É perceptível a “orfandade” de quem busca informação isenta, pluralista e de qualidade nos meios de comunicação jornalística na Bahia, Estado com população de 14.175.341 habitantes (IBGE, 2012). Ainda que de tanta gente, mais da metade acima de 15 anos de idade, isto é, 52%, permaneça analfabeta (18,5%) ou funcionalmente analfabeta (34%). Dado pornográfico por si só, que tornaria condenável qualquer governante menos cínico.

A qualidade da mídia jornalística na Bahia, também o quarto maior colégio eleitoral do Brasil, com quase 10 milhões e 200 mil eleitores, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (TSE, 2012), tem piorado a olhos vistos e ouvidos escutados. Ano após ano, desde que este escrevinhador se entende como gente (fim da década de 1970 para cá). Na democracia, é impossível escolher bem sem ser bem informado. A má qualidade informativa é péssimo para a democracia. Ruim para toda a sociedade, que se torna refém, desprotegida dos desmandos das elites de poder econômico, político, religioso, militar.

Tem repercutido a publicação sobre a situação da mídia noticiosa 2013, relatório anual do Pew Research Center, do qual aqui tomamos de empréstimo o conceito de “orfandade”. O relatório vem sendo publicado desde 2004 por essa organização não-governamental e não-partidária mantida por The Pew Charitable Trusts. Por sua vez, essa é uma instituição que se declara independente e sem fins lucrativos, fundada em 1948 por herdeiros de Joseph Newton Pew (1848-1912), magnata da indústria de derivados de petróleo, óleos combustíveis e lubrificantes.

Órfão está quem busca informação de qualidade na terceira mais populosa capital do Brasil, Salvador. Aliás onde existe apenas 3 jornais impressos diários: A Tarde, o mais antigo, Correio, o mais suspeitoso, e Tribuna da Bahia, o mais dissimulado.

Jornais? Raquíticos em tiragem (somando, os três não vendem 100 mil exemplares), indigentes em circulação (nenhum cobre sequer metade do território estadual), subnutridos em noticiário. Pegue-se hoje em dia qualquer edição de A Tarde, veículo caro à mentalidade dos habitués na leitura de jornais: é vergonhoso no que seus responsáveis estão transformando sua memória.

Assim é o atual padrão do noticiário da TV e do rádio locais, a maioria com departamentos de jornalismo esquálidos. As redações se transformaram em ambientes anódinos, onde se explora o trabalho de gente semi-analfabeta, considerável parte “estagiária” escravizada como se já profissionais formados.

E AS ESCOLAS DE JORNALISMO, FAZEM O QUE?

É aqui que entra a irresponsabilidade da política de formação de jornalistas no país. Na Bahia, por exemplo, que papel têm desempenhado nesse quadro os cursos e as faculdades que ofertam a habilitação em Jornalismo?

Se até 1998 Jornalismo somente era possível cursar na Universidade Federal, em Salvador, em 2012 o Ministério da Educação tinha cadastradas no Estado 13 instituições que ofertavam essa habilitação, 9 outras que ofertavam Comunicação com Jornalismo, e uma última Comunicação e Jornalismo Multimeios. 29 instituições ofertam hoje algum tipo de habilitação genérica (bacharelado?) em Comunicação Social na Bahia, esmagadora maioria privada e particulares.

Haveria tantos “professores” qualificados, na capital e por todo o interior, para prover esse boom do mercado estudantil em jornalismo? Esses cursos e faculdades possuem as condições necessárias – com laboratórios, equipamentos, produtos experimentais, acompanhamento dos egressos etc – de funcionamento? O mercado formado pelas empresas tradicionais de produção e tratamento noticiosos, teria como absorver a mão-de-obra que sai a cada ano dessas escolas?

A resposta a essas perguntas é um rotundo não!

E curioso é constatar a mudez da mais importante Faculdade de Comunicação da Bahia, a Facom/UFBA. Que bem poderia encetar um debate profundo sobre a crise no jornalismo baiano. Crise que talvez seja consequência da crise de identidade (praticar jornalismo ou odiar jornalismo? – eis a questão…) dos próprios cursos de jornalismo, já considerados descartáveis em julgamento histórico do Supremo Tribunal Federal.

Descartáveis seríamos também nós, os professores desses cursos? Assim como os sindicatos de jornalismo e, mais paroquiano ainda, a esclerosada Associação Bahiana (assim mesmo, com “h”) de Imprensa?

Que contribuição a chamada “academia” pode dar a esse debate? Se é que pode dar alguma, além de encantar-se com o próprio umbigo e ficar bajulando donos de rádios, TVs e jornais com projetinhos voluntaristas e submissos.

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