cinco dias em que ali percorremos os lugares, mercados, parques, templos e museus, foi possível desfazer preconceitos quanto ao seu projeto político e comportamental.

Estivemos recepcionados pelo correspondente da Folha de S. Paulo em Tehran, Samy Adighirni. Que nos segredou o charme sutil das gentes iranianas. Aguçando, afora estar apaixonado e descartando Tokyo, meu interesse de regressar ali mais cedo na próxima encarnação.

teeran4

Senhoras caminham em ruas de Tehran, observadas por uma afrobrasileira

A gerência do hotel no qual nos hospedamos, único na imensa capital que aceitava euro (única moeda estrangeira possível) e cartão de crédito internacional, resolveu nos ofertar um lauto jantar, em nossa noite de despedida. Da boa culinária iraniana. Para o qual Adighirni foi convidado.

Do restaurante, no terraço do hotel em zona nobre, vislumbramos a luminosidade do céu noturno de Tehran, cidade cercada pela cadeia de montanhas da cordilheira Alburz.

Allá Al Akbar! Alá Al Akbar, Barack Obama, Hassan Ruhani, Ali Khamenei! A sociedade iraniana merece ser reintegrada e respeitada pelo Ocidente. E ao menos por enquanto uma guerra de dimensões imprevisíveis fica adiada.

Anúncios