Neto, me dá um beijo na boca?

Casarios do Centro Histórico abandonado pela incúria e burrice administrativas de sucessivos governantes

Casarios do Centro Histórico abandonados pela incúria e burrice administrativas de sucessivos governantes; nas chuvas, derretem e matam pessoas

CAETANO VELOSO tem uma música de 1982, das minhas prediletas de sua profusa verve. Num trecho, canta:

“A mim me bastava que o prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia/ Esse feito afetaria toda a gente da Terra/ E nós veríamos nascer uma paz quente, os filhos da Guerra Fria…”

Na mesma canção ele sentencia que “política é o fim!”. Ao criticar o abandono da capital na gestão compartilhada do prefeito Fernando José (1989-1992), o compositor viu sua residência no bairro de Ondina atacada a tiros de bala numa madrugada.

Atentado até hoje não plenamente esclarecido pelos políticos que mandavam e desmandavam na cidade à época (Pedro Irujo e Mário Kértèsz). Aos quais o cantor, sem citar nomes, dirigiu críticas em jornais e shows. Depois disso deixou de ter endereço fixo nesta cidade, residindo em definitivo no Rio.

Hoje os tempos são outros. O que não significa ter Salvador, terceira maior capital do país, saído do buraco. Literalmente.

Abrindo parênteses, essa música de Caetano – “Ele me deu um beijo na boca” [clique para ouvir] – bem que poderia inspirar o apaziguamento de Leandro Colling, Luiz Mott e Marcelo Cerqueira, ativistas da causa homossexual.

Foto do GGB clicada na Parada do Orgulho Gay ano passado

Foto do GGB clicada na Parada do Orgulho Gay ano passado

É que o primeiro, intelectual da chamada cena queer, está à frente de um evento internacional agendado para 4 a 7 de setembro. A coisa vai ser retumbante.

A musa inspiradora das teorias de que gêneros masculino e feminino são uma criação cultural dos opressores, a estadunidense Judith Butler, falará no palco principal do Teatro Castro Alves.

Uma atividade prevista é a performance denominada “Cu é lindo”. Sei não, resmungaria um amigo de mente aberta que fiz em Lisboa recentemente. De minha parte, que li Sade na adolescência como fez Aninha Franco, pode ser e pode não ser. Há controvérsia.

O evento de Colling se anuncia de pleno êxito, com mais de 1.500 inscritos de várias partes do Brasil e do planeta. Parece que foi programado para coincidir com a Parada do Orgulho Gay, “que seria realizada no domingo do evento, [mas] foi adiada, por seus realizadores”, acaba de publicamente declarar Colling. 

Butler: gênero é opção cultural e não destino biológico às vezes contrariado por genes egoístas

Butler: gênero é opção cultural, não destino biológico às vezes contrariado por genes egoístas

Entretanto a data da Parada, pelo que se lê no guiagaysalvador, desde o ano passado teria sido combinada para o domingo, 13. Colling e Mott, ambos acadêmicos de respeito na Universidade Federal da Bahia, há tempos não se bicam. Pior, não se beijam. Cadê o fair play e o humor nessa hora?

Ou os organizadores da Parada festivo-carnavalesca, à frente o Grupo Gay da Bahia de Mott-Cerqueira, resolveram murchar a atividade do adversário, ou Colling é que está querendo briga com o GGB, ao declarar uma data que sabia não verdadeira. Fecha.

Dar um jeito na Cidade da Bahia, das primeiras experiências europeias de uma urbe nos trópicos, não deve ser coisa muito fácil. Mas assumir o seu comando fascina, tem os seus encantos, como mostra o interesse nas disputas eleitorais.

Hoje Salvador, que o poeta Gregório de Mattos chamou “Triste Bahia, ó quão dessemelhante!”, tem em ACM Neto um prefeito ativo. Melhor do que muitas dos seus anteriores, sua administração tenta acertar, com todas as circunstâncias adversas. Até aí, é sua obrigação.

Contudo, andar pela cidade faz com que o citadino conclua: muito do que ACM Neto anuncia não passa de deslavada mentira. A melhora do sistema de transportes públicos. A sinalização horizontal das calçadas. Tudo propaganda para ganhar ibope. Se colar, um próximo mandato ano que vem. Que o projetaria a almejar o governo do Estado em 2018.

A cidade continua emporcalhada. Nem se fale da periferia. As calçadas cheias de buracos, cheias de barreiras. Um risco para o pedestre comum, imagine aquele que precisa de acessibilidade especial.

Infestada de ratazanas, mosquitos e sujidades a céu aberto. Surtos epidêmicos de doenças viraram coloquialidade. Como a indigência, os vendedores ambulantes e pregadores evangélicos nos coletivos não respeitam de quem tem o direito de não ser importunado nos coletivos.

Fiz uma experiência, com uma embalagem que precisava descartar. Em zona central e nobre da cidade, do lado esquerdo do passeio entre a Praça Dois de Julho (Campo Grande) e o Corredor da Vitória, anda-se mais de meio quilômetro até se encontrar uma única lixeira pública.

Aliás, bancas de guloseimas, frutas e publicações usam o espaço das calçadas como se este fosse dos seus proprietários. Que deve ser gente de costas quentes, pois o poder público nada faz para devolver o passeio aos pedestres livremente.

Outro problema simples e grave, que depõe contra o suposto zelo de ACM Neto: o do serviço de ônibus, que permanece miserável. Nem se fale da brutalidade e deseducação dos motoristas, que fazem o que querem, param ou não nas paradas obrigatórias a seu bel-prazer, transportam as pessoas como se essas fossem pior do que gado.

Aspecto de atrações turísticas que distinguem a capital baiana

Aspecto de atrações turísticas negligenciadas pelo município

A terceira maior capital, que se quer atrativo turístico internacional – não é piada! – não disponibiliza em terminais ou pontos de ônibus nem os itinerários nem os horários, com intervalos, das linhas.

Tente saber disso mesmo no terminal chamado de Praça da Sé, nas imediações da Praça Municipal, próximo à Câmara de Vereadores, ao Elevador Lacerda e à sede da Prefeitura. Ou no terminal do Aeroporto, ou da Travessia para as Ilhas e cidades do Recôncavo. Usuários, sejam turistas sejam residentes, ficam às cegas.

O Elevador Lacerda, símbolo de ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, os Planos Inclinados e tudo o mais estão sempre com as cabines quebradas, há décadas não funcionam em plenitude, desperdiçando dinheiro a um custo de manutenção negligente.

O desprezo frequente dos mandatários com o casario do centro histórico é um crime para o qual competiria ao Ministério Público levar à Justiça prefeitos, vereadores e governadores do Estado.

Uma das inúmeras praias da capital entregues a lixo e esgoto, em flagrante de Thiago Guimarães

Uma das inúmeras praias da capital entregues a lixo e esgoto (foto de Thiago Guimarães)

Se demolem ou se deixam desabar, como tem sido feito, restará a Salvador mostrar a turistas e mesmo a seus cidadãos como atração distintiva de outras cidades que competem nesse setor apenas os shopping centers?

ACM Neto, atente-se aos detalhes. À boa iluminação das ruas e ao cuidado com as pistas. À salubridade das praias, à desautorização da politicagem nos postos e Upas (Unidades de Pronto Atendimento de Saúde).

Não somente às megalômanas, às rodas gigantes. Os empreiteiros da Operação Lava Jato já se declararam seu adversário. Se quiser que o eleitor corresponda o beijo e repita o voto em você na próxima eleição, cuide também das coisas simples.

 

 

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